Apaguem os canhões! Uma carta do arcebispo de Nápoles, cardeal Domenico Battaglia

Foto: Vincenzo Amoruso | Wikimedia Commons

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26 Agosto 2025

Não chamem de “danos colaterais” as mães que cavam entre os escombros. Não chamem de “interferências estratégicas” os jovens de quem vocês roubaram o futuro. Não chamem de “operações especiais” as crateras deixadas pelos drones.

O artigo é do cardeal Domenico Battaglia, italiano, arcebispo de Nápoles desde dezembro de 2020, publicado por Prima Loro, 21-08-2025. 

Eis o artigo.

O planeta ressoa com tambores de guerra vindos de todas as direções do horizonte. Na Ucrânia, treze mil civis apagados pelo fogo; em Gaza, cinquenta e sete mil vidas extintas como velas ao vento em vinte e um meses de cerco; do Sudão, quatro milhões de corpos em marcha em busca de um pedaço de sombra; em Mianmar, três milhões e meio de rostos dispersos entre cinzas e selva; e, acima de todos, uma cidade invisível que não para de crescer: cento e vinte e dois milhões de refugiados lançados ao vento como sementes.

Esses números — vocês sentem pulsar? — deveriam gelar o sangue, mas se dissiparão como névoa se não encostarmos o ouvido no batimento que guardam. Cada cifra é uma testa febril, uma fotografia desbotada apertada em um punho, uma voz que pede apenas um minuto sem sirenes.

A vocês que seguram as alavancas do poder — governos de terno, conselhos de administração lubrificados como engrenagens, alianças militares de voz metálica — digo que o Evangelho não dá descontos nem suaviza a verdade. Não pede carteirinha, não exige incenso: impõe reconhecer o homem quando o vemos, chamar de mal aquilo que esmaga o homem. Tive fome e me destes de comer, era estrangeiro e me acolhestes não é enfeite piedoso: é norma primária escrita com o pulso de Deus. Não existem cláusulas, não há rodapé pequeno o bastante para esconder o egoísmo.

Se querem ser guia e não leme à deriva, parem os comboios carregados de morte antes que cruzem a última fronteira; desmontem as máquinas que vertem chumbo e transformem-nas em arados, tubulações, carteiras escolares. Levem os orçamentos de guerra à mesa de um professor cansado: convertam milhões destinados a mísseis em salas de parto iluminadas, ambulâncias capazes de alcançar até os sofrimentos mais remotos.

E vocês que se afundam nas poltronas vermelhas dos parlamentos, larguem dossiês e gráficos: atravessem, ainda que por uma hora, os corredores apagados de um hospital bombardeado; respirem o diesel do último gerador; escutem o bip solitário de um respirador suspenso entre vida e silêncio, e depois tentem sussurrar — se conseguirem — a expressão “objetivos estratégicos”.

O Evangelho — para quem crê e para quem não crê — é um espelho impiedoso: reflete o que é humano, denuncia o que é desumano.

Se um projeto esmaga o inocente, é desumano. Se uma lei não protege o fraco, é desumana. Se um lucro cresce sobre a dor de quem não tem voz, é desumano.

E se não querem fazê-lo por Deus, façam ao menos por aquele pouco de humano que ainda nos mantém de pé.

Quando os céus se enchem de mísseis, olhem as crianças que contam buracos no teto em vez de estrelas. Olhem o soldado de vinte anos enviado a morrer por um slogan. Olhem os cirurgiões que operam no escuro em um hospital devastado.

O Evangelho não aceita seus comunicados “técnicos”. Remove toda tinta de pátria ou interesse e nos deixa diante da única realidade: carne ferida, vidas despedaçadas.

Não chamem de “danos colaterais” as mães que cavam entre os escombros. Não chamem de “interferências estratégicas” os jovens de quem vocês roubaram o futuro. Não chamem de “operações especiais” as crateras deixadas pelos drones.

Apaguem o nome de Deus, se isso lhes assusta; chamem-no consciência, honestidade, vergonha. Mas escutem: a guerra é o único negócio em que investimos nossa humanidade para obter cinzas. Cada projétil já está previsto nas planilhas de quem lucra com os escombros. O humano morre duas vezes: quando explode a bomba e quando seu valor é traduzido em lucro.

Enquanto uma bomba valer mais que um abraço, estaremos perdidos. Enquanto as armas ditarem a agenda, a paz parecerá loucura. Por isso, calem os canhões. Façam silenciar os índices da bolsa que crescem sobre a dor. Devolvam ao silêncio a aurora de um dia que não manche de sangue as ruas.

Todo o resto — fronteiras, estratégias, bandeiras infladas pela propaganda — é névoa destinada a desaparecer. Restará apenas uma pergunta:

“Salvei ou matei a humanidade que me foi confiada?”

Que a resposta não seja outra sirene na noite.

Convertam planos de batalha em planos de semeadura, discursos de poder em discursos de cuidado. Sentem-se ao lado das mães que remexem entre os escombros para salvar um ursinho de pelúcia: descobrirão que a estratégia suprema é impedir uma criança de perder a infância. Levem o cheiro das pedras queimadas para seus palácios: que impregne os tapetes, recorde a cada passo que ninguém se salva sozinho e que a única rota segura é trazer cada ser humano de volta para casa íntegro no corpo e no coração.

A nós, povo que lê, cabe o dever de não desistir. A paz germina na sala — um sofá que se estende; na cozinha — uma panela que se multiplica; na rua — uma mão que se estende. Gestos humildes, obstinados: você vale sussurrado a quem o mundo descarta. A semente de mostarda é mínima, mas torna-se árvore. Assim é o Evangelho: duro como pedra, terno como o primeiro choro. Exige escolha clara: construtores de vida ou cúmplices do mal. Terceiras vias não existem.

Dobra, Cristo, o orgulho dos poderosos, chama quem forja armas a dobrar o ferro em enxadas, convoca cada consciência a se abrir e defender o frágil com a teimosia de quem sabe que o bem é moeda que não desvaloriza. Cada minuto de atraso grava um novo nome no mármore. Que esta página — despojada de retórica, áspera de Evangelho — se torne espelho: quem nela se olhar decida se permanecerá servo da violência ou se fará servo dos irmãos.

Deus do fôlego negado,
arranca a mesa dos senhores que vendem o mundo a golpes de cúpula.
Vira ao contrário as suas cartas de ferro:
que o chumbo espalhado volte a ser terra,
que o orçamento armado se torne berço.

Oferece aos poderosos o espelho que não sabem quebrar:
o rosto de uma criança sem noite,
o tremor de um médico sem luz.

Faz com que não possam desviar o olhar
até que o privilégio vire vergonha
e a vergonha se faça justiça.

Lembra-nos que a carne vale mais que o emblema,
que quem lucra com o sangue cava a própria cova,
que a aurora não pertence a quem tem canhões
mas a quem guarda um abraço.

Cala as sirenes, dobra as bandeiras infladas de ruído,
e devolve-nos um silêncio capaz de fazer florescer o futuro.

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