Olhar sobre Lutero, às vésperas do quinto centenário da Reforma. Uma perspectiva ecumênica

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20 Maio 2016

Saiu, na Itália, reelaborado e ampliado, o texto de uma palestra do Cardeal Kasper sobre Lutero, realizada em 18 de janeiro, no início da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, na Universidade Humboldt, em Berlim, a convite do Fundação Guardini (Walter Kasper, Martin Lutero: Uma perspectiva ecumênica. Brescia: Queriniana, 2016. 75 p. (Giornale di Teologia, v. 387).

A reportagem é de Giovanni Maria Vian, publicada por L'Osservatore Romano, 19-05-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Dedicado a irmã Ingeborg, falecida 28 de janeiro passado, já publicado na Alemanha (Patmos Verlag), e na Espanha (Sal Terrae), o pequeno livro, do qual antecipamos as conclusões nesta página, é uma síntese inteligente e ecumenicamente relevante. No prólogo o autor, que presidiu o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, de 2001-2010, reconhece que "para os católicos, Lutero era, por muito tempo, simplesmente um herege, aquele que carregava a culpa pela divisão da Igreja ocidental, com todas funestas consequências, até hoje". Mas "esses dias se foram," e a historiografia católica do século XX "fez grande avanço na compreensão" do reformador, o que lhe permite reconhecer "sua alçada genuinamente religiosa" e "adequar um julgamento mais justo sobre a culpa do cisma das Igrejas e, no rastro do ecumenismo, a aceitar alguns dos seus pontos de vista e, não menos importante, dos seus cânticos litúrgicos. Os últimos Papas partilharam este modo de ver", como "Bento XVI, em 23 de setembro de 2011, durante sua visita na casa do Capítulo do antigo convento agostiniano em Erfurt, onde Lutero tinha pronunciado seus votos religiosos”.E se, "para alguns, Lutero já se tornou quase um padre comum da Igreja", escreve Kasper, "as numerosas tomadas de posição ocorridas por ocasião dos quinhentos anos da Reforma Protestante, de 2017, não chegam a tanto. Todas consideram a mudança ocorrida na compreensão ecumênica de Lutero, mas reconhecem também que, entre as Igrejas, ainda pendem questões controversas. Por isso, muitos cristãos esperam, com razão, que a comemoração, em 2017, dos quinhentos anos da Reforma, os obrigue a fazer, em nível ecumênico, um passo em direção à unidade".

O cardeal observa que "o próprio Lutero não era pessoa ecumênica. No final de sua vida, não pensava ser possível a reunificação com Roma. O fato de que cristãos católicos cantem hoje, em suas celebrações, os hinos religiosos, ele não podia imaginar, muito menos poderia imaginar nosso diálogo com os judeus, sobre os quais falou com desprezo, de maneira, para nós, muito embaraçosa, e até mesmo o diálogo com os muçulmanos, para os quais, nos seus escritos contra os turcos, não mostrou absolutamente sentimentos benevolentes, mas nem mesmo o diálogo com os anabatistas (hoje batistas e menonitas) que, em seguida, foram perseguidos tanto pelos evangélicos, como pelos católicos”. Mas tem mais, observa ainda Kasper: "Para nós, a estranheza de Lutero é mais profunda. Para muitos, também para os cristãos praticantes de ambas as Igrejas, não se compreendem mais as questões levantadas por Lutero. Isto vale para os católicos com relação às indulgências, e para os evangélicos com relação à justificação do pecador. Num mundo em que Deus tornou-se, frequentemente, um estranho, ambas as questões tornaram-se para os contemporâneos discursos incompreensíveis. Até mesmo a palavra "Igreja" tornou-se, ainda mais do que era então para Lutero, uma "palavra obscura e pouco inteligível". Por isso, antes de falar da atualidade do reformador, é preciso "enquadrá-lo nas diferentes situações de ambas as Igrejas e do ecumenismo" e "tomar consciência da estranheza do mundo em que Lutero viveu, e até mesmo da estranheza de sua mensagem". Mas, exatamente essa estranheza representa hoje, de acordo com o teólogo, a atualidade ecumênica de Lutero.

Perspectiva ecumênica de Walter Kasper

Lutero não foi um homem ecumênico, no sentido moderno do termo. Nem foram seus adversários. Ambos, propensos a polêmicas e controvérsias. Isto levou a restrições e enrijecimentos de ambos os lados. Os problemas logo se aguçaram, da questão da justiça revelada no evangelho e da misericórdia de Deus, até a questão da Igreja, especialmente a do Papa. Uma vez que o Papa e os bispos se recusaram a prosseguir com a reforma, Lutero, com base no seu entendimento do sacerdócio universal, teve que se contentar com uma organização de emergência. No entanto, continuou a confiar que a verdade do evangelho se imporia por si mesma, e por isso deixou a porta fundamentalmente aberta, para um possível entendimento futuro.

Também da parte católica, no início do século XVI, muitas portas estavam abertas. Não havia uma eclesiologia católica harmonicamente estruturada, mas apenas aproximações, mais uma doutrina sobre a hierarquia do que uma verdadeira própria eclesiologia. Uma eclesiologia sistemática se terá somente na teologia controversista, como antítese da polêmica da Reforma contra o papado. O papado tornou-se, por assim dizer, de forma até então desconhecida, a marca da identidade do catolicismo. As respectivas teses e antíteses confessionais condicionaram-se e bloqueara-se mutuamente.

Só recentemente o ecumenismo reabriu um pouco mais as portas. No lugar da polêmica, o diálogo assumiu o controle. Diálogo não significa alijamento do que era considerado verdadeiro até agora. Um diálogo genuíno somente pode ser conduzido por pessoas que, embora cada uma com seu ponto de vista, estejam dispostas, no entanto, a ouvir os outros e aprender com os outros. Tal diálogo não é questão meramente intelectual; é troca de dons. Requer o reconhecimento tanto da verdade do outro, como dos seus pontos fracos, e a vontade de afirmar sua verdade, de maneira que não fira o outro, polemize com o outro, mas com amor (Ef 4,15), tirando das controvérsias o veneno de divisão, transformando-as em dom, de modo que juntas, ambas as partes, possam crescer na catolicidade, entendida em seu sentido original, e cresçam juntas, reconheçam mais a misericórdia de Deus em Jesus Cristo e, juntas, deem testemunho perante o mundo.

Este foi o caminho do último Concílio que traçou uma via que não pode ser invertida – uma via, não uma solução já pronta! A recepção do Concílio Vaticano II, mesmo depois de 50 anos da sua conclusão, ainda não chegou