Por que me importa se Deus existe. Artigo de Jesús Martínez Gordo

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17 Agosto 2021

 

“Por que me importa a existência do que digo quando digo 'Deus'? Abordo-o em três momentos: o primeiro, dedicado a expor o peso de ter nascido numa cultura católica e o seu alcance na existência de Deus; a segunda, focada em apresentar os motivos pelos quais sou um deísta e por que me preocupo em sê-lo; a terceira, ocupada em mostrar os argumentos e motivos 'incomparáveis' nos quais meu teísmo 'jesu-cristão' se baseia”, escreve Jesús Martínez Gordo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Vida Nueva Digital, 12-06-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

A pergunta do título, formulada em abstrato, só posso responder do ponto de vista pessoal. Eu não sou um sociólogo. E, por isso, não posso oferecer uma resposta que seja devidamente contrastada com os dados recolhidos através de pesquisas ou entrevistas. Por isso, só me resta apresentar o que penso a respeito, na esperança de fazê-lo, pelo menos, de forma fundamentada e sempre em diálogo – empático e crítico – com outras opiniões.

 

“Deus”, não a Igreja

Segundo as pesquisas, boa parte das pessoas não se colocam mais em posições teístas, mas também não são ateístas ou agnósticas, mas sim indiferentes.

Esse parece ser o caso, pelo menos, em boa parte da Europa Ocidental; mas não, nem no oriente, nem no resto do mundo. Ora, o fato de entre nós este caminhar para a indiferença – religiosa e também ateísta– se verificar, mas ao mesmo tempo, com a procura de espiritualidades e o surgimento de novos movimentos alternativos de crer, não diminui, em nada, a importância ou a necessidade de especificar o que dizemos quando dizemos “Deus existe” e se essa existência interessa.

Em primeiro lugar, para os cidadãos da Europa Ocidental, ainda, em sua grande maioria, crentes, embora muitos deles podem ser só por tradição cultural. E, em segundo lugar, para aqueles que nos sucedem e continuam no caminho que percorremos. É importante transmitir a mensagem (em alto e bom som), para amigos e estranhos, do que dizemos quando dizemos “Deus existe” e por que nos importamos ou, pelo menos, por que me importa sua existência.

Somos muitos crentes que, comprometidos com a construção de um mundo mais justo e fraterno, agradecemos por sermos reconhecidos – como o fez o ateu Paolo Flores d'Arcais em 2008, em seu debate com o então cardeal Joseph Ratzinger – que, comparativamente a eles, fôssemos “gente finíssima”, sobretudo, na discreta e constante tarefa de ajudar os mais necessitados, mas que as nossas convicções se caracterizavam por ser um jejum de consistência racional. Compreendo, ao contrário do filósofo italiano, que também temos excelentes razões que sustentam a importância do que dizemos quando dizemos “Deus existe”: o nosso mundo está cheio de vestígios, transparências, antecipações ou “murmúrios” (Etty Hillesum) da Vida definitiva da qual tudo procede e da Plenitude para a qual estamos encaminhados.

Mas, como se não bastasse, há quem se lembre que a perda da credibilidade social da Igreja Católica torna muito mais difícil acreditar na existência do Deus cristão.

Obviamente sim. No entanto, entendo que não é o objetivo deste encontro, ainda que tal perda de credibilidade seja, em muitos casos, um fator importante para não continuar como cristão ou para entrar em descrença ou indiferença. Seu peso é, por outro lado, inegável nos chamados “novos ateus”. Muitos deles são por causa desse tipo de argumento, embora não só. Mas o objetivo é falar sobre a importância do que dizemos quando dizemos “Deus existe”, não, da Igreja, sem, por isso, ignorar as críticas (frequentemente, saudáveis) que se ouvem dos ateus; e também, de muitos cristãos e católicos. E não sem descidar das múltiplas razões pelas quais os crentes (e especificamente os cristãos e os católicos) o são na “ecclesia”, isto é, na Igreja ou na comunidade. E queremos continuar sendo.

Sei que geralmente não é fácil separar a credibilidade da Igreja e dos cristãos da existência no que dizemos quando dizemos “Deus” e sua importância ou irrelevância; algo que não é fácil quando a conversa esquenta. Temos experiência de muitos debates nos quais deriva o que não corresponde. E, quase sempre, é geralmente o lado escuro da Igreja, ao qual nem sempre se opõe o lado amistoso e sedutor; que também tem.

Acrescento um terceiro a essas duas primeiras indicações introdutórias: vou abordar a questão do que quero dizer quando digo “Deus” e por que me preocupo com sua existência, comparando seu conteúdo com aqueles das explicações alternativas mais comuns que têm sido fornecidas, por algum tempo, por uma boa parte dos ateus, agnósticos e antiteístas. E sendo consciente de que como, também ocorre no mundo dos crentes, as matizes são infinitas e cada pessoa tem sua própria explicação sobre o “princípio e fundamento” (neste caso, em minúsculas) do mundo, da vida e da história.

Sabendo que generalizo, tenho em mente, em particular, duas das cosmovisões ou explicações que são mais bem-vindas porque há muitos ateus, agnósticos e antiteístas que se sentem, de uma forma ou de outra, refletidos nelas.

Em primeiro lugar, os materialistas (que alguns chamam de determinismo físico necessário ou materialismo grosseiro): o mundo, a vida e as pessoas são o que se torna explícito nos testes empíricos científicos, sem mais considerações; provavelmente porque muitos deles entendem ou creem que a matéria – como a finitude – é aproblemática, absoluta e suficiente. E, em segundo lugar, as de quem se propõe à aleatoriedade como a explicação mais consistente, isso é, o mundo e a vida são resultado surpreendente do azar e da casualidade. E nada mais.

Mas, como já falei, não sou sociólogo. Por isso, insisto que as minhas opiniões têm a mesma “autoridade” de qualquer cidadão atento a estas questões: aquela que dá a força da argumentação que, neste caso, é fornecida. Pronto. O testemunho existencial permaneceria, mas acho que não é esse o motivo deste encontro. Por isso, continuo com a perspectiva indicada, lembrando que, nesta, como em tantas outras questões, tentei seguir Platão quando ele nos convida a ir aonde a razão me levar em liberdade.

E, sem maiores considerações, entro no assunto, reformulado nestes termos: por que me importa a existência do que digo quando digo “Deus”? Abordo-o em três momentos: o primeiro, dedicado a expor o peso de ter nascido numa cultura católica e o seu alcance na existência de Deus; a segunda, focada em apresentar os motivos pelos quais sou um deísta e por que me preocupo em sê-lo; a terceira, ocupada em mostrar os argumentos e motivos “incomparáveis” nos quais meu teísmo “jesu-cristão” se baseia.

 

A importância da herança da fé

A primeira coisa que fiz foi consultar o dicionário da RAE para descobrir o que ali se entende por “importar”. E descobri que significa “ter importância, valor ou interesse para alguém” uma pessoa, uma coisa ou, no meu caso, uma existência e uma explicação, racionalmente consistente. Compreendido dessa forma, minha resposta é que sim, que “a existência de Deus é importante para mim”, que o que digo quando digo “Deus” tem valor e me interessa. Mas, ao mesmo tempo, estou ciente de que devo acompanhar esse interesse com uma explicação – novamente, pessoal e argumentada – sobre o que entendo por “existência de Deus” ou, se preferir, por “Deus” e sua “existência”.

Entrando no objetivo designado, avanço, recriando o que disse Paul Ricœur, o que me interessa por ser um crente católico, transformado em um “deísta”, racionalmente consistente, e, ao mesmo tempo, um “teísta jesu-cristão”. E sou este último graças a “uma escolha contínua” que percebo como relativa no diálogo com outras religiões e crenças ou descrenças, mas que vivo como incomparável e, neste sentido, absoluta [1].

Vários anos após a morte de P. Ricœur, eles encontraram entre os papéis desse pensador francês algumas folhas manuscritas nas quais ele explicava a importância da existência de Deus para ele. Recrio seu testemunho, apoiado na tradução feita por Javier Elzo, o sociólogo de San Sebastian.

À luz dessas folhas manuscritas, considero-me um “crente católico” em razão do meu nascimento e, mais amplamente, pela herança cultural na qual fui criado. Começo com este fato tendo diante de quem possa objetar a mim que, se ele tivesse nascido na China, haveria muito pouca probabilidade de que ele fosse um cristão católico. A verdade é que sempre que isso me fosse contestado, o reformador P. Ricœur viria a indicar, eu costumava responder a isso, é claro. Mas quando é argumentado desta forma, quem faz a objeção deve saber que não está mais falando de mim, mas de outra pessoa: simplesmente, porque “não posso escolher, nem meus antepassados nem meus contemporâneos”; nem a cultura, nem a religião, neste caso, são católicas. Não há dúvida de que nas minhas origens de crentes existe – se eu olhar a situação de fora – esta constatação incontestável: “Eu sou assim, por nascimento e por herança”. Eu nasci e fui criado na fé cristã da tradição católica.

Mas devo também dizer que assumi esta herança, aliás, confrontado permanentemente, ao nível do estudo, com todas as tradições adversas ou compatíveis. E que o assumi ao torná-lo “num destino de escolha contínua”, que entendo ser argumentado e argumentado. É a partir desta “escolha contínua” que “sou obrigado a prestar contas (...) de argumentos plausíveis, isto é, dignos de serem argumentados numa discussão com protagonistas de boa-fé, que se encontram na mesma situação que eu”, na medida em que sabem que são igualmente “incapazes de formular razoavelmente as raízes de suas convicções”, sejam elas quais forem.

Por exemplo, quantos dos muitos torcedores – e apaixonados– que o Athletic Bilbao tem, o seriam se tivessem nascido em Barcelona, Madrid, Munique ou Buenos Aires? A sua uma escolha é porque, por ter nascido onde nasceu (normalmente em Bizkaia ou mesmo no País Basco e até no estrangeiro), se tornou um destino graças à escolha contínua. E o que digo da torcida do Athletic Bilbao vale para a grande maioria dos torcedores de quase todos os clubes do mundo.

Mas, continua P. Ricœur, o que quero dizer quando afirmo que se trata de um fato transformado em “destino por uma escolha contínua”? Bem, em primeiro lugar, que não tem nada a ver com “uma coerção, um fardo insuportável ou um infortúnio”, mas sim com a situação que apresenta uma convicção a que aderi e na qual me coloco: no cristianismo percebo e eu experimentar a relação com uma pessoa “incomparável” (Jesus de Nazaré) em que o Infinito, o Altíssimo é transparente e se doa como amor. Não tenho nenhum problema em classificar tal relacionamento como relativo e absoluto.

“Relativo” do ponto de vista da sociologia das religiões. “A modalidade de cristianismo a que aderi se distingue como uma religião entre outras dentro (...) da pluralidade característica de todos os fenômenos humanos”, neste caso, religiosa. Mas também relativo do ponto de vista do diálogo com a descrença em suas diferentes modalidades, visto que o que digo quando digo Deus é proposto de forma argumentada e, portanto, consistente; nunca é imposto. Nem é o incrédulo.

Aqueles que os ouvem são convidados a avaliar essa consistência, podendo decidir aceitá-la ou rejeitá-la pelas razões e motivos que considerem mais adequados e convincentes. Por exemplo, posso argumentar indiscutivelmente os benefícios do iogurte grego ou do vinho Rioja Alavesa, mas sei que minha convicção, por mais bem fundamentada que seja, não é nem a primeira, nem a última palavra. Esta é livremente realizada pelo meu interlocutor e, se assim lhe parece, pesando os motivos que eu contribuo ou outros: pode acontecer que os meus argumentos sejam muito sólidos, mas muito mais definitivos é a sua alergia ao leite ou a sua rejeição ao tanino ou, simplesmente, que goste de outro tipo de iogurte ou do vinho das margens do Arlanza ... Mas não, por isso, a bondade do iogurte grego ou a excelência do vinho Rioja Alavesa deixará de ser “razoável” ou a bondade do iogurte grego ou a excelência do vinho Rioja de Alava carecem de consistência argumentativa. Este é o sentido da relatividade no diálogo interconviccional entre crentes e não crentes.

E, encerrando minha recriação da contribuição de P. Ricœur, vivo a existência desse destino crente como “absoluto”, isto é, como “incomparável”, sem deixar de ser marcado, ao mesmo tempo, por sua origem cultural, mas também pela percepção de suas transparências no cosmos, na vida e na história e, claro, em Jesus de Nazaré.

 

Notas

[1] Paul Ricœur, “Vivant jusqu´ à la mort”, suivi de Fragments. Editions du Seuil, Paris, Mars 2007

 

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