“Bergoglio é um retorno às essências do Evangelho”, afirma Sergio Rubín, biógrafo do Papa

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Por: Jonas | 24 Abril 2014

O jornalista coautor de El Jesuita esteve no Paraná (Argentina), cidade onde cresceu e ainda tem suas amizades. O escritor recria a personalidade do Papa Francisco e a dimensão de sua mensagem. Além disso, compartilha histórias com ele e recorda sua entrevista com Madre Teresa de Calcutá.

A reportagem é publicada por El Diario, 22-04-2014. A tradução é do Cepat.

“Eu falo de uma revolução cultural na Igreja, com tudo isto da primazia da caridade: nada pode estar acima do primeiro e grande mandamento, que é o mandamento do amor”.

 
Fonte: http://goo.gl/PI2wg3  

Essa frase, escolhida para encabeçar a nota, talvez ao acaso, é um dos pontos da conversa com Sergio Rubín (foto), o biógrafo do Papa Francisco, que ontem dedicou alguns minutos para El Diario, em sua passagem pelo Paraná para celebrar um evento familiar.

Rubín, coautor de El Jesuita ao lado de Francesca Ambrogetti e há vintes anos editor de Religião no Clarín, é nascido em Santa Fé, mas se criou no Paraná, onde ainda tem familiares, amigos e conhecidos.

O estudo o levou a Buenos Aires, o trabalho o manteve ali e, em Roma, viveu momentos de grande intensidade, como aquela quarta-feira, dia 13 de março, quando após a fumaça branca escutou o nome de Jorge Bergoglio como o novo Papa.

“Fala muito da misericórdia, do perdão, da compreensão, da Igreja-hospital que recebe e acompanha... que não se importa com a culpa e o pecado. Não é que aboliu o pecado, mas prioriza outras coisas, por isso penso que é uma mudança cultural para nós que havíamos criado uma imagem de uma Igreja da culpa e da proibição. Parece-me que está procurando mudar isso, mas não é fácil”, reflete em outra parte da conversa. E continua: “O Papa não está obcecado com as questões sexuais. A Igreja continuará condenando o aborto, pois, além disso, nisso a ciência a assiste. Contudo, o Papa não está obcecado em falar todo dia disso, mas, ao contrário, fala da austeridade, da proximidade, tudo isso faz parte de uma mudança que não implica modificar nenhuma norma e, em definitivo, é, para mim, um retorno às essências do Evangelho”.

O jornalista

Sergio Rubín não foi seminarista, nem participa de movimentos católicos. É jornalista e foram os vaivéns da vida os que o colocou diante dos assuntos de religião.

Suas primeiras armas no jornalismo se deram quando viajou junto com a equipe de handball do colégio La Salle (de Paraná), para participar dos campeonatos nacionais Evita e Hombre Nuevo, que ocorreram em outubro de 1974, em Río Tercero. “Eu tinha 16 anos e já tinha uma inquietude jornalística. Era diretor da revista do colégio e, na verdade, grudei no coletivo quando estavam subindo. A partir dos campeonatos, fazia a transmissão para LT 14, Rádio Geral Urquiza do Paraná, mas ninguém sabia que eu era um aluno do 4º ano. Assim, comecei a trabalhar com Esportes, a respeito do qual não entendia nada, pois nunca entendi nada de Esportes, entre as tantas coisas que não entendo”.

Já radicado em Buenos Aires, em 1976, começou a trabalhar no Semanário Esquiú, um meio de comunicação religioso com mais de 100.000 exemplares, que era distribuído na maioria das paróquias do país. Os demais trabalhos, “em sua imensa maioria, foram não confessionais”.

Rubín entende que houve marcas em sua vida que foram delineando o seu caminho para o jornalismo religioso. Escolhe contar um deles e não erra em sua escolha: “Em 1979, um colega meu, Héctor Lorenzo, telefona-me uma manhã e me diz que ‘há uma freira fantástica que veio de fora. Por que não escreve uma nota para o Esquiú?’ Fiquei o dia todo com a freira, escrevi uma nota que foi capa e contei para todo o mundo que havia conhecido essa freira, que me havia impactado muito. Três meses depois, deram o Prêmio Nobel da Paz para essa freira. Era a Madre Teresa de Calcutá”.

Também teve a experiência, concedida pelo cardeal Antonio Samoré, de ter a primazia em representar o Papa João Paulo II na mediação entre Argentina e Chile, no conflito de 1978-79.

O livro

“A ideia do livro não é minha, mas de Francesca Ambrogetti, uma jornalista ítalo argentina, que é uma grande pessoa. Ela havia ficado muito impressionada com o pensamento e a forma de ser de Bergoglio, então veio me ver e disse-me: “é preciso fazer um livro com este homem”. Eu lhe disse que parecia legal, mas que era um homem de baixo perfil, que não ia querer. Fomos vê-lo, atendeu-nos fantasticamente, mas quando chegamos ao ponto, correu conosco”, recorda Rubín, sorrindo ante as imagens que essa lembrança lhe traz.

