Abusos na França, dor e vergonha. De Moulins-Beaufort: verdade, única forma

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14 Outubro 2021

 

"Sentimos dor, vergonha e indignação pelas feridas profundas e chocante infligido a inocentes indefesos. Agradeço ao Papa Francisco as suas palavras de proximidade às vítimas de abusos na Igreja na França”. Monsenhor Éric de Moulins-Beaufort, arcebispo de Reims e presidente da Conferência Episcopal francesa, há anos está convencido de que o único caminho viável seja enfrentar até o fundo o escândalo dos abusos sexuais na Igreja, recém revelados em toda sua amplitude no solo francês pelo relatório da comissão independente Ciase, confiada em 2018 justamente pela Igreja da França a Jean-Marc Sauvé, ex-vice-presidente do Conselho de Estado.

A entrevista com Eric de Moulins-Beaufort é de Daniele Zappalà, publicada por Avvenire, 09-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

O que representa o dossiê encomendado pela Igreja francesa?

É uma prova extremamente dura, mas antes de tudo um momento necessário em direção à verdade. São conclusões que nos convidam ainda mais à humildade e nos dizem para nunca deixarmos de escutar as palavras das vítimas e daqueles que com elas sofreram. O nosso pensamento permanece com aqueles que vivenciaram um drama tão íntimo e incomensurável. Por esse motivo, é também nosso dever ler atentamente e estudar o relatório na sua totalidade, de forma a nos apropriarmos e responder da melhor forma às justas expectativas que expressa.

 

O que mais o impressionou na lição das vítimas que encontraram coragem para falar?

Trata-se de testemunhos de extrema coragem. Tive a oportunidade de falar pessoalmente com alguns deles e isso me ajudou a medir a profundidade da dor que continua a habitar no coração, muitas vezes depois de tantos anos. São feridas que não podem ser apagadas e que nos fazem sentir pequenos diante do mal cometido.

 

“O que aconteceu conosco?”, o senhor perguntou-se no início do volume “A Igreja perante os seus desafios”. Houve uma espécie de cegueira?

Por muito tempo não fomos capazes de ver o que estava acontecendo e depois demoramos para entender. São dramas que envolveram muitos lugares distintos ligados à Igreja, como os internatos que abrigam garotos. Os lugares onde certamente também estava quem não quis ver. Você mencionou "as disfunções que tornaram possível que alguns pudessem se manter cometendo crimes por décadas e que apenas tão poucos foram denunciados".

 

Em que nível essas disfunções precisam ser corrigidas?

Se os abusos foram cometidos em locais específicos, as deficiências dizem respeito a todos os níveis. Não podemos nos refugiar por trás da ideia de que um mal tão generalizado tenha afetado apenas perímetros estreitos. Fizemos um trabalho de revisão e controle nas dioceses, mas a reflexão deve continuar, guiada pela vontade absoluta de que tudo isso nunca mais possa se repetir.

 

A Conferência Episcopal tomará medidas firmes em sua plenária de novembro?

O que nos é pedido é uma mudança profunda e isso leva tempo. Poucas semanas não podem ser suficientes. Na próxima Assembleia Plenária estabeleceremos um calendário de ações para que essa mudança seja plena e concreta, sem evitar nenhum ponto. Teremos que atuar por etapas e de forma sistemática.

 

As reparações também serão discutidas na plenária de Lourdes?

É uma questão muito importante que já começamos a tratar, propondo uma solução de ressarcimento que não recebeu uma aprovação da Ciase. Portanto, revisaremos nossa proposta. Teremos que identificar meios de encontrar dinheiro, sabendo muito bem que não dispomos de recursos infinitos. Isso exigirá discernimento, mas não vamos recuar.

 

Segundo a CIASE, os confessores não deveriam fazer valer o sigilo da confissão no que diz respeito aos abusos. Qual é a sua posição?

A esse respeito, é necessária uma disponibilidade particular de todos para o diálogo. Explicaremos novamente o valor do segredo da confissão, que nunca foi posto em discussão pelo Estado francês. Respeitar esse segredo também significa respeitar a dignidade da consciência de cada um. Além disso, vamos explicar que a nossa Conferência Episcopal não representa a totalidade da Igreja e que todos nós respondemos ao direito canônico.

 

Também apresentará esta posição no encontro de terça-feira com o Ministro do Interior?

Sim, será uma ocasião para reiterar que o segredo da confissão não é uma forma de contornar as leis. Também para dizer que o segredo pode, aliás, representar uma primeira oportunidade oferecida também às vítimas para libertar a sua palavra.

 

O juiz Édouard Durand, chefe da recém-formada comissão independente Ciivise sobre a praga dos incestos, declarou que "escolas, esportes e outras religiões devem se empenhar com o mesmo processo de verdade que a Igreja Católica". O que essas palavras lhe inspiram?

São palavras que indicam um percurso razoável para encontrarmos juntos, como sociedade, soluções e uma vontade plenamente compartilhada. Todos juntos, e certamente não separadamente, devemos nos mostrar capazes de derrotar essas pragas generalizadas muito mais do que estávamos dispostos a acreditar, dentro da Igreja, bem como em outras esferas sociais.

 

Muitos fiéis permanecem em estado de choque. Realmente conseguirão ler o relatório?

A leitura será um teste para todos. Mas, mais do que nunca, temos o dever de proximidade com aqueles que sofreram. Apropriar-se da verdade sobre esses horrores é a única forma de manifestar uma solidariedade real para com as vítimas. Por isso, convidamos os fiéis a compartilhar o relatório e discuti-lo em cada paróquia.

 

Não só na França, revelações similares podem levantar nos fiéis também questionamentos espirituais...

A profunda dor e a vergonha sincera que sentimos diante de tantos abismos de sofrimento infligidos dentro da Igreja podem e deveriam ser vistos hoje também como dons da misericórdia do Senhor. Experimentar até o fundo o peso das próprias culpas deve se tornar um passo para o discernimento na busca do bem. Só assim será possível encontrar o caminho para oferecer provas concretas de responsabilidade. Tudo isso nos confronta com a nossa pequenez como homens e com a necessidade constante de confiar a nossa existência à misericórdia divina.

 

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