Um sopro do mundo animal e vegetal na literatura que desajusta nosso “eu” antropocêntrico. Entrevista especial com Faustino Teixeira

Faustino Teixeira observa como essa virada tem contribuído para alargar os entendimentos sobre si e toda a teia de vida que nos circunda nesse planeta onde tudo é conectado

Foto: Pixabay

Por: Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos | 01 Agosto 2022

 

Afirmar que vivemos num estado de crises já pode ser tomado como lugar comum, embora ainda haja muitos que preferem a negação. Mas, o que se tem posto como principal desafio é, primeiro, encarar que somos nós que causamos grande parte dessas crises e, segundo, que só a nossa mudança de perspectiva de humanos como centro do universo é capaz de iluminar verdadeiras saídas. É isso que propõe o teólogo Faustino Teixeira, que tem se dedicado a uma virada, colocando-se a pensar o mundo não desde o humano somente, mas desde outras formas de vida que nos cercam. “Na contramão de um exclusivismo humano, que dominou o horizonte de nossa reflexão, tomamos consciência de que somos parte do vivente e não ponto de chega de sua formatação”, aponta.

 

Essa tomada de consciência – ou ao menos seu processo – tem relação com essa virada animal e vegetal. “Tudo está entrelaçado, conectado. Vivemos todos numa teia de emaranhados fabulosos que compõem a textura do mundo”, reflete na entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU. “Temos muito o que aprender nessa estratégia biológica de artimanha e colaboração. As redes micorrízicas estão aí a contribuir para o desafio da coexistência no mundo. É uma ressurgência do socialismo biológico a abrir brechas para a reflexão política, num mundo diluído pela pegada antropocêntrica”, completa.

 

E não pense que Faustino se deu conta disso num frio e asséptico laboratório de azulejos brancos, com os olhos cravados em um microscópio. Ele percebeu esses movimentos no mundo. Mas, é bem verdade, sofrendo uma influência direta da literatura, tanto de antropólogos que pensam desde esse horizonte, autores indígenas com suas outras cosmovisões, mas também em autores já muito conhecidos. “Veio a literatura para corroborar minha reflexão, com os estudos de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Essa convocação à riqueza da imanência e da beleza e complexidade dos mundos animal e vegetal. Foi a azeitona que faltava na empada de minha reflexão”, brinca.

 

Tais tomadas de consciência fazem avançar, sob vários aspectos. Como diz, o “futuro deve nos revelar caminhos novidadeiros” a partir dessa virada de chave. “Os caminhos do diálogo são essenciais e devem fazer vibrar nossas cordas mais íntimas com outras melodias, vindas não só de outras tradições religiosas, como também de outras espiritualidades e desse fabuloso mundo invisível, abaixo de nossos pés”, observa.

 

Por fim, ainda aponta como essa virada é capaz de demonstrar quão exaurida está a humanidade antropocêntrica. “Como indica Merlin Sheldrake, no seu livro A trama da vida, esse recurso terapêutico é bem eficaz para lidar com o robusto modelo do ‘eu’, defendido a todo custo”, indica. Afinal de contas, esse “eu” que se põe no centro do mundo está atordoado, sequer consegue mais ouvir a si, e adoece com a Terra. “No processo terapêutico, este ‘eu’ vem atordoado e balançado, abrindo caminho para um sentimento distinto, de ‘fusão com algo maior e um novo senso de relação com o mundo’”, sintetiza Faustino.

 

Faustino Teixeira (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Faustino Teixeira é colaborador do Instituto Humanitas Unisinos - IHU e do canal Paz Bem. Possui graduação em Ciência das Religiões pela Universidade Federal de Juiz de Fora, graduação em Filosofia pela mesma instituição, mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente é professor convidado da Universidade Federal de Juiz de Fora, no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, depois de sua aposentadoria como professor titular na mesma Universidade, em 2017.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – De que é feita a trama da vida?

