“Ser contra quem quer a guerra não significa almejar uma paz que se assemelhe a uma rendição”

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22 Março 2022

 

Crise ucraniana e a atualidade do pensamento cristão de Emmanuel Mounier, conversa com Stefano Ceccanti.

 

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por Huffington Post, 20-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Falando da Ucrânia, o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, em uma entrevista ao Vida Nueva, reiterou o magistério da Igreja Católica que considera possível o "triste recurso às armas por legítima defesa". Para a Igreja nunca mais haverá uma guerra justa, ou pior, santa, invocada em nome de Deus (o Papa disse isso claramente na videochamada com o Patriarca russo Kirill), mas o agredido tem o direito de se defender com as armas.

 

Há um pensador cristão que enfrentou esses problemas há quase noventa anos, no início da Segunda Guerra Mundial, criticando abertamente a Conferência de Munique de 29-30 de setembro de 1938, ou seja, o acordo que levou à anexação de vastos territórios da Checoslováquia à Alemanha de Hitler com a aprovação das potências democráticas europeias França e Inglaterra, que buscaram uma política de apaziguamento, esperando uma paz duradoura.

 

Castelvecchi está prestes a colocar nas livrarias I Cristiani e la pace (Os Cristãos e a Paz, em tradução livre) um texto de Mounier que se revela extremamente necessário para ler, após o início da guerra da Rússia contra Kiev. "Acredito que a crise ucraniana relance seriamente a atualidade das reflexões de Mounier, com a rejeição tanto do belicismo quanto de um pacifismo abstrato e, sobretudo, que nos ajuda a ler de forma correta o artigo 11 da Constituição, remontando às culturas fundadoras que a engendraram e a experiência da Resistência europeia que está na base”, afirma Stefano Ceccanti, professor catedrático de direito público comparado, constitucionalista, católico democrático, autor do prefácio à reedição do texto de Mounier.

 

I Cristiani e la pace

 

A questão de partida de Mounier em termos ético-políticos, mas que também tem consequências jurídicas, é como reagir ao Mal, à vontade de poder que se manifestou em Munique e que então encontrou na época as democracias europeias totalmente despreparadas. Hoje a situação parece diferente, há uma maior conscientização, mas os nós são os mesmos. “Obviamente, só podemos ser contra os belicistas, mas isso significa que devemos aderir a uma forma de ideologia pacifista, que se concentra em um tipo de paz que se assemelha a uma rendição?”, questiona-se Ceccanti.

 

A resposta de Mounier é que a cultura política que se expressou no século passado às vésperas da Segunda Guerra Mundial pelas democracias ocidentais foi a de um "pacifismo dos tranquilos", uma "mediocridade" e um "seguro contra todo risco", “uma utopia de sedentários”. “Parolin esclareceu perfeitamente para a situação atual: o envio de armas é legítimo e não é uma alternativa à busca de uma iniciativa diplomática.”

 

Ceccanti explica: "Também para Mounier, é preciso tomar ciência da distância que separa o 'realismo católico de uma certa ideologia pacifista', já que 'fora dos caminhos da santidade individual', depois de ter experimentado seriamente todas as alternativas possíveis, 'pode chegar o momento em que estes meios se revelam definitivamente ineficazes” e então, cito Mounier, “o catolicismo admite a legitimidade da violência a serviço da justiça”. Entendendo-se que em nosso léxico atual teríamos usado não a palavra 'violência', mas 'força' (porque a segunda comporta um nexo com o direito, a primeira não)".

 

Quase um século se passou e devemos nos perguntar também o que mudou desde os tempos de Mounier, na elaboração do pensamento católico e do Catecismo, porque desde os tempos de Mounier a doutrina social da Igreja passou por mais de uma importante atualização. "Uma dúvida maior parece surgir hoje - explica Ceccanti - no que diz respeito ao cânone da proporcionalidade, à medida que o poder destrutivo dos meios militares cresceu, e parece que a reta intenção também possa se estender à ingerência humanitária".

 

Há outro ponto importante, que foi objeto de debate público no caso da Ucrânia. “O parágrafo 500 do Compêndio – acrescenta o professor – condiciona o exercício da legítima defesa também à sua razoável eficácia: deve ser praticada quando “existem fundamentadas condições de sucesso”, o que obviamente visa evitar formas de testemunho extremo. No entanto, esta observação não pode ser lida de forma simplista, como se a avaliação se limitasse apenas ao momento de uma agressão e às suas consequências mais imediatas: desta forma apenas seria admitida apenas uma rendição sem condições”.

 

A ajuda nesse sentido vem da Bíblia. “A Escritura, lembra Ceccanti, apresenta o caso de Golias, muito mais alto e mais forte, mas com uma capacidade de visão inferior àquele que o derrotou (Davi). Quem vê mais longe sabe que quem parece sucumbir no curto prazo não necessariamente o será no final do processo”.

 

Em essência, Winston Churchill também debateu o mesmo dilema, antes do histórico discurso de 4 de junho de 1940 na Câmara dos Comuns. Mas se não tivesse existido a sua "visão" hoje viveríamos em um mundo muito diferente, em um mundo onde as bandeiras nazistas ainda estariam expostas.

 

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