A Igreja novamente envergonhada pelos crimes de abusos. Teóloga moral fala sobre os aspectos positivos e negativos da vergonha

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • A fantasia de Deus. Leonardo Boff e o Espírito Santo

    LER MAIS
  • As feridas cada vez mais abertas. As acusações da Unicef e da Oxfam

    LER MAIS
  • A crise energética, a escolha europeia, e a “reviravolta russa”. Artigo de José Luís Fiori

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


18 Outubro 2021

 

O Papa Francisco foi manchete dos jornais recentemente ao expressar sua vergonha – vergonha de toda a Igreja – depois que a França se tornou o mais recente foco da crise global de abusos sexuais na Igreja Católica.

Mas algumas pessoas, incluindo vítimas de abuso, disseram que a vergonha não é o suficiente. Eles insistiram que tais sentimentos devem levar a uma ação concreta.

A irmã Anne-Solen Kerdraon, diretora de teologia espiritual e moral no Institut Catholique em Paris, concorda. Ela é membro das Souers Auxiliatrice (Irmãs Auxiliadoras), fundadas em meados de 1800, em Paris e, hoje, presente em 22 países. A ordem descreve-se como “uma congregação internacional de mulheres católicas trabalhando para aliviar o sofrimento dos mais necessitados”. Procurando viver o carisma de sua comunidade, a irmã Kerdraon tem estudado amplamente perda humana e tragédia.

Em sua entrevista ao La Croix, ela explica como a vergonha – como um aspecto positivo – pode também imobilizar as pessoas e fazê-las julgadoras.

 

A entrevista é de Florence Chatel, publicada por La Croix, 16-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

Depois da publicação do relatório da Comissão Independente sobre Abusos Sexuais na Igreja da França (CIASE, em francês), o Papa Francisco declarou: “Este é um momento de vergonha”. Como você entende isso?

 

Eu entendo que isso era o melhor no momento, porque eu senti isso. A vergonha sempre nos mostra que estamos ligados um ao outro. Se eu me envergonho, é porque eu reconheço que sou parte dessa Igreja que está machucando, traindo e negando a humanidade de outros seres humanos. Hoje, nós estamos envergonhados pela extensão dos abusos sexuais cometidos na Igreja. Nós também podemos sentir o mesmo pelas tantas mortes de migrantes no Mediterrâneo porque nós nos sentimos responsáveis pela humanidade e seu destino. Neste sentido, a vergonha tem um aspecto positivo. Isso também representa a dor diante do irreparável. Nós não podemos fingir que as vítimas não foram atingidas de uma forma incomensurável. Isso não pode ser desfeito. Quando a vergonha aparece, há uma consciência de irreversibilidade. Isso pode e deve ser um trampolim para o cuidado das vítimas e trabalho para assegurar que esses abusos não acontecerão novamente.

 

Podemos cair numa armadilha da vergonha?

 

A irmã dominicana Anne Lécu escreve no livro “Tu as couvert ma honte” (Ed. Le Cerf, 2016. “Cobriste minha vergonha”, em tradução livre) que alguém está sempre envergonhada diante do outro, diferente do remorso. Quando eu estou envergonhado, eu me sinto desprezado, desvalorizado, eu não consigo olhar o outro nos olhos. Quando eu estou envergonhado da minha Igreja, eu me envergonho da forma que apareço aos olhos dos outros, da sociedade. Mas temos que sair desse sentimento que é muito narcisista. Fixa o nosso olhar numa imagem de desprezo e desespero de nós próprios ou da Igreja, em vez de nos voltarmos para as vítimas.

Para minha tese sobre a tragédia, estudei o simbolismo do mal de acordo com Paul Ricoeur. O filósofo mostra que o símbolo mais arcaico do mal é a contaminação, que se manifesta na impressão de ser sujo e ao mesmo tempo vítima e culpado dessa mancha que nos contagia. A vergonha, como evidenciado pela vergonha indevida sofrida pelas vítimas, é caracterizada por essa mesma confusão. Devemos sair disso e fazer um discernimento lúcido das responsabilidades.

 

Como podemos superar essa vergonha?

 

O Relatório Sauvé (o Relatório CIASE) ajuda-nos com a sua análise precisa. Precisamos ser claros sobre as responsabilidades que cada um de nós – bispos, sacerdotes, religiosos e leigos – compartilhamos sobre os mecanismos da instituição que permitiu tais abusos, e sobre os motivos subjacentes que nos levam a negar uns aos outros ou a promover o sigilo. Cada um de nós pode se perguntar: “como é que a minha forma de ser, de ocupar o meu lugar e de agir na Igreja permitiu, ou ainda permite, este tipo de abusos?”.  Assim, podemos alargar o nosso olhar para o futuro graças às recomendações do relatório CIASE. Em Gênesis, quando Adão e Eva têm vergonha após a queda, eles se calam e se escondem. E Deus não para de buscá-los, chamá-los e reintroduzi-los à palavra. Ressuscitar não é negar o mal cometido. É olhar para ele em todo o seu horror, diante do Deus que nos dá a força. Deus continua a ter esperança: esta Igreja que falhou na sua vocação, da qual eu gostaria de me dissociar, Cristo continua a chamá-la a tornar-se mais humana. É a nossa capacidade de olhar para Deus, com coragem e humildade, que nos permitirá cuidar das vítimas e tornar possível um futuro diferente. Isso implica que a justiça tem seu lugar.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A Igreja novamente envergonhada pelos crimes de abusos. Teóloga moral fala sobre os aspectos positivos e negativos da vergonha - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV