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01 Abril 2022

 

"A lógica militar que trata o adversário como inimigo a ser eliminado a qualquer preço atua tanto nas relações entre países e povos, quanto nas relações interpessoais e sociais. A guerra é a expressão maior dessa lógica assassina. Por isso, precisamos desmilitarizar o coração, a sociedade e as relações internacionais. Sem isso, não haverá paz duradora", escreve Francisco de Aquino Júnior, Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE, professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

 

Eis o artigo.

 

As imagens e cenas divulgadas pela mídia nas últimas semanas sobre a guerra na Ucrânia são impactantes, chocantes, aterrorizantes: centenas de mortos e feridos; milhares de refugiados (quase três milhões!); residências, escolas e até hospitais destruídos; crianças e idosos mortos, feridos, em fuga... Uma tragédia! Um crime! Um atentado contra a humanidade e contra Deus: Quem atenta contra os filhos de Deus atenta contra o próprio Deus. As mães entendem bem disso: “faça contra mim, mas não faça contra meu filho”. O escândalo é ainda maior pelo fato dos principais interessados e promotores dessa guerra (Putin e Biden) se dizerem cristãos.

 

Diante dessa tragédia ou desse crime temos que reagir e gritar com toda força: Parem! Chega! Basta! “Em nome de Deus, parem esse massacre!" Nada justifica uma guerra. Não existe guerra justa. Toda guerra é maldita porque é assassina. Não podemos banalizar a vida e a morte dos filhos e filhas e de Deus. E aos que creem ou dizem crer em Deus, recordamos com o Papa Francisco: “Deus é apenas o Deus da paz, ele não é o Deus da guerra, e aqueles que apoiam a violência profanam o seu nome!"

 

Ao mesmo tempo que temos que reagir com toda força contra a guerra, temos que construir caminhos de paz. E isso exige diálogo, renúncias, acordos. A paz não se constrói da noite para o dia nem a toque de mágica. É um processo árduo, difícil, penoso...

 

No meio de uma guerra, o primeiro desafio é a garantia de medidas de proteção e de ajuda humanitárias: corredores humanitários; alimento, água potável, medicamento e assistência médica; acolhida de refugiados; não bombardeio de áreas civis. Mas isso não resolve o conflito. Apenas ameniza seu impacto mortal imediato.

 

No enfrentamento do conflito é preciso tomar em sério os interesses que estão em jogo entre os principais atores do conflito. E aqui não podemos ser ingênuos: não há bandidos (Putin/Rússia/China) e mocinhos (Biden/EUA/OTAN/Zelensky) como apresenta a mídia. Há uma guerra de interesses econômicos, militares e geopolíticos, cujos principais atores são os governos imperiais da Rússia e dos EUA. E não haverá solução possível sem acomodação desses interesses. Imagine qual seria a reação dos EUA ante a possibilidade da Rússia instalar uma base militar na fronteira de seu território. A entrada da Ucrânia na OTAN, significa presença militar das grandes potências ocidentais (comandadas pelos EUA) na fronteira da Rússia. E isso ela nunca vai permitir, como os EUA nunca permitiria uma base militar russa em suas fronteiras.

 

Não nos deixemos enganar pela mídia que seleciona imagens e produz narrativas para legitimar os interesses econômico-militar-geopolíticos dos EUA, apresentados como os defensores da democracia ante imperialistas assassinos. Não estamos diante de um conflito entre bandidos e macinhos, mas de governos imperialistas que fazem guerra para defender e impor seus interesses. É curioso como a mídia ocidental faz um bombardeio de imagens e informações sobre a guerra na Ucrânia, mas silencia completamente outras guerras que estão matando e desterrando milhares de pessoas.

 

Recentemente a Folha de São Paulo publicou um levantamento do “Projeto de Dados de Localização e Eventos de Conflitos Aramados” que registra conflitos ou combates armados em pelo menos 28 países. Por que não vemos imagens e relatos impactantes desses conflitos? Quem sabe/vê o que acontece na Síria, na Somália, no Iêmen? Ou não importa?

 

Além de gritar contra as guerras, negociar medidas de proteção/ajuda humanitária, compreender os interesses em jogo no conflito, precisamos, a médio e longo prazo, aprender/exercitar outra forma de lidar com os conflitos. A lógica militar que trata o adversário como inimigo a ser eliminado a qualquer preço atua tanto nas relações entre países e povos, quanto nas relações interpessoais e sociais. A guerra é a expressão maior dessa lógica assassina. Por isso, precisamos desmilitarizar o coração, a sociedade e as relações internacionais. Sem isso, não haverá paz duradoura.

 

A 59 anos atrás o papa João XXIII publicava em plena Quinta Feira Santa, em meio ao conflito entre EUA e União Soviética, sua Carta Encíclica “Paz na Terra”. E concluía com um apelo orante que fazemos nosso nesse tempo de guerras em que vivemos:

 

Que o Senhor “afaste dos corações dos homens tudo o que pode pôr em perigo a paz e os transforme a todos em testemunhas da verdade, da justiça e do amor fraterno”. Que ele “ilumine com sua luz a mente dos responsáveis dos povos para que, junto com o justo bem-estar dos próprios concidadãos, lhe garanta o belíssimo dom da paz”. Que ele “inflame a vontade de todos os seres humanos para abaterem as barreiras que dividem, para reforçarem os vínculos da caridade mútua, para compreenderem os outros, para perdoar aos que lhe tiverem feito injúrias”.

 

Que o Senhor da paz nos dê a paz e nos transforme em artesãos da paz!

 

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