 

Faustino Teixeira – Respondo essa questão falando um pouco de meu itinerário reflexivo nos últimos anos; de explicar como nasceu esse meu interesse atual pelo “mundo invisível”, ou seja, esse mundo que está sob os nossos pés, e que nos apresenta a maravilha das “teias micorrízicas” em sua impressionante capacidade de interconexão e ressurgência. Isso ocorreu sobretudo depois da leitura da encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado com a casa comum (Laudato si’).

 

Em vários momentos da encíclica, Francisco fala de sua convicção em torno da interligação que vigora no planeta. Tudo está entrelaçado, conectado. Vivemos todos numa teia de emaranhados fabulosos que compõem a textura do mundo. Exemplificamos com os números 16, 42, 91, 92 e 117 da Laudato si’, que abordam essa maravilhosa percepção de que tudo está entrelaçado.

 

 

Na contramão de um exclusivismo humano, que dominou o horizonte de nossa reflexão, tomamos consciência de que somos parte do vivente e não ponto de chega de sua formatação. Francisco enfatiza logo no início de encíclica “que nós mesmos somos terra” e que nosso organismo é composto por “elementos do planeta” (LS 2). E tudo o que brilha na terra, seja numa folha, vereda ou orvalho, é expressão maravilhosa de um “mistério a contemplar” (LS 233).

 

“Tecidos de nós” e “sob os nossos pés”

 

Junto com minha reflexão sobre a encíclica, fui aprofundando os estudos de antropologia, com o aporte de pesquisadores como Tim Ingold e Anna Tsing, que me ajudaram a situar de forma precisa essa teia inter-relacional. Tim Ingold fala em “tecido de nós” e “emaranhado de trilhas entrelaçadas”. O ser humano situa-se aí, como parceiro de caminhada, envolvido nesse “nexo singular de crescimento criativo”, não como algo excepcional, mas como “espécie companheira” numa viagem cósmica comum.

 

Também Anna Tsing despertou-me para esse mundo “sob os nossos pés”, essa “cidade subterrânea” das teias micorrízicas que “conectam não apenas raízes e fungos, mas, através de filamentos fúngicos, árvores com árvores, conectando a floresta em emaranhados”. Essa autora teve para mim um papel importante na minha percepção de que diálogo é também diálogo interespécies. Tsing ajudou-me a antenar com os passos de “ressurgência holocênica” presente nesse mundo invisível, num embate fundamental contra a “pegada” do Antropoceno. Foi a autora que me proporcionou captar com pertinência esse bonito retorno das “ecologias habitáveis”, a capacidade de resistência e articulação presentes no “mundo invisível”, e a irradiação criadora de muitos organismos que forjam “assembleias de habilidades multiespécies em meio às perturbações”.

 

 

Vale igualmente citar a contribuição dada por Gilles Deleuze e Félix Guattari num dos trabalhos apresentados da obra Mil platôs, em torno dos rizomas e suas linhas de desterritorialização.

 

Cosmovisão de povos originários

 

Junto com a antropologia, o enriquecimento proporcionado pelo contato com as obras de Davi Kopenawa e Bruce Albert (A queda do céu), bem como de Ailton Krenak (Ideias para adiar o fim do mundo e A vida não é útil). Foram livros importantes que, também amparados pelas reflexões de Philippe Descola, de um animismo restaurado, ajudaram-me a perceber que o mundo inteiro vem permeado por forças vitais, e que toda a vida é tocada pela pulsação do movimento.

 

 

Estratégia biológica de artimanha e colaboração

 

Do aprendizado com a antropologia e a cosmovisão dos povos originários, bem como também do pensamento vitalizador do mestre Dogen, no Soto Zen, passei a me interessar pela reflexão em curso no mundo da biologia e dos filósofos envolvidos na reflexão sobre o mundo animal. É o caso dos pensadores Stefano Mancuso, Emanuele Coccia, Paul Stamets. Alguns deles estiveram presentes na última Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, realizada virtualmente em 2021, abordando a temática da “virada vegetal”.

 

 

Foi quando se formatou para mim, de forma clara, a ideia de “trama da vida”, que é título do exemplar livro de Merlin Sheldrake, A trama da vida. Este autor, junto com outros como Donna Haraway e Humberto Maturana, reforçou para mim algo que estava presente em minha reflexão em torno do potencial colaborativo presente em seres da natureza e seu possível impacto na reflexão sobre a política. Temos muito o que aprender nessa estratégia biológica de artimanha e colaboração. As redes micorrízicas estão aí a contribuir para o desafio da coexistência no mundo. É uma ressurgência do socialismo biológico a abrir brechas para a reflexão política num mundo diluído pela pegada antropocêntrica.

 

Literatura, a “azeitona da empada”

 

Finalmente, veio a literatura para corroborar minha reflexão, com os estudos de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Essa convocação à riqueza da imanência e da beleza e complexidade dos mundos animal e vegetal. Foi a azeitona que faltava na empada de minha reflexão.

 

Novos estudos foram sendo apropriados por mim, dentre os quais os trabalhos preciosos de Maria Esther Maciel e Evando Nascimento. Pioneiro na reflexão sobre o pensamento vegetal, Nascimento ajudou-me a aprofundar a cognição presente nos mundos animal e vegetal e o desafio de pensar a “florestania” e também a vida inserida no contínuo fluxo planetário. A singularidade da reflexão de Evando Nascimento foi justamente de abrir o campo de atenção dos estudiosos de literatura para o “apelo vegetal” que está vivo e presente na literatura brasileira.

 

 

IHU On-Line – Em que sentido repensar a condição humana para além da visão antropocêntrica nos revela formas de existência viáveis no antropoceno?

 

Faustino Teixeira – Há inúmeros trabalhos que se irradiam hoje nos laboratórios acadêmicos sobre o tema do Antropoceno. A questão vai ficando cada vez mais assimilável, em razão dessa intensa produção sobre o tema, com a presença pioneira dos trabalhos de Bruno Latour, Isabelle Stengers e Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros. Sublinho também o aporte aqui no Brasil dos debates proporcionados pelas reflexões de Antonio Nobre e Carlos Nobre, chamando-nos atenção para os riscos do desmatamento provocado pelo homem-humano. O Antropoceno, como mostrou com pertinência Eliane Brum, é a expressão mais viva e dolorosa da “pegada” humana na Terra. O Antropoceno é tempo da “perturbação” provocada pelo homem do meio ambiente, com repercussões catastróficas para o futuro da habitabilidade em nossos tempos difíceis.

 

 

As dores do Antropoceno são portas de entrada para uma reflexão nova que vem se configurando no tempo atual e que são marcadas pela riqueza da multidisciplinaridade. Junto à crítica ao Antropoceno, o questionamento do antropocentrismo que pontuou a dinâmica histórica na modernidade pós-cartesiana. O pensamento de Lévi-Strauss foi fundamental para balançar o exclusivismo antropocêntrico, revelando para nós o desafio fantástico da alteridade, em sua dignidade única. Foi um dos pioneiros no questionamento da ruptura enraizada entre natureza e cultura. Tudo isso gerou, como ele afirma, um “humanismo pervertido”, desvinculado de sua matéria nutriz.

 

Um humanismo que situou, equivocadamente, o humano como “lugar definitivo da verdade”. O que vemos hoje é um humanismo “sem restrição e limite”, violento no seu afã de domínio e predação. Esse “humanismo generalizado” de que fala Lévi-Strauss desembocou nesse triste horizonte em que vivemos, que já está provocando catástrofes por todo canto. O filósofo francês foi um dos primeiros a nos alertar sobre esse risco, convocando-nos a ampliar o olhar para além das dicotomias que nos cegam. Sua lição, nem sempre compreendida, esteve sempre imbuída de um alerta essencial.

 

 

Estratégias de sobrevivência vistas pelas brechas do sistema

 

Na busca de “formas de existência” viáveis, vamos com nosso tato e sensibilidade cavando reflexões alternativas, e aprendizados sorvidos no mundo dos povos originários, especialistas de fim de mundo, mas igualmente no dos fungos com suas estratégias de resistência, resiliência e cooperação nesse tempo de ruínas. Apesar de inglória, temos que repensar estratégias de sobrevivência nas brechas que o sistema possibilita.

