''A ditadura do relativismo é o horizonte do pluralismo''. Entrevista com Paolo Flores d"Arcais

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08 Abril 2021

Paolo Flores d"Arcais (Itália, 1944) é professor de Filosofia em Roma e fundador de Micromega, uma das revistas de pensamento de referência na Europa. Flores d"Arcais, que polemizou com Ratzinger sobre a relação entre a razío e a fé, e um do autores mais ativos da filosofia contemporânea. Recentemente participou em Barcelona de um encontro sobre Teologias do Poder no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. Em sua intervenção defendeu que não há enfrentamento algum entre o cristianismo representado por Bento XVI e o Islí. Ao contrário. O que o Papa propôs é uma aliança de todas as religiões frente ao laicismo que pretende organizar a vida pública "como se Deus não existisse".

Paolo Flores d`Arcais juntamente com Joseph Ratzinger publicou o livro Est-ce que Dieu existe? Dialogue sur la vérité, la foi et l`atheísme. Paris: Payot. 2005.

O jornal El País, 30-10-2006, entrevistou o filósofo italiano.

Eis a entrevista:

não é a primeira vez que você polemiza com Joseph Ratzinger.

não. Já mantive com ele um diálogo quando era cardeal. Versava sobre a fé e a razío. não foi traduzido ao castelhano. Foi um diálogo duro, enérgico.

Você sustenta que os conflitos se encarniçam quando se utiliza a ideia de Deus.

A ideia central é que a modernidade nasce com a frase de Hugo Grócio: "Como se Deus não existisse". O que diz é que na vida pública o Estado deve legislar como se Deus não existisse. Tratava-se de basear a vida pública no laicismo, para sair da situação endêmica de guerra civil de substrato religioso, que estivera destruindo a Europa durante três séculos e meio.

E o Papa não está de acordo.

O Papa atual não só a discute, sustenta inclusive que na vida pública a religião deve ter um peso. Tenta inverter a ideia central da modernidade. Sustenta que na vida pública, crentes e não crentes devem comportar-se como se Deus existisse. Trata-se de uma estratégia radical que questiona toda a modernidade e constitui uma espécie de teologia da reconquista, uma expressão que tem maior significado ainda em espanhol do que em italiano ou em francês. O Papa está convencido que a raiz de todos os males modernos está na Ilustração. João Paulo II dizia que o grande mal do século XX era o totalitarismo, cuja raiz estava na Ilustração, a qual pretende que o homem é autônomo e pode legislar prescindindo da ideia da transcendência. João Paulo II e Bento XVI coincidem em que esta pretensão de autonomia leva ao niilismo e à destruição do homem pelos totalitarismos.

De modo que o problema é a ingerência da Igreja na vida política.

Bento XVI inverte o discurso da modernidade e sustenta que a liberdade, a democracia, a convivência só podem ser defendidas a partir da religião, enquanto o laicismo destrói a liberdade, a democracia, a convivência. O que faz é uma inversão também da realidade.

Por que?

Nossa sociedade é pluralista do ponto de vista moral. Eu sou ateu, mas numa sala pode haver cristíos que interpretam o cristianismo de modos diverso, muçulmanos que fazem o mesmo com o Islí, judeus de diferentes tendências e não crentes, porém cada um tem seu próprio sistema de valores morais que, seguramente, não coincidem. Esta é a realidade da sociedade moderna. E cada um está convencido que seus valores são os mais justos, do contrário não os assumiria ou mudá-los-ia. Mas, para convivermos juntos devemos aceitar que os valores morais próprios não podem ser impostos aos demais, é preciso aceitar que os valores morais são relativos. O Papa define esta situação como uma ditadura do relativismo, dando-lhe uma conotação negativa. O que ele chama de ditadura do relativismo é o horizonte do pluralismo.

Porém o contrário do relativismo seria o absolutismo.

Com efeito, se o Papa sustenta que o grande mal do mundo é a ditadura do relativismo, ou seja, o pluralismo, a única resposta é o retorno à Verdade com maiúscula. Isto é, ele propõe que todos os homens devem obedecer à Lei natural, só que: quem decide qual é a lei natural? O Papa pretende que a única Lei natural é a que coincide com a doutrina católica. E espera que as outras religiões se reconheçam em alguns princípios morais em face das tendências à secularização da modernidade.

Uma pretensão complexa.

E contraditória. O Papa defende que a Lei natural impõe o matrimônio indissolúvel, a rejeição do aborto, a negação da liberdade sexual e da homossexualidade. Porém, nem sequer nestes assuntos vai conseguir um acordo com as outras religiões. O Islí não considera o matrimônio indissolúvel e permite a poligamia. A posição do Papa é obscurantista e perigosa para as liberdades individuais e os direitos civis aos quais está habituada a Europa. Mas é também contraditória porque não é verdade que, se a esfera pública se organizasse sob o princípio "como se Deus existisse", desapareceriam os conflitos. Primeiro, porque não há um Deus único. Ao menos há três: o do Antigo Testamento, o do Cristianismo e o do Islí. E nenhum dos três é interpretado de modo uniforme.

Isto levaria novamente às guerras de religiío. Ao choque de civilizações.

Ratzinger disse claramente, falando do choque das civilizações, que este não é entre o Cristianismo e o Islí. É um choque entre a civilização religiosa e a civilização sem Deus. Esta ideia questiona as conquistas de liberdade dos últimos três séculos. E é contraditória. Seu discurso provocou um grande escândalo entre os países islâmicos, embora não questionasse o Islí, senão as sociedades laicas. Oferecia um pacto ao Islí ante os sem deus.

A que você atribui este ressurgimento da teocracia?

Há muitos fatores, alguns conjunturais. O medo do Islí, dos atentados, do terrorismo, que no imaginário coletivo está associado ao Islí, leva a pensar que é preciso voltar a uma identidade que nos defenda do Islí. Porém há um fenômeno ainda mais profundo: Qual é a diferença fundamental entre o princípio de uma sociedade baseada na autonomia do indivíduo e milênios de história, nos quais o poder não estava nos homens, mas procedia de outra fonte? Quando isso ocorria, ninguém era livre, porém todos tinham a certeza de sua posição no mundo, uma certeza metafísica sobre o sentido do cosmo, do homem e da vida. não havia liberdade, porém havia certeza. Quando o homem se converte em autônomo, ganha a liberdade, porém perde a certeza sobre o sentido. A democracia promete a todos o poder sobre o humano, em troca dessa perda de sentido. Se essa promessa não se mantém, se, na realidade, a democracia são formas de vida nas quais não é verdade que dia por dia sejamos donos de nossa própria vida, então a democracia não mantém o que promete, então se busca o sentido na religião, na superstição. Ou em forma de identidade. Essa é a questão de fundo: a democracia não mantém suas promessas. O que ocorre é que as invocações de Deus não suavizam as diferenças, elas as agravam. Já não se discute sobre a própria opinião, senão sobre a vontade de Deus. O conflito é mais duro, porque é entre absolutos e, ademais, o combate se faz com Deus ao lado dos contendores.

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