França: o Relatório da Ciase em questão

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09 Dezembro 2021

 

O Relatório da Comissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja da França (Ciase) é confiável? A pergunta legítima motivou uma análise minuciosa de oito especialistas da Academia Católica da França questionando a confiabilidade.

 

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 08-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O Relatório da Comissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja da França (Ciase) é confiável? A pergunta legítima motivou uma análise minuciosa de oito especialistas da Academia Católica da França, entre os quais seu presidente, o jurista Hugues Portelli. Apresentada de forma reservada aos bispos e à Santa Sé, rapidamente se tornou pública.

Os dados do Relatório são conhecidos. A estimativa prudencial é de 216.000 vítimas no período de 1950 a 2020. São 330.000 se também forem incluídos os colaboradores leigos nas instituições católicas. Os sacerdotes predadores são estimados entre 2.900 e 3.200, de um total de 150.000 padres no período, ou seja 3%. A cada predador correspondem 63 vítimas. Em todo o país, estima-se que existam 5.500.000 vítimas de violências sexuais entre menores e adultos vulneráveis.

As críticas elaboradas pelos acadêmicos dizem respeito tanto aos métodos de investigação quanto às reflexões teológicas e ao papel das recomendações finais dirigidas aos bispos. Há uma objeção ao método quanto à credibilidade da investigação sociológica. Apesar da grande amostra (28.000), o método on-line seleciona as pessoas contatadas e condiciona os resultados. Os percentuais de vítimas (0,42%) não permitem uma interpretação estatística. Além disso, durante os trabalhos, foi descartada uma inferência diferente sobre o número de vítimas. Creditando 7 vítimas (e não 63) para cada predador se chegaria a 24.000, um número bem distante das 216.000 supostas.

 

Sobre o método e o conteúdo

 

A fragilidade do rigor científico torna menos crível a conclusão do abuso como "fato sistêmico" na Igreja e menos pertinente a ideia de que a Igreja tenha uma necessidade essencial de ser pressionada às reformas de fora.

Igualmente precárias seriam as reflexões teológicas e filosóficas. Por exemplo, a expressão in persona Christi capitis, privilegiada no Relatório, não garantiria uma menor ênfase no ministério ordenado e a crítica ao celibato sacerdotal é indireta, mas não menos substancial. A teologia moral não registra o percurso dessas décadas e reconhece para os mandamentos uma centralidade que eles não possuem.

Do ponto de vista histórico-filosófico, o Relatório subestima gravemente a legitimação da pedofilia promovida nos anos 1970 pelos intelectuais leigos mais seguidos na época (Sartre, de Beauvoir, Barthes, Deleuze, Foucault, Althusser, etc.).

Do ponto de vista jurídico, não se pode debitar à Igreja crimes cometidos pelos indivíduos, inclusive porque na França a personalidade política pública é das associações diocesanas e não da Igreja. Não se pode atribuir ao bispo os crimes cometidos por padres que violam o mandato recebido. Além disso, o segredo confessional, ainda que semelhante ao segredo profissional, não obriga à denúncia. Tanto a responsabilidade coletiva quanto a justiça reparadora não fazem parte do sistema legislativo.

A crítica dos acadêmicos terá uma resposta argumentada. Em uma primeira leitura é difícil compartilhar a desvalorização da amostra, quando uma medida de 1.000 contatos é considerada suficiente. É difícil imaginar que reduzir o número de vítimas para 24.000 signifique anular a dimensão sistêmica do fenômeno dos abusos.

Quanto às críticas teológicas, poderiam ser pertinentes caso o Relatório não tivesse escolhido como referências vinculantes o Código de Direito Canônico e o Catecismo da Igreja Católica, documentos centrais que não assimilaram, senão parcialmente, o concílio e certamente não a posterior reflexão.

Quanto às decisões dos bispos tomadas pela assembleia após o Relatório, respondem à coerência moral e evangélica de seu papel, bem como a algumas indicações do documento.

De modo geral, as críticas parecem invalidar o pedido de reformas eclesiais, temer as reivindicações financeiras e criticar a orientação assumida pelos bispos e religiosos/as franceses. Mas estamos apenas no início de um debate que promete ser muito animado e que já fez uma vítima: a própria Academia. Demitiram-se imediatamente tanto o presidente dos bispos, Eric de Moulins-Beaufort, quanto a sra. Veronique Margron, presidente da Conferência dos religiosos/as franceses.

Marc Sauvé, presidente da Ciase e também acadêmico, destacou não só a ausência de um debate prévio, mas também o recurso de tipo clerical seguido no documento de crítica: totalmente sigiloso, enviado ao presidente dos bispos, ao núncio e à Santa Sé. Vários acadêmicos já garantiram sua saída. O anunciado (e adiado) encontro da Ciase, dos bispos e dos religiosos com o Papa terá muitos elementos a discutir.

 

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