Ação humana na criosfera e os impactos da globalização hidrológica. Entrevista especial com Cymene Howe

Estimativas preveem que todas as geleiras remanescentes da Islândia vão desaparecer até o ano 2170, diz a antropóloga

Foto: Reprodução

Por: Edição: Patricia Fachin | 14 Novembro 2022

“Na Groenlândia, perderam-se 260 bilhões de toneladas de gelo por ano e, na Antártica, cerca de 140 bilhões de toneladas entre 2006 e 2017. Entre 2006 e 2015, o nível médio do mar global aumentou cerca de 2,5 vezes mais rapidamente do que durante todo o século XX”, informou Cymene Howe na conferência ministrada no “Ciclo de Estudos Manifesto Terrano. Construindo uma geofilosofia de Gaia”, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU em 04-10-2022.

Segundo a pesquisadora, os dados indicam as transformações geradas pelo antropoceno em uma das cinco esferas da Terra, a criosfera, isto é, toda a superfície terrestre coberta permanentemente por gelo e neve. Entre as mudanças em curso, Cymene destaca a possível relação entre o derretimento das geleiras da Islândia e o aumento do nível do mar e de inundações em regiões como a Cidade do Cabo, na África do Sul. “Se analisarmos o derretimento de gelo na Islândia e o que se transforma em água na Cidade do Cabo, podemos fazer uma comparação entre o derretimento de gelo e a elevação do nível do mar nesses lugares. Chamo esse fenômeno de globalização hidrológica. Trata-se de um tipo de globalização especificamente criado pelo antropoceno, acelerado pelo impacto humano na criosfera e na hidrosfera. Com a globalização hidrológica, encontramos conexões não através dos vínculos de comércio, da migração, da mídia e das finanças, mas através de relações físicas criadas à medida que a hidrosfera é remodelada com a remodelagem do oceano”, explica na conferência a seguir, publicada no formato de entrevista.

Em suas pesquisas, Cymene Howe tem retratado as formas como as pessoas e os ambientes se cocriam a partir do antropoceno. Com pesquisas de campo nas Américas (Nicarágua, México, Estados Unidos) e no Ártico (Islândia, Groenlândia), ela vem chamando a atenção para as marcas do antropoceno no planeta. Seu projeto de pesquisa atual concentra-se em como o derretimento do gelo no Ártico afeta as populações locais e como o gelo derretido também interfere nas comunidades litorâneas a jusante nos EUA e na África Austral.

 


Cymene Howe

Foto: Rice University

Cymene Howe é antropóloga professora da Rice University, no Texas, e uma das apresentadoras do podcast Cultures of Energy, série de conversas sobre precariedade ambiental e respostas a ela.

 

Confira a entrevista.

 

IHU – Qual a situação das geleiras islandesas?

Cymene Howe – Geleiras no sul da Islândia estão derretendo gota a gota, lentamente. A crise climática está afetando a todos nós, em todos os lugares, embora esteja nos afetando de forma diferente em termos de perdas, magnitude e sofrimento.

No projeto em que estou trabalhando nos últimos anos, mantenho quatro princípios em mente. São eles:

1) a crise climática requer soluções baseadas em justiça climática;

2) a necessidade de responder de forma interligada à precariedade social e ecológica;

3) a elaboração de uma ciência da reconciliação;

4) o entendimento do que são a ciência climática e suas necessidades.

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC trata especificamente de como as mudanças climáticas afetam os oceanos, o litoral, e confirma que o derretimento das geleiras é a causa dominante da elevação do nível do mar. Os oceanos estão sendo afetos pela infusão do gelo derretido das camadas das calotas polares.

Na Groenlândia, por exemplo, perderam-se 260 bilhões de toneladas de gelo por ano e, na Antártica, cerca de 140 bilhões de toneladas entre 2006 e 2017. Entre 2006 e 2015, o nível médio do mar global aumentou cerca de 2,5 vezes mais rapidamente do que durante todo o século XX. Então, sabemos que o nível do mar está aumentando mais rapidamente e mais do que esperávamos.

A Islândia está passando por um grande derretimento de gelo. Cerca de 10% da superfície da ilha é coberta por gelo e a vida de muitas pessoas e as paisagens mudaram nos últimos 1.200 anos por conta desse processo. Uma estimativa conservadora prevê que todas as geleiras remanescentes da Islândia vão desaparecer até o ano 2170.

 

 

IHU – Que relações as pessoas que vivem perto das geleiras estabelecem com o ambiente?

Cymene Howe – Há uma relação crio-humana (cryohuman) entre o gelo e os seres que vivem perto das geleiras. Vou contar algumas histórias dessa relação crio-humana a partir de entrevistas que realizei com os moradores dessas regiões. Um desses moradores é uma jovem que cresceu no norte da ilha, onde ventos impenetráveis isolavam a cidade do resto do país em grande parte do an. Ela disse que ficava aterrorizada com o som do gelo do mar à noite. Com mais de 40 anos, ela lembra de ouvir, quando criança, através das janelas do seu quarto, um coro de gemidos agudos no porto e o som dos gelos batendo. É isto que muitos dos primeiros exploradores do Ártico chamavam de sinfonia do diabo, este raspar do gelo sobre o gelo. Hoje, esses ruídos noturnos assombrosos quase desapareceram por completo.

Um dos mais glaciólogos proeminentes da Islândia explicou que há muito tempo as geleiras vêm sendo descritas em termos comuns, mas elas possuem dedos, focinhos, línguas. Nas últimas décadas, o trabalho deste cientista consiste em mostrar que a ablação – descrição científica do derretimento e desprendimento de formas glaciais – está acontecendo mais rapidamente do que havia sido previsto ou imaginado e que o balanço de massa para garantir o equilíbrio glacial não existe mais.

 

 

Nos modelos antigos, as geleiras apareciam como manchas brancas nos mapas. Hoje, elas mudam tão rapidamente que se tornaram centrais para os sistemas dinâmicos de modelagem climática. Nesse sentido, a glaciologia está ficando mais parecida com a meteorologia, que persegue fenômenos que mudam rapidamente.

Também me encontrei com criadores de ovelhas que vivem e viveram próximos a geleiras. Eles sabem que elas podem se tornar monstruosas, derrubar casas, arrancar celeiros e ameaçam suas fazendas diante do risco de inundações glaciais e da queda de gelos que são do tamanho de carros. Eles recordam histórias de pessoas, animais e prédios que foram arrastados para o mar por inundações glaciais e se perderam nas águas geladas do Atlântico Norte.

 

Encontros crio-humanos

 

Ao conversar com pessoas na Islândia, utilizando a forma de antropologia cultural ou etnografia, percebi que as geleiras deixaram de ser vistas como ameaças às pessoas para se tornarem fontes de cuidado, algo que precisa de atenção. Antigamente, as geleiras transmitiam uma ideia de eternidade: era como se as ondas, as rochas e a areia fossem mudar somente em milhares de anos. Mas, agora, muitas dessas geleiras vão desaparecer em um tempo entre quem nasce hoje e quem tem a idade da minha avó.

No verão de 2016, uma ursa polar foi morta a tiros quando chegou ao litoral, no noroeste da Islândia. Os ursos polares não são nativos do país. Eles flutuam sobre o gelo marinho ou nadam da Groenlândia à medida que sua própria criosfera se dissolve. A menor distância entre a Groenlândia e a Islândia é de 300 quilômetros. Mas a distância que essa ursa percorreu foi consideravelmente mais longa, próximo de 600 quilômetros. Quando a carcaça dela foi dissecada, mostrou-se que ela tinha amamentado filhotes recentemente.

 

 

 

É uma política nacional na Islândia matar ursos polares quando eles chegam à vista no litoral. Ainda assim, a matança da mãe ursa provocou respostas emotivas em todo o país nos dias seguintes, especialmente em redes sociais como o Facebook. As reações se dividiram em duas linhas gerais. Primeiro, que os islandeses devem proteger a si mesmos e seus rebanhos e, considerando que os ursos chegam ao litoral da Islândia e estão famintos, cabe aos fazendeiros locais matá-los para garantir a segurança dos moradores. Segundo, que os islandeses devem adotar uma postura mais humana diante da chegada dos ursos polares já que eles invariavelmente vão aumentar com a mudança climática e a perda de gelos e de terras. Um porta-voz do Polar World, grupo alemão dedicado à preservação das regiões e criaturas polares, disse que a morte da ursa foi uma tragédia evitável. Ele acrescentou, com ironia, que aquele foi “mais um grande dia para a humanidade”.

