Pandemia agrava quadro de vulnerabilidade social no mundo do trabalho. Entrevista especial com Geraldo Augusto Pinto

Segundo o pesquisador, certa deterioração começa pós-crise do capitalismo de 2007 e vem acelerando até que, na atual conjuntura, dá um salto

Foto: Pixabay

Por: Patricia Fachin | Edição: João Vitor Santos | 24 Setembro 2020

Houve um tempo em que se achou que a tecnologia iria aumentar a produtividade, e o ser humano seria liberado de longas jornadas. Mas, segundo o sociólogo Geraldo Augusto Pinto, isso tudo não passou de um sonho. Antes do final da primeira década dos anos 2000, o capitalismo entra em crise e se transmuta, apreendendo a tecnologia e fazendo com que, mesmo com ela, se produza mais, se trabalhe mais para se consumir ainda mais. “Se observarmos processos de trabalho que são desempenhados em outros setores para além das fábricas, como é o caso dos serviços, é possível ver que certas mudanças já estão num estágio de aplicação bem mais avançado e isso se deve muito aos estragos no tecido social causados pela mais recente crise do capitalismo”, pontua.

 

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor ainda destaca que essas transformações vinham avançando na mesma velocidade do desenvolvimento tecnológico. Mas, na pandemia, houve um verdadeiro salto. “Os efeitos da tragédia sanitária da pandemia de covid-19 não somente agravaram o quadro de vulnerabilidade social preexistente, dando sustentação a essas novas modalidades de exploração do trabalho, como aumentaram o poder econômico e social das empresas envolvidas nessas atividades”, detalha. E, olhando para o contexto brasileiro, não é difícil perceber que o teletrabalho reduziu a vida ao trabalho, que borra os limites da casa, da família e do lazer. “Faz-se uma apologia ao fato de que se pode trabalhar num computador pessoal e de qualquer lugar, em casa, na rua ou em um ‘campus’ da Google. Ventila-se a ideia de maior liberdade de tempo, de agito cultural, de promoção da criatividade”, exemplifica, trazendo como a falsa ideia de liberdade é pregada.

 

Do outro lado, dos que precisam sair para a rua, postos de trabalho são fechados enquanto quem fica tem de dar conta de todo o resto. Isso quando não são forçados a espichar jornadas para apenas ganhar o mínimo para a sobrevivência. E ainda tem o caso dos trabalhadores de plataformas. “Trabalhar para apenas uma plataforma em geral não garante o retorno esperado, de modo que é comum atuar em mais de uma, e, com isso, se admitirem jornadas de trabalho intensas e extensas, o que reduz significativamente as possibilidades de sair dessa condição”, diz. Assim, reduzem-se postos de trabalho, paga-se cada vez menos para quem fica, e a renda despenca. “O fato é que por trás da terceirização e da plataformização do trabalho está a instabilidade crônica do capitalismo, que, na mais recente das constantes crises que atravessa, jogou novamente a classe trabalhadora na miséria”, conclui.

 

Geraldo Augusto Pinto (Foto: Sindicato dos Trabalhadores da Grande Curitiba)

Geraldo Augusto Pinto é bacharel em Sociologia e Ciência Política, mestre e doutor em Sociologia, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, com ênfase em Sociologia do Trabalho. Atua como professor adjunto do Departamento Acadêmico de Estudos Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR. Entre suas publicações, destacamos os livros A organização do trabalho no século 20: taylorismo, fordismo e toyotismo (São Paulo: Expressão Popular, 2013), A máquina automotiva em suas partes: um estudo das estratégias do capital na indústria de autopeças (São Paulo: Boitempo, 2011), e em coautoria com Ricardo Antunes, A fábrica da educação: da especialização taylorista à flexibilização toyotista (São Paulo, Cortez, 2017).

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Essencialmente, o que mudou na organização do trabalho do século XX para o século XXI?