 

Como diz Donna Haraway, temos que aprender a “viver com o problema”, habitando na barriga do monstro. Há que buscar “gestos barreira” (Latour) e artes inusitadas para sobreviver num planeta danificado; de encontrar artimanhas para “adiar o fim do mundo” (Krenak). Gosto muito das reflexões de Haraway, quando nos convoca a assumir a condição de “espécies companheiras” nesse trajeto inglório de superação da necrofilia antropocena. Ela fala de cavar “erupções de vitalidade inesperada” para lidar com o problema.

 

É sugestiva sua identificação como pensadora “compostista” em vez de “pós-humanista”. Assim como os vermes, que anunciam sua vitalidade no terreno da decomposição, somos igualmente inflados a buscar formas de existência baseadas nessa estratégia, sendo capazes de “mexer, misturar e dissolver uma coisa na outra”. Vale tudo para criar caminhos alternativos e alegres, com nossos “paraquedas coloridos”, como diz Krenak.

 

IHU On-Line – Como os trabalhos de autores como Humberto Maturana e Merlin Sheldrake, respectivamente, Ontologia da Realidade e A trama da vida - como os fungos constroem o mundo, impactaram-no na forma de ver e conceber o mundo?

 

Faustino Teixeira – Como disse anteriormente, a ajuda que tive desses autores foi justamente no campo da percepção da importância do diálogo e cooperação nessa tarefa difícil de manter acesa a resiliência em nosso tempo. Em sua Ontologia da realidade, Maturana sublinha “que toda recusa em ajudar ou compartilhar violenta nosso ser biológico básico”. O autor fala no amor como “fundamento biológico do social”, que envolve o desafio essencial de aceitar e respeitar o outro. Como ele diz, “o amor é o inimigo da apropriação”, e a competição contraria essa perspectiva, entendida pelo autor como biológica. Para Maturana, “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”.

 

 

Sobrevivem não necessariamente os que são mais fortes, mas aqueles que melhor sabem se articular e cooperar. Isso também está bem presente na obra de Sheldrake, que considero uma das mais importantes nesse nosso tempo. Ele fala da capacidade de resistência dos fungos na “bagunça dos humanos”, justamente em razão de seu potencial colaborativo. Eles “persistiram depois dos cinco principais eventos de extinção da Terra”. Portanto, têm muito a que nos ensinar. Os estudos relacionados à micologia radical são de importância singular para o acesso a caminhos alternativos de sobrevivência.

 

IHU On-Line – No campo literário, Clarice Lispector é uma autora a quem o senhor tem se dedicado não somente a ler, mas a perscrutar os sentidos profundos de sua obra. Como a literatura dessa autora nos convida a repensar a condição humana?

 

Faustino Teixeira – Estou muito feliz por ter encontrado uma abertura no IHU para trabalhar com a literatura de Clarice Lispector. Os cursos têm possibilitado aprofundar minha reflexão nesse campo, com uma modelagem lírica maravilhosa. Considero Clarice, junto com [Guimarães] Rosa, uma das autoras que mais me ajudou a entender o valor do mundo da imanência. Como ela diz, através da personagem G.H., o divino é o real. Clarice, com suas artimanhas fantásticas, nos convida a manter acesa nossa atenção ao mundo do cotidiano, como lugar do espetáculo maior da vida, ajudando-nos, como Diadorim a Riobaldo, a perceber as riquezas do nosso entorno.

 

 

 

É uma escritora que nos convoca a ouvir o chamado ancestral da natureza, daí sua identificação profunda com o mundo animal. Há uma sintonia fina de sua reflexão com a mística, apontando o desafio do despojamento radical da tessitura humana como caminho de acesso à coisa, ao neutro, à matéria viva e vertente. Clarice é uma crítica contumaz do mundo da superficialidade, do “paraíso dos adornos”, que busca ardentemente através de seus personagens captar a “raiz de si mesma” e a “matéria-prima” do mundo. Clarice é uma escritora que tem consciência da riqueza que habita “a vida anterior”, ancestral, e nos convoca a partilhar da força desse chamado.