Então, essas histórias, que as pessoas contam sobre o gelo perdido, ursos mortos, sons que desvanecem, unem-se como fragmentos do irrecuperável. Nos encontros crio-humanos, estamos entre o luto elegíaco e preocupações ligadas ao futuro subjuntivo. Nessas condições iminentes de colapsos de possibilidades e sinais de precariedade, surge a pergunta: Como captamos o sentido de precariedade de forma que ele possa ser traduzido para outras populações?

Uma das formas que encontrei para fazer isso é através da modalidade da antropologia pública, que amplia as questões sociais do nosso tempo e estimula diálogos amplos com o objetivo explícito de promover uma mudança social. Isso nos permite responder às condições específicas, colaborar e participar das mídias sociais e dos meios de comunicação.

 

 

IHU – Como surgiu a ideia do documentário “Not Ok. A little movie about a small glacier at the end of the world”?

Cymene Howe – Em 2018, colaborei com um cineasta islandês para criar um pequeno documentário chamado “Not Ok. A little movie about a small glacier at the end of the world”, sobre as geleiras do país. “Ok” parece a palavra “ok”, mas é o nome da geleira.

Naquela época, eu pesquisava geleiras na Islândia e conversei com pessoas que tinham sido afetadas por elas. Ok estava no mapa, mas não havia nada escrito sobre ela, com exceção de um pequeno relatório de 74 palavras, que dizia o seguinte: “De acordo com fotos e outros dados, uma das menores e mais famosas geleiras, Ok, está prestes a desaparecer para sempre. A partir de agora, Ok não mais se qualifica como geleira”. Ok foi a primeira geleira a ser perdida com a mudança climática. Entretanto, há pouca atenção para este fato e quase não há notícias sobre a questão.

 

 

Meus colegas e amigos islandeses tinham pouca consciência sobre a perda dessa geleira que, embora muito pequena, também era bem conhecida em todo o país. Ok esteve conosco por cerca de 800 anos. Apareceu, pela primeira vez, em um famoso mapa de geleiras, de 1792, que detalhou uma família glacial e, depois, em uma fotografia área de 1978. Esta foto de um satélite da Nasa mostra como Ok aparecia em 1986, à esquerda e, depois, em 2019.

 


Imagem de satélites da geleira Ok em 1986, à esquerda, e em agosto de 2019, à direita

Foto: Reprodução Nasa

 

Como podemos ver, a geleira quase desapareceu por completo. Mas a montanha ainda tem suas habilidades especiais. Um linguista dedicado à pesquisa e preservação de nomes de lugares disse que a montanha Ok pode escrever seu próprio nome, enfatizando que isso é bem especial para uma montanha. Ele disse que, ao olharmos para a imagem, podemos ver que o conjunto de rochas e neve forma um “o” com um “c” no meio. Em islandês antigo ou medieval, é assim que Ok teria sido escrito. Em outras palavras, a montanha Ok era bastante original.

 


Geleira Ok

 Foto: Reprodução

 

Ao glaciólogo que registrou o falecimento de Ok em 2014 eu perguntei como se sentia pela perda da geleira que vinha vigiando há anos. Ele fez uma longa pausa e me disse que, com o tempo, havia desenvolvido um carinho por Ok, mas agora ela havia desaparecido e que era uma perda, como a perda de um velho amigo.

 

Cerimônia memorial

 

Houve um silêncio relativo sobre a morte de Ok. Os antropólogos sabem que reconhecer uma morte nos compromete com imaginar um futuro. Os rituais de luto são praticados universalmente pelos humanos em todas as culturas conhecidas, em todos os lugares e em todos os tempos. Este tipo de reconhecimento foi o espírito por trás da nossa cerimônia memorial para Ok. Em agosto de 2019, com artistas e ativistas do clima, realizamos uma espécie de funeral da geleira. O memorial no topo da montanha Ok foi o primeiro do mundo para lembrar a derrubada de uma geleira pela mudança climática.

 


Memorial realizado na Geleira Ok

Foto: Reprodução

 

No memorial, há uma carta para o futuro, que diz o seguinte: “Ok é a primeira geleira islandesa a perder seu status de geleira. Nos próximos 200 anos, todas as nossas geleiras deverão seguir o mesmo caminho. Este monumento é para reconhecer que nós sabemos o que está acontecendo e o que precisa ser feito. Somente você sabe se nós conseguimos isso.”

O falecimento de Ok havia passado praticamente despercebido nas imprensas inglesa e islandesa, mas, com seu memorial, essa pequena geleira se tornou objeto de atenção mundial. A história da vida e da morte de Ok e o seu memorial, surpreendentemente, se tornaram manchetes no mundo todo. Essa é uma das formas como a antropologia pública pode fazer a diferença, envolvendo trabalho colaborativo com as comunidades e mensagens públicas sobre as questões críticas com as quais nos deparamos. Isso também significa sentir a crise climática que envolve todos nós e altera as relações socionaturais componentes do nosso mundo coletivo.

 

 

IHU – Quais os problemas gerados pelo derretimento das geleiras? Quais regiões serão mais atingidas?

Cymene Howe – A perda do gelo no Ártico e em outros lugares está tornando o oceano inchado em todo o mundo. O derretimento das geleiras na Islândia significa que, em algum outro lugar mais distante, está ocorrendo uma elevação do nível do mar. Tenho pensado sobre como o derretimento gera a elevação do nível do mar. Será possível seguirmos as águas glaciares? O que significa seguir o gelo e a água como um veículo de conexão nessa conectividade hidrológica?

O relatório do IPCC informa que, em 2100, o nível do mar vai aumentar entre 18 e 59 centímetros. Muitos especialistas acreditam que a elevação pode chegar a um metro em todo o mundo. Significa que, em aproximadamente 80 anos, cerca de 200 milhões de pessoas estariam submersas por causa da maré alta.

 

Hidrosfera em mudança

 

Com base na conectividade física da água, nossa pesquisa sobre o derretimento e a elevação do nível do mar trabalha colaborativamente com as comunidades para entender como elas estão lidando com uma hidrosfera em mudança. Esses ciclos hidrológicos em evolução criam linhas de conectividade invisíveis no mundo todo, uma conectividade que é social, material e formal.

Quero apresentar rapidamente o quadro sobre a ciência por trás desse projeto de pesquisa. Até recentemente, era impossível seguir a água de uma geleira derretida porque não existia uma ciência que tratasse disso. Em 2018, um grupo de físicos da Nasa apresentou um modelo on-line que mostra como a criosfera tem impactado o aumento do nível do mar no mundo. O derretimento da água doce vai aumentar o nível do mar em 293 cidades litorâneas. Atualmente, essa é a única ferramenta de modelagem capaz de atribuir locais específicos de derretimento de gelo e apontar seus efeitos nas cidades litorâneas. Segundo o físico que desenvolveu a ferramenta, cidades litorâneas estão sofrendo inundações por causa do aumento do nível do mar e isso pode estar relacionado com o derretimento de gelo em algum local específico.

Com este sistema, é possível rastrear o derretimento do gelo de um local para outro, da Antártica aos Alpes, do Ártico canadense aos Andes, por exemplo, e verificar que isso tudo está gerando uma elevação do nível do mar. Essa ferramenta está disponível para as comunidades litorâneas e planejadores.

 

 

IHU – Que região está sendo impactada pelo derretimento do gelo da Islândia?

Cymene Howe – A Cidade do Cabo, na África do Sul, é a cidade que poderá ser mais afetada pelo derretimento do gelo da Islândia. Nos EUA, a região mais afetada pelo derretimento do gelo da Groenlândia é a Ilha de Honolulu. No projeto de pesquisa, comparei as práticas de adaptação nesses lugares. Analisei as políticas e prioridades nas comunidades e nas agências governamentais para entender a conectividade da água e as relações compartilhadas.

Se analisarmos o derretimento de gelo na Islândia e o que se transforma em água na Cidade do Cabo, podemos fazer uma comparação entre o derretimento de gelo e a elevação do nível do mar nesses lugares. Chamo esse fenômeno de globalização hidrológica. Trata-se de um tipo de globalização especificamente criado pelo antropoceno, acelerado pelo impacto humano na crioesfera e na hidrosfera. Com a globalização hidrológica, encontramos conexões não através dos vínculos de comércio, da migração, da mídia e das finanças, mas através de relações físicas criadas à medida que a hidrosfera é remodelada com a remodelagem do oceano.

 

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