Geraldo Augusto Pinto – Ainda é cedo para uma comparação nesse nível de abrangência. Em se tratando do século XX, pelo menos três grandes sistemas de organização se constituíram como referenciais – o taylorismo, o fordismo e o toyotismo. Com o encerramento do ano de 2020, findar-se-á a segunda década do século XXI, de modo que, segundo vejo, a partir dos próximos anos já poderemos ter condições melhores de responder a esta questão. A pergunta talvez queira sondar qual é o impacto das mudanças que temos visto recentemente, no médio e longo prazo.

Olhando com um distanciamento e arriscando aqui uma projeção, eu diria que é provável, sim, estarmos atravessando uma fase transitória e de corte em alguns aspectos em termos de organização – da exploração capitalista, eu adiria – do trabalho. Neste exato momento, propostas como a de Indústria 4.0 e Manufatura Avançada – para ficarmos no chão de fábrica – difundem-se, ainda, mais como conceitos do que como práticas viáveis no sentido de uma expansão mais horizontal (embora já haja casos de implementações de tecnologias que fazem parte desses novos protótipos da gestão capitalista, como, por exemplo, na planta da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo).

Por outro lado, se observarmos processos de trabalho que são desempenhados em outros setores para além das fábricas, como é o caso dos serviços, é possível ver que certas mudanças já estão num estágio de aplicação bem mais avançado e isso se deve muito aos estragos no tecido social causados pela mais recente crise do capitalismo, no pós-2007. Eu me refiro aqui ao teletrabalho e às plataformas de trabalho.

 

 

Efeito pandemia

Os efeitos da tragédia sanitária da pandemia de covid-19 não somente agravaram o quadro de vulnerabilidade social preexistente, dando sustentação a essas novas modalidades de exploração do trabalho, como aumentaram o poder econômico e social das empresas envolvidas nessas atividades, haja vista a imposição em nível global de medidas de isolamento social que turbinaram o comércio eletrônico, as entregas por aplicativos, o trabalho e o estudo em casa etc.

 

Do taylorismo ao fordismo e deste ao toyotismo

Voltando ao enfoque comparativo, particularmente eu gosto de me ater aos traços de continuidade delineados na trama da história, quando faço esse tipo de leitura. O fordismo, por exemplo, a meu juízo não eliminou, mas, antes, assimilou e superou o taylorismo; o mesmo ocorreu com o toyotismo, que emergiu tendo por objetivo vencer os obstáculos que se colocavam à produção de massa posta em curso pelo fordismo (e por isso veio a assimilar aspectos não somente deste, mas também do próprio taylorismo).

Nessa perspectiva, e considerando, claro, que a força de trabalho permanece, no século XXI, involucrada na forma mercadoria – e, aliás, como a única fonte de valor –, é possível observar que essas experiências do século XX vêm sendo e ainda serão por anos assimiladas para serem definitivamente superadas, levando-se os seus princípios e técnicas ao limite no que tange às necessidades de controle e exploração do trabalho humano no contínuo movimento de extração, circulação e acumulação de valor, pelo capital.

Por exemplo: o princípio de zero-estoque do toyotismo (em poucas palavras: a redução drástica tanto de operações que não geram valor, quanto de custos com capital fixo) está mais presente do que nunca no avanço da terceirização. Essa, por sua vez, também deslanchou com as plataformas de trabalho, constituindo estas uma engrenagem brutal de imputação aos/às trabalhadores/as de todos os custos e riscos possíveis, presentes e futuros, gerados pela desordem social decorrente da falta de planejamento e da concorrência mortífera entre os capitais no mercado.

 

 

O peso das Tecnologias da Informação e Comunicação - TICs

É lugar comum dizer que essas modalidades de contratação como as plataformas emergiram devido ao avanço das Tecnologias da Informação e Comunicação e suas aplicações no trabalho e em quase todos os espaços da sociabilidade. E de fato a difusão do acesso e o adensamento das operações na Internet, o comércio eletrônico e os meios de comunicação que nela se formaram, junto da propagação de aparelhos portáteis conectáveis como o próprio telefone, permitiram que modelos de negócios como os market places e as plataformas se tornassem uma estratégia viável de exploração agressiva do consumo e do trabalho.

Mas as tecnologias não são protagonistas da processualidade social – e tampouco as pandemias como a de covid-19. Que sejam fruto da atividade humana não há dúvida, mas isso não implica que, sendo parte da realidade social, tenham agência consciente e menos ainda consciência de fim. A explosão da pandemia de covid-19 decorreu de um mundo totalmente despreparado para enfrentar qualquer problema que exija planejamento social e distribuição de meios de vida – o capitalismo é o avesso disso. Já as tecnologias informacionais e digitais, como toda ferramenta, são mediações desenhadas como parte do combate entre as classes sociais e, este sim, é núcleo gerador, o cerne do movimento da história (como já haviam demonstrado Marx e Engels).

Portanto, o fato é que por trás da terceirização e da plataformização do trabalho está a instabilidade crônica do capitalismo, que, na mais recente das constantes crises que atravessa, jogou novamente a classe trabalhadora na miséria, levando a classe dominante, por seu turno, a uma postura mais violenta e preventiva em face da compreensível possibilidade de rebeldia social da classe trabalhadora contra o status quo.

As plataformas, por exemplo, não teriam a força de trabalho hoje à sua disposição se não fosse a crise oriunda da podridão financeira dos EUA, que, em 2007, lançou no ventilador aquilo que na Corte Suprema daquele país os agentes de mercado em seus depoimentos chamaram simplesmente de “m...” (“s...”, em inglês). O estrago dessa que foi uma das maiores fraudes financeiras da história (e que não tem nada que ver com o caráter dos envolvidos, pois é inerente à lógica do capital) atingiu a economia mundial, gerando desemprego em massa, desinvestimento, implosão de zonas de cooperação, perda de direitos sociais e desaguou até mesmo numa sequência de golpes contra a democracia levados a cabo em diversos países (e que não cessou até agora).

 

 

Muito além da fábrica e do escritório

É claro que o uso de determinadas tecnologias possibilitou reações rápidas das empresas diante desse cenário, tanto no tocante à necessária redução de custos de produção, quanto no que tange à ressignificação da narrativa em torno desta crise. O primeiro movimento rebate direto na arquitetura dos espaços e no projeto das mediações sociotécnicas do trabalho; o segundo movimento, ideológico, é uma espécie de reflexo invertido da realidade que, sob várias narrativas, teima em se instalar na consciência das pessoas.

Na aparência, a organização do trabalho do início do século XXI tende a evitar a imagem de espaços físicos semelhantes a fábricas ou a escritórios tradicionais, desviando a percepção de que consistem em locais de trabalho. Faz-se uma apologia ao fato de que se pode trabalhar num computador pessoal e de qualquer lugar, em casa, na rua ou em um “campus” da Google. Ventila-se a ideia de maior liberdade de tempo, de agito cultural, de promoção da criatividade, enfim, do trabalho como algo que se deve ainda fazer para ganhar a vida, mas que é movido por escolhas individuais, pelo mérito do esforço e da capacidade de cada um/a.

Por trás disso, na essência da realidade, o que se tem são pessoas trabalhando cada vez mais com recursos próprios e sem uma definição clara do que é jornada de trabalho e o que é tempo livre, sem nenhuma garantia de descanso semanal remunerado, férias, afastamento por adoecimento ou acidente, e nem mesmo de aposentadoria, para ficar só nessas conquistas bem mínimas ainda da primeira metade do século XX. Empresas fizeram fortunas explorando esse retrocesso social e tendo à frente executivos/as que, adotando uma aparência e postura de eternos adolescentes, se gabam (ao invés de se vexarem) de serem chamados de empreendedores/as num mundo miserável deste.

 

 

IHU On-Line – Considerando a evolução das forças produtivas, a revolução 4.0 e o fato de o conhecimento ser algo chave no desenvolvimento do capitalismo hoje, como se atualiza ou se mede a teoria do valor-trabalho?

Geraldo Augusto Pinto – Como aquilatar ou mesmo verificar a atualidade e a relevância da teoria do valor-trabalho? Talvez seja essa a intenção da pergunta. E com o intuito de convidar a pensar, eu me permito respondê-la, inicialmente, com outras perguntas.

De onde vem a gigantesca massa de valores acumulados por grupos que atuam em atividades ligadas à aplicação das TICs no universo do comércio, das finanças, da comunicação etc., como Microsoft, Facebook, Alphabet Inc., Amazon? Ela por acaso emana da terra, ou das instalações que esses grupos construíram? Vem dos agentes de mercado que neles investem? E por acaso esses agentes, que também ocupam o topo da pirâmide de poder econômico, atiram dinheiro a fundo perdido nesses grupos? Ou, ao contrário: extraem da operação deles a sua própria riqueza, investindo nas ações que lançam no mercado e açambarcando parte dos lucros que esses grupos geram? Onde está, enfim, a origem dessa massa imensa de valor que movimenta esses segmentos de mercado e essas empresas? Está no trabalho humano.

É uma ilusão e um retrocesso insistir que a riqueza tem sua origem em algo etéreo, imaterial, como se o próprio conhecimento – seja científico, filosófico ou artístico – não fosse ele fruto do mais árduo labor humano, de uma atividade que, além de consciente, é mediada socialmente, direcionada a fins, e, note-se: é uma condição ineliminável da própria existência e reprodução social e biológica humana. Aliás, eu indago ainda: o conhecimento não teria sido chave no desenvolvimento humano em outros períodos? É claro que foi.

 

 

Atualizando teorias e conceitos

Para sermos breves, o que ocorre é que há uma profusão de interpretações sobre esse assunto que se esforçam muito mais em querer alardear algo supostamente novo, do que atualizar teorias e conceitos que, embora tenham sido inicialmente produzidos há mais de um século, já tinham o modo de produção capitalista por substrato, como matéria de observação e análise.

A chamada Economia Política só chegou à conclusão de que o trabalho é, de fato, a fonte do valor, e o fez antes de Marx, porque buscava um conhecimento mais objetivo e sistemático que permitisse à nova classe dominante investigar a realidade com acurácia para levar a cabo o seu modo de exploração com maior racionalidade e método. O que Marx fez não foi exatamente refutar essa “descoberta”, ou seja, que o trabalho humano é a fonte de toda riqueza. Foi demonstrar que a Economia Política, embora tenha constatado isso, sempre no interesse da nova classe dominante, imediatamente desviou o foco ao concluir que a exploração alheia do trabalho como propriedade privada é uma garantia à reprodução social e natural, enfim, ao processo dito civilizatório.

Se aos economistas alinhados com a nova classe dominante interessava (dado que foram por isso mesmo levados ao problema da origem da riqueza) a quantificação da exploração do trabalho, a Marx e Engels, conquanto fosse necessário desnudar os métodos de pensamento e as práticas desta classe e de seus intelectuais (para poder demonstrar cientificamente a historicidade de tais ações e agentes), coube ir além e revelar o quanto a riqueza produzida pela classe trabalhadora apontava para a possibilidade histórica, a necessidade e a urgência de tomar para si as rédeas desse processo e legar à humanidade um salto de superação, deixando para trás toda e qualquer forma de exploração do ser humano pelo ser humano.

O que importa para responder às questões feitas é que a teoria do valor-trabalho, em sua assunção crítica por Marx, não se restringe a calcular tipos ou quantidades de valores de uso e nem mesmo a mensurar e comparar o valor em todas as ocasiões em que se manifesta na forma mercadoria ou dinheiro, salário ou lucro. Essas formas, e o movimento do valor como capital, são muito preciosas para Marx, mas são também um ponto de arranque que permitiram à sua análise ir além e demonstrar que a vida inteira, a reprodução social (material e imaterial) é posta a serviço de uma processualidade estranha aos seres humanos, que lhes retira o pleno protagonismo de que deveriam gozar na construção do seu devir histórico.

 

Não é a produção de valores de uso

Assim, a finalidade do capitalismo, para Marx, não é a produção de valores de uso, mas a produção e a acumulação de valor, e por isso ele chama a atenção para o fato de que o trabalho efetivamente produtivo nesta sociedade é o que produz valor e não só isso, mas “mais-valia” (valor excedente). Note-se que não há uma vinculação direta com determinados tipos de valores de uso e nem mesmo com atividades de trabalho, sejam materiais ou imateriais. Há atividades de trabalho cujos resultados são valores de uso que podem ser materiais ou imateriais, mas que não produzem mais-valia. Do ponto de vista do objetivo da produção capitalista, são improdutivas. Mas, também não se pode afirmar com isso que não constituam trabalho explorado.

Este é, digamos, o universo do problema. O que tem acontecido é que há estudos que propõem que, devido ao aumento de atividades cujo resultado são valores de uso imateriais, proporcionalmente àquelas cujos produtos finais são materiais, o trabalho deixou de ser a única (e até a principal) fonte de valor. Isso porque, em tese, seria cada vez mais difícil quantificar o trabalho despendido nesses valores de uso imateriais em vista da intangibilidade destes e da impossibilidade de vincular a sua produção a medidas espaço-temporais de produtividade. Consequentemente, o trabalho deixaria de ser a fonte do valor e a busca por este não mais exigiria a exploração espúria daquele; enfim, o capitalismo estaria a caminho de sua própria superação como sistema social.

Numa via oposta, há outra proposição. Dado que a produção e acumulação de valor é o fim – um fim em si mesmo – do capitalismo, há um movimento contínuo (que é agravado a cada crise de acumulação) pelo qual todo valor de uso é tendencialmente convertido em mercadoria, tornado, assim, portador de valor. Por conseguinte, toda atividade de trabalho tende a ser convertida em produção de mercadorias (sejam produtos ou serviços, sejam materiais ou imateriais), e, dessas atividades, a maioria tende a se tornar trabalho produtivo, gerador de mais-valia.

Essa última proposição, diferentemente da anterior, vai na direção correta. Mas dela também podem surgir limites quando, por exemplo, atividades de diversas naturezas passam a ser consideradas como trabalho e, até mesmo, como trabalho produtivo, gerador de mais-valia. Reconhecer que atividades de consumo, por exemplo, são geradoras de valor (e mais-valia) é um raciocínio que alarga demais o conceito de trabalho humano e pode levá-lo à infertilidade como categoria.

É possível trabalhar com a noção de uma mercantilização crescente das mediações sociais, ou seja, a penetração da lógica mercantil, concorrencial, individualizante, reificada nas diversas formas de sociabilidade. Igualmente plausível e importante é buscar demonstrar em que medida atividades de trabalho até então não mercantis converteram-se em tal e, ademais, como uma parte delas tem se tornado, além disso, produtivas (geradoras de mais-valia), o que implica serem o resultado de um trabalho que é vendido como mercadoria e que é assim adquirido por um capital industrial (no sentido que Marx confere a esta caracterização de indústria no segundo livro da obra O capital). Porém, é arriscado, em termos teóricos, ao analisar determinadas situações concretas, inferir que uma dessas dinâmicas leva diretamente à outra, ou mesmo que consistem em processos equivalentes.

 

 

IHU On-Line – Como a “plataformização” do trabalho tem modificado o trabalho e a vida dos trabalhadores? Quais são as consequências dessa “plataformização” para trabalhadores que atuam em diferentes áreas?

Geraldo Augusto Pinto – As plataformas alteram, antes de tudo (mas não somente), a forma de contratação dos/as trabalhadores/as, ou seja, o modo como se estabelecem as condições em que a mercadoria transacionada – a força de trabalho – será vendida pelos/as seus/suas possuidores/as, e comprada (ou simplesmente apropriada em seus resultados) pelos/as empregadores/as.