 

É algo que percebo também na experiência do Zazen no Zen Budismo, e que foi tão bem assinalada por José Carlos Michelazzo, estudioso da Escola de Kyoto. Para esse autor, a prática da meditação Zen é um caminho que se abre para recuperar a teia cósmica de que fazemos parte, de recuperar a memória da unidade perdida no mundo da dualidade. A meditação, diz Michelazzo, é um potente mecanismo para esse essencial retorno, esse caminho de volta à nossa casa, e à Casa comum, que é a Terra. Na linha do pensamento de Dogen, Michelazzo sublinha que a humanidade dualística do homem fica muito aquém da sua realidade verdadeira.

 

IHU On-Line – Agora que abordamos alguns aspectos fundamentais dessa vertente ontológica, gostaria que o senhor nos explicasse o que é a chamada virada animal e vegetal na literatura.

 

Faustino Teixeira – Vejo aqui a contribuição de dois autores de nossa crítica literária que são muito importantes para essa abertura ao chamado animal e vegetal na literatura. Falo de Maria Esther Maciel e Evando Nascimento. Em 2016, Maria Esther lançou seu livro pioneiro, Literatura e Animalidade. Numa das epígrafes de seu livro, cita uma passagem de Guimarães Rosa: “Podemos pensar como homem e como bois, mas é melhor não pensar como o homem.” Trata-se de um trecho tirado do maravilhoso conto de Rosa, Conversa de bois.

 

Para a autora, Rosa foi “o maior animalista de nossa literatura”, mas celebra igualmente o valor da Clarice Lispector nesse campo. Ela menciona ainda a força da presença da cachorra Baleia em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A descrição de sua morte no romance é das mais singelas e expressivas: “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás.” Maria Esther chamou-nos também a atenção para outros autores internacionais, como J.M. Coetzee, com seus livros Vida dos animais e Desonra. E, na poesia, autores como Rilke (A pantera) e Ted Hugues (O jaguar).

 

Com respeito a Evando Nascimento, lembro aqui o seu livro Clarice Lispector, uma literatura pensante. Ele debruça-se em particular na narrativa de Clarice, indicando como a autora teve um papel fundamental em “questionar os limites do humano” e os caminhos de ultrapassagem no sentido de um “chamado” alternativo. Para Evando, a escritora foi muito importante para abrir pistas a uma vereda nova, de experiência de ser outro, aventando a trilha de uma ancestralidade esquecida. De modo particular, na Paixão segundo G.H., Clarice aponta o caminho da “crueza do vivo” através da “coisa feia e monótona” de uma barata.

 

Salto vegetal

 

Em outro livro, mais recente, Evando aventura-se no salto vegetal, refletindo sobre a literatura e as plantas (Pensamento vegetal). Como autor influenciado por Jacques Derrida, dentre outros, Evando avança pela literatura em busca da superação do tradicional conceito de humanismo. Com agudez de pensamento, lança sua crítica a autores como Martin Heidegger. Sublinha a incapacidade de certos segmentos da filosofia de pensar para além da tradição humanista, ou em favor de um outro humanismo mais integrador e relacional. Defende com vigor a cognição presente no mundo vegetal, para além de nosso imaginário simbólico, frisando seu potencial comunicador.

 

Dialogando com autores como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, Evando desvela o vasto universo dos animais e vegetais presentes em suas narrativas. Em favor de um “fluxo contínuo planetário”, Evando busca atender ao “apelo vegetal” e destacar sua presença na literatura.

 

 

IHU On-Line – Quais são as especificidades do pensamento animal expresso na literatura?

 

Faustino Teixeira – Um traço fundamental presente na reflexão da crítica literária sobre o tema é a crítica ao excepcionalismo humano, abrindo espaços importantes para um olhar mais ampliado sobre os animais na literatura. Autores como Rosa e Clarice provocam os leitores para uma nova visada, “intensamente desfigurante”, desarticulando os preconceitos vigentes sobre o mundo animal e sobre a diferença em geral.