Veio o ano de 2005 e Rubín fez a cobertura da eleição de Bento XVI. “Na verdade, dessa vez, eu tinha Bergoglio como candidato. Embora, certamente, um conclave seja algo muito secreto, sempre se filtra alguma coisa; e eu me inteirei que teve ao redor de 40 votos, um grande desempenho. Nunca um latino-americano havia tirado essa quantidade de votos para Papa”, rememora, agradecendo a qualidade de arquivo da imprensa gráfica, que permite acumular todos estes dados.

Após a experiência de ter chegado tão perto de ser o chefe da Igreja Católica, Rubín e Ambrogetti insistiram e Bergoglio finalmente aceitou.

“Trabalhamos mais de dois anos com ele. Reuníamo-nos uma vez por mês. Porém, nós, na realidade, o que pensávamos era em fazer a memória, a recordação de um grande cardeal argentino, com uma personalidade muito interessante, um pensamento fantástico, que havia chegado perto de ser Papa. Pensávamos em fazer isso para que as pessoas o conhecessem, porque ele era pouco divulgado. Apenas era visto quando dizia algo que era entendido como uma crítica ao Governo, mas não era realmente conhecido”.

Assim, nasceu El Jesuita, livro que foi apresentado em junho de 2010 e que hoje, com a eleição do Papa Francisco, conseguiu ser o livro de não ficção mais vendido da Argentina no ano de 2013, com mais de 100.000 exemplares vendidos no país; e com traduções para 20 idiomas diferentes.

“Tudo bem. O livro já estava apresentado, agora, para outra coisa... Porém, minha vida começou a mudar no dia 11 de fevereiro”, destaca Rubín.

Papa Francisco

Foi no dia 11 de fevereiro, feriado de carnaval, quando a notícia da renúncia de Ratzinger surpreendeu Rubín. “Pareceu-me algo extraordinário, um gesto de grandeza histórica. E para os que me perguntavam se eu considerava Bergoglio candidato novamente, dizia que não... que o seu tempo já havia se passado”. Estando já em Roma para cobrir o conclave e a eleição papal, Rubín teve uma reunião no Vaticano “com gente que merece muita confiança. Começamos a revisar os candidatos, para uma nota jornalística, e me disseram ‘dê também uma credencial para Bergoglio’. Eu pensei que estavam brincando. Não levei a sério. Quando saí, comecei a processar tudo, e disse ‘não posso ser tão soberbo. Esta gente há anos me dá muito boa informação’. Então, apesar de não me animar em escrever a nota principal sobre Bergoglio, pus em um quadro a informação de que voltava a ser candidato. Na terça-feira à noite, por conta desse quadro me telefonaram da Telenoche e eu, da Praça São Pedro, confirmei que Bergoglio era novamente candidato. Na verdade, quando terminou a transmissão, senti-me mal porque pensei que havia me embalado muito. Porém, no outro dia (13 de março) aconteceu o que não tinha previsto”.

Três dias depois, no sábado 16, Sergio Rubín teve a possibilidade de estar entre os 6.000 jornalistas do mundo que se reuniram com o novo Papa. E, em seguida, a grande oportunidade de ser um dos 10 que passaram pela Sala Paulo VI para cumprimentá-lo. “Foi um momento muito forte e, apesar de não querer, emocionei-me. Ele me deu um abraço e me disse ‘continuo sendo o mesmo de sempre’. Isso me tranquilizou. Encontrei-me com a mesma pessoa e isso me deu muita tranquilidade. Pediu-me que enviasse suas saudações a Francesca, porque ela havia ficado em Buenos Aires e que lhe dissesse que havia rezado por ela no dia de sua padroeira, assim como sempre fazia. Às duas horas, telefonei para Francesca para lhe transmitir suas saudações... Fiz isso para cumprir o compromisso com ele, mas também porque imaginava que ele iria telefonar. No dia seguinte, ele fez isso e perguntou se eu lhe havia transmitido a saudação”.

Apesar de preferir manter certas coisas em segredo, confia que mantém uma relação muito aberta com o Papa.

Sergio Rubín entende que é necessário esperar para ver se o papado de um argentino repercute no país e como isso se dá... por isso, considera difícil responder essa pergunta.

“Na Argentina teve um grande impacto. No plano religioso, as pesquisas dizem que há uma maior valorização do religioso, que as pessoas melhoraram a imagem sobre a Igreja. E no social acredito que tudo está para ser observado. O Papa pediu mais diálogo, mais compreensão e sua condenação permanente à corrupção é conhecida não apenas na Argentina, mas em todo o mundo... Não sei que impacto terá finalmente: se irá ficar como o Papa, Maradona, a Rainha Máxima e Messi... ou se irá gerar outra coisa”, aponta. E acrescenta que: “eu desejo, profundamente, que isto contribua para um país um pouco melhor. Realmente, acredito que é necessário prestar mais atenção nele e colocar mais em prática o que diz. Digo isso para todos e para mim também”.

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