Na maioria esmagadora dos casos, para vender a própria força de trabalho, as plataformas exigem dos/as trabalhadores/as a posse de meios de trabalho, o que inclui não só a aquisição como propriedade (compra) desses meios, como também, alternativamente, o seu aluguel (com os consequentes custos), mas, ainda, a manutenção desses meios (o provimento das condições de sua operação em bom estado e aparência). Isso por si já é um deslocamento significativo de custos e, portanto, de riscos a quem, por óbvio, se está a aceitar alienar-se do próprio trabalho para ter acesso aos resultados de outros labores, não está em situação de viver do próprio trabalho. Ou seja, já em uma situação prévia de risco, de vulnerabilidade, o/a trabalhador/a assume ainda riscos adicionais, o que concorre para que seu poder de barganha seja ainda mais rebaixado.

Mas, não é tudo. Trabalhar para apenas uma plataforma em geral não garante o retorno esperado, de modo que é comum atuar em mais de uma, e, com isso, se admitirem jornadas de trabalho intensas e extensas, o que reduz significativamente as possibilidades de sair dessa condição. O círculo se fecha mais quando ocorrem eventos como adoecimento, acidentes, assaltos, imprevistos pessoais etc., levando à perda de horas de trabalho que necessariamente deverão ser repostas. E contribui para isso o fato de que não apenas a qualidade e a quantidade de mercadorias entregues contam para o pagamento (sobretudo se este for baixo o suficiente para exigir um nível de produção mínima já alto), mas também o tempo de disponibilidade do/a trabalhador/a às demandas das plataformas.

 

 

Trabalhos individualizantes

Não bastasse isso, também a maior parte dos trabalhos realizados mediante as plataformas é individualizante, ou seja, partem de trabalhadores/as que os/as desempenham de forma geograficamente dispersa, com poucas oportunidades de convívio no próprio processo de trabalho, o que desfavorece a formação de uma consciência de pertencimento de classe e, por conseguinte, de uma organização coletiva de reivindicação de direitos.

Por trás disso, há outros elementos fragmentadores, como critérios de avaliação que não são claros o suficiente, a ausência de planos de carreira, e uma gestão que, apoiada por algoritmos, vigia, controla os movimentos e, via de regra, surpreende os/as trabalhadores/as com resultados inusitados (como redução do preço dos serviços em face do aumento da oferta de força de trabalho ou mesmo de elevação da produtividade).

Em termos de resultados, o que se observa com a plataformização é a redução de direitos, de medidas de proteção e seguridade àqueles/as que vivem da venda do próprio trabalho para sobreviver, ao passo que há um robustecimento das medidas de proteção àqueles/as que compram força de trabalho alheia, pois a totalidade dos riscos inerentes ao exercício das atividades é repassado aos/às trabalhadores/as. Vale notar que se trata também de um deslocamento de custos das operações industriais e comerciais do capital à sociedade como um todo, uma vez que o avanço das plataformas contribui para um rebaixamento geral, pela via da concorrência mercadológica, das condições de trabalho de empresas que não estão organizadas dessa forma, promovendo uma fragilização do mercado formal de trabalho e, com isso, um desmantelamento de estruturas públicas mantidas em grande parte com base no recolhimento de encargos trabalhistas, como a Previdência.

 

 

IHU On-Line – Alguns pesquisadores apostavam que o desenvolvimento tecnológico nos permitiria trabalhar menos horas por dia, mas o que se observa é justamente o contrário, as pessoas estão trabalhando cada vez mais. Por que isso acontece?

Geraldo Augusto Pinto – Isso acontece porque o modo de produção capitalista tem como finalidade última a produção e a acumulação de valor, como já mencionamos antes. Os valores de uso – sejam serviços, sejam produtos agrícolas ou manufaturados – são suportes materiais do valor, o que significa que não são, em si, elementos suficientes ao processo de valorização, embora sejam necessários. Em outros termos, tudo a que temos acesso, ou quase tudo, só chega até nós porque produziu lucro (que, ao fim e ao cabo, é mais-valia), muito embora tenhamos demandado esses valores de uso, esses produtos do trabalho, com o fito de satisfazer determinadas necessidades. Em síntese, o trabalho humano somente se efetiva em seus resultados se promove a reprodução do próprio capital como valor que, em movimento, se valoriza.