 

No caso de Rosa, a presença maravilhosa de sua reflexão em Meu tio Iauaretê, quando mostra a metamorfose essencial pela qual passa o onceiro no conto. Cito também aqui a reflexão de José Miguel Wisnik, que foi colunista do Globo, tendo destacado em crônicas do jornal reflexões singulares sobre o tema. Cito como exemplo seus argumentos desenvolvidos em favor do conceito de “gente” aplicado aos animais, com base nas reflexões de Donna Haraway e Eduardo Viveiros de Castro. Como bem sinaliza, “gente é quem compartilha o ser-estar com o outro, com palavras e sem palavras, numa zona definível e indefinível onde se trocam senhas e recados do existir”.

 

Em postagem no Facebook, de dezembro de 2013, Wisnik sinaliza que “tudo que olha é gente. Da perspectiva da onça, o nosso sangue é a cerveja dela”. O olhar e o ser olhado como o tocar e o ser tocado, que vigora entre os seres multiespécies, guarda um vigor e significado que diz bem mais do que as palavras. Como lembra Wisnik, “os bois de Guimarães Rosa são gente, demasiado gente, puxando os carros ou levados em tropa para o matadouro, num mundo em que a permeabilidade da vida com a vida é ainda abundante”.

 

IHU On-Line – Por outro lado, quais são as especificidades do pensamento vegetal expresso, por exemplo, n0 pensamento de Stefano Mancuso?

 

Faustino Teixeira – O biólogo Stefano Mancuso esteve também na Flip dedicada ao pensamento vegetal. No Brasil estão saindo livros importantes que ele escreveu, entre os quais, Revolução das plantas e A incrível viagem das plantas , esses dois pela editora UBU, que tem privilegiado esse tema. Mancuso sublinha que as plantas, enquanto organismos vivos, são profundamente capazes “de aprender com a experiência”. São portadoras de “cognição” específica e de mecanismos singulares de memorização. Elas, de forma extraordinária, lembram-se muito bem do momento em que devem florescer. As plantas, diz Mancuso, estão em nosso cenário há muito tempo, cerca de 600 milhões de anos e a quantidade de sua biomassa constitui ao menos 80% do peso de tudo que está vivo sobre a Terra.

 

 

É algo de extraordinário e provocador. Elas sabem como lidar com os predadores, com seus mecanismos de resiliência. Como diz o autor, “sem poder escapar como qualquer animal faria, a única possibilidade de sobrevivência é resistir à predação; não se curvar a ela”. Trata-se de uma estupidez, diz o autor, imaginar que falta sensibilidade às plantas. Os vegetais sabem como evitar os problemas, buscar soluções para as intempéries, encontrando caminhos peculiares de sobrevivência apesar do calor, do frio ou dos predadores. Para facilitar sua adaptação, os vegetais se servem do sistema radicular que ajuda a guiar a planta.

 

Nesse tempo em que assistimos a grandes devastações vegetais, ao desflorestamento necrófilo, deveríamos nos curvar para aprender com o mundo vegetal, e ter a consciência de que sem ele não poderemos sobreviver. As plantas são o “motor da vida”. Não há como viver sem esse suprimento essencial.

 

IHU On-Line – Por que a despeito de nosso antropocentrismo, tal como sugere Anna Tsing, não podemos viver sem outras espécies?

 

Faustino Teixeira – Como já dissemos, estamos todos enredados num emaranhado de vida, onde as trocas são fundamentais. Nós precisamos das outras espécies para sobreviver. Precisamos dos animais, dos vegetais, dos fungos e dos minerais. Não há como querer escapar dessa dinâmica interespécies. Esse é o diálogo mais imprescindível hoje, caso contrário vamos esbarrar nas catástrofes, que já estão em curso.

 

Como indica Anna Tsing, já estamos num “mundo de pragas”, de “perturbação ecológica humana”. O caminho necrófilo já está aí, à vista. O desafio que se abre é o desafio de um aprendizado de convivência, de simbiose, de captação da metamorfose. Estamos diante da urgência de um novo modo de olhar o mundo, de deixar-se habitar pela diferença, deixar-se entrelaçar também pelas histórias não humanas. O diálogo interespécies é o caminho que se ergue diante de nós como possibilidade única para uma nova habitabilidade.

 

Anna Tsing nos convoca a ocupar as ruínas, o que significa aproveitar as brechas para o “trabalho de viver juntos, mesmo onde as probabilidades estejam contra nós”. Temos que buscar uma nova arquitetura para além da miséria que habita a engenharia das plantations. Essa tecnologia fracassada é geradora de necrofilia. A saída não está na monocultura, mas no milagre dos “emaranhamentos nativos, humanos e não humanos”. É um modo urgente de refazer paisagens habitáveis, de criar “assembleia de espécies”. Tsing fala em ressurgência, palavra rica e fundamental. E a entende como esse trabalho comum de muitos organismos em favor de habitabilidade multiespécies. Esse é o novo nome do diálogo, essencial para o nosso século XXI.

 

IHU On-Line – Qual a contribuição da virada animal e vegetal na literatura para a Teologia, campo no qual o senhor dedicou décadas de sua vida e é especialista?

 

Faustino Teixeira – O meu modo de ser teólogo modificou-se radialmente depois dessas minhas experiências com o mundo da alteridade animal e vegetal. É um caminho irreversível que provoca, no meu caso, a necessidade de rever com seriedade toda a minha reflexão tradicional sobre os grandes temas da teologia. Chamo especial atenção para o questionamento do antropocentrismo que ainda habita o mundo católico e cristão. Mesmo o Papa Francisco, em sua encíclica Laudato si’, ainda está refém de uma visão antropocêntrica, ainda que refute o que denomina “antropocentrismo desordenado”. Esta perspectiva foi questionada por Eduardo Viveiros de Castro em Simpósio no Instituto Católico de Paris.

 

 

Permanece vigente uma visão que coloca o ser humano no centro e “acima das outras criaturas” (LS 119), o que não consigo aceitar nesse meu atual momento de reflexão. Não acredito que essa preocupação atual com o mundo imanente, essa celebração da matéria, seja algo problemático, ou como um “confinamento asfixiante”, como asseverou Francisco. Discordo dessa posição, e acho que o futuro deve nos revelar caminhos novidadeiros também nesse campo no qual a teologia e a pastoral patinam. Os caminhos do diálogo são essenciais e devem fazer vibrar nossas cordas mais íntimas com outras melodias, vindas não só de outras tradições religiosas, como também de outras espiritualidades e desse fabuloso mundo invisível, abaixo de nossos pés. É o grande aprendizado que se coloca diante de nós.

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

 

Faustino Teixeira – Sim, gostaria de acrescentar um tema que também tem me interessado nesse estudo do mundo invisível, sobretudo relacionado aos fungos. Chamo aqui a atenção para os estudos que estão em curso envolvendo os cogumelos fantásticos e que dizem respeito à terapia psicodélica. Falo aqui dos estudos incluindo a psilocibina. Em casos especiais de doenças terminais ou distúrbios psiquiátricos, o recurso a tais tratamentos tem se mostrado muito eficaz, assim como temos visto também com o uso terapêutico do canabidiol.

 

Em alguns casos, esses medicamentos funcionam como uma “reinicialização do sistema”, abrindo janelas de respiro, alívio e apoio que são essenciais para lidar com a impermanência e o sofrimento; um caminho de flexibilidade mental capaz de ajudar na reorganização do mundo interior. Como indica Merlin Sheldrake no seu livro A trama da vida, esse recurso terapêutico é bem eficaz para lidar com o robusto modelo do “eu”, defendido a todo custo. No processo terapêutico, este “eu” vem atordoado e balançado, abrindo caminho para um sentimento distinto, de “fusão com algo maior e um novo senso de relação com o mundo”.

 

Abrem-se, assim, novas pontes da terapia com a espiritualidade. Com base no livro organizado por Paul Stametz, Fungos fantásticos, nos damos contas de pesquisas bem interessantes que estão sendo realizadas com o recurso dos medicamentos psicodélicos, como a psilocibina. O livro cita uma pesquisa divulgada por especialistas da John Hopkins University na qual ao menos 60% dos envolvidos manifestaram uma “experiência mística completa”.

 

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