A mensagem radical confiada à simplicidade

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31 Março 2013

O título do original argentino, El jesuita, não deve enganar: o livro publicado em 2010, nascido das conversas de Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti com o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, agora intitulado Papa Francesco, contém uma série de percursos autobiográficos do novo pontífice. São ricos de referências que não sofreram mudanças nesses últimos anos, embora a vida do protagonista tenha mudado decisivamente.

A reportagem é de Armando Torno, publicada no jornal Corriere della Sera, 28-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essas páginas conservam algo que continua sendo válido tanto para o purpurado quanto para o sucessor de Pedro. Podemos chamar essa invariável com uma palavra antiga e sempre atual: simplicidade. Ou, se se quiser, podemos notar que o Papa Francisco, rapidamente e sem barulho, conseguiu comunicar ao mundo o que o poeta William Wordsworth deixou em uma linha de Written in London: "Viver com simplicidade e pensar com grandeza". Uma nova proposta de fé, em suma. Que parte do termo franciscano por excelência (você se lembra da "simplicidade colombina", do frei Leão, nos Fioretti?), que é reflexo de fé, mas também método de vida.

Francisco é um nome que, ao contrário de certos estereótipos caros a Vincenzo Gioberti e a alguns outros literatos que não suportavam os filhos de Santo Inácio, se conjuga com a formação dos jesuítas. O frei de Assis havia desafiado o mundo desnudando-se; renovou a Igreja com gestos que todos podiam compreender, arrancando-se de cima o supérfluo. Inácio de Loyola, nos seus Exercícios Espirituais, indica a melhor maneira para enfrentar dificuldades e problemas, que nunca faltaram, com uma estratégia que se fundamenta na força dos contrários. Nasce de uma lógica apontada como uma lâmina, que mantém, no entanto, a energia das escolhas simples e imediatas: "A alma que quer tirar proveito na vida espiritual deve sempre proceder ao contrário do proceder do inimigo, isto é, se o inimigo quer tornar grosseira a alma, que ela procure se refinar; igualmente, se o inimigo procura atenuá-la para levá-lo ao extremo, que a alma procure se consolidar no meio para aquietar-se em tudo".

O Papa Francisco confia a sua mensagem, totalmente percebida como uma renovação radical, a poucas e decididas indicações. Ele começou, em um primeiro momento, com "Misericórdia", citando sem problemas o título desse livro do cardeal Walter Kasper, publicado em italiano pela editora Queriniana, para convidar a todos a uma prática essencial para a vida cristã. E está continuando, como prova a primeira audiência geral por ele realizada no dia 27, na qual, dentre outras coisas, lembrou: "Jesus não tem casa porque a sua casa é o povo". O jornal L'Osservatore Romano observou: "É a simplicidade o meio escolhido pelo Papa Francisco para transmitir a sua mensagem".

A mesma atitude se encontra no livro que estamos apresentando, intitulado justamente Papa Francesco. Para dar um exemplo dentre as milhares de possibilidades, diremos que à pergunta: "E agora o senhor continua preparando sozinho as suas refeições?", ele respondeu: "Não, não tenho tempo. Mas quando eu vivia no Colégio Máximo de San Miguel, já que aos domingos não havia cozinheira, eu tinha que cozinhar para os estudantes". Os entrevistadores continuam ("E o senhor é bom na cozinha?", rebatem), e ele respondeu com um toque de simples ironia: "Não sei, mas nunca matei ninguém".

O livro é rico em reflexões que ajudam a se orientar nas complicadas vicissitudes atuais. O então cardeal Bergoglio mantém o leme firme, assim como está fazendo agora como papa. Pegue-se um tema candente: ele o abordar sem piscar de olhos ou concessões, com clareza natural. "A Igreja – sublinha – sempre defendeu que a chave da questão social está no trabalho. O trabalhador está no centro. Hoje, em muitos casos, não é mais assim. Se alguém não tem uma renda suficiente, é fácil que ele seja demitido. Nesse caso, ele se torna uma coisa, não mais uma pessoa".

E depois uma estocada, conduzido com mão firme: "Não nos esqueçamos de que uma das principais causas de suicídio é o fracasso no trabalho dentro de uma competitividade desumana. Por isso, não devemos olhar para o trabalho só do ponto de vista dos resultados. A coisa mais importante não é o lucro, nem o capital. E não é a pessoa que deve servir ao trabalho, mas sim o trabalho que deve servir à pessoa".

Certamente, não são argumentos que agradam aos operadores econômicos ou aos contabilistas que lotam a sociedade contemporânea, mas certamente não se pode negar que eles conseguem transmitir conceitos revolucionários. Os mesmos que se obstinam, apesar de o mercado os condenar, a sair continuamente das páginas dos Evangelhos.

O rabino Abraham Skorka, de Buenos Aires, escreveu o prefácio a Papa Francesco. Ele lembra que alguns discordarão das suas avaliações, mas ninguém "poderá negar aquele pano de fundo de humildade e de compreensão" com que ele enquadra os temas da entrevista. E não só. Ele acrescenta: "A obsessão de Bergoglio, que percorre todo o livro como um leitmotiv, pode ser resumida em duas palavras: encontro e unidade".

O que dizer? O cardeal de então e o pontífice de hoje, ou seja, o jesuíta Bergoglio, optou por viver utilizando essas referências que permitem – escolhamos palavras presentes nos Detti de Jacopone da Todi – não ver "confundida a verdade que ele ama".

As notícias se debruçam sobre os sapatos do papa, que continuaram sendo os do cardeal ou do simples religioso que ele foi, ou sobre o fato de que ele não tem vestiu a mozeta apresentando-se ao mundo: alguém levantou objeções porque ele renunciou à cruz incrustada de preciosidades que Napoleão III doou a Pio IX e que, desde então, reluz nos peitos dos pontífices.

Essas escolhas continuarão, e que aqueles que serão chamados a interpretá-las se prepararem desde já para um grande trabalho. No entanto, o papa já fez um milagre na comunicação: Francisco está de volta muito atual e, com ele, a escolha pela simplicidade. Além disso – este prodígio faltava há séculos – começa-se a falar bem dos jesuítas. Até está se tornando difícil encontrar alguém que não tenha estudado com eles.

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