O resultado é que a maioria da sociedade – que, em qualquer país hoje, é composta por pessoas que alienam diariamente o próprio trabalho para sobreviver – é posta a trabalhar freneticamente não exatamente para produzir e, com isso, garantir as condições de sua própria existência, mas as do capital, ou seja, de uma massa de valor que é acumulada em posse de uma minoria.

É importante reparar que se trata de uma massa de “valor” que é acumulada num dos polos sociais, porque os “valores de uso” que os carregam, como mercadorias, voltam (com exceção dos mais luxuriosos) de forma desigual e a custos mais altos às mãos da própria classe trabalhadora, que deles depende para prosseguir existindo. Os valores de uso só refluem para a classe trabalhadora depois de terem sido por ela mesma produzidos e, a seguir, dela apartados para serem, então, consumidos na forma de mercadorias, as quais já contém (nesse último estágio) trabalho não pago. O dinheiro, por seu turno, ao final de cada ciclo desse processo, reflui das mãos da classe trabalhadora para os bolsos dos/as capitalistas, depois de ter sido adiantado como capital em salários e meios de produção.

Os objetivos, o alcance e os limites de ação de cada uma dessas classes sociais estão dados nessa condição: ambas têm de sobreviver, mas, a uma dessas classes, interessa acima de tudo o refluxo do valor em dinheiro adiantado, acrescido de um excedente. Posto que os meios de produção lhe pertencem e o próprio consumo da classe trabalhadora, a quem emprega, é parte integrante desse ciclo de lançar e reter valor, a classe empresarial, que personifica o capital, lançará mão de todas as estratégias para ampliar esse circuito de produção e consumo.

 

 

Espaços de produção e consumo

Por isso, há uma imensidão de métodos e mediações sociotécnicas agregadas às esferas e espaços da produção e do consumo, com a finalidade de dinamizá-los a todo momento. A produção amplia o desgaste e eleva o consumo, tanto de meios produtivos pelo capital, quanto de meios de vida por parte dos/as trabalhadores/as. Incentiva e direciona esse consumo tendo por base a reprodução ampliada do próprio capital, isto é, do movimento de geração e acumulação de valor por meio da produção e do consumo ininterruptos.

Dadas essas necessidades, qualquer inovação tecnológica que, na esfera da produção, permita intensificar o processo de trabalho, estender jornadas e reduzir os pequenos intervalos de tempo em que há dispêndio de trabalho sem geração de valor, ou, de outro modo, na esfera da circulação, permita ativar as necessidades de consumo, reduzindo o ciclo de retorno do valor em dinheiro adiantado como capital pelo empresariado, tende a ser implantada e o resultado, como é possível prever, é sempre mais trabalho.

 

Humanos e natureza mais explorados

Há quem advogue que o capitalismo é o sistema que mais se agigantou em termos de desenvolvimento tecnológico e que, nesse sentido, legou à humanidade acesso a condições de vida em patamares sempre crescentes. Tirando os exageros, o fato é que isso é perfeitamente compatível com um aumento ainda maior da exploração do ser humano e da natureza. Produz-se mais, consome-se (embora desigualmente) mais, mas trabalha-se sempre muito mais, porque nem a produção de valores de uso, nem o consumo dos mesmos é o objeto, a finalidade do capitalismo. Mas, novamente: é a produção e acumulação de valor.

Deixo de lado aqui outras questões, como, por exemplo, os efeitos deletérios que o desemprego causado pela automação e por novas formas de gestão do trabalho geram sobre os/as trabalhadores/as ainda empregados/as, no sentido de lhes introjetar uma autoexploração, entre outros temas, por considerar que já são por demais abordados em muitos estudos.

 

O professor Geraldo Augusto Pinto foi um dos conferencistas da Maratona DigiLabour. Acesse a palestra através da plataforma Microsoft Teams.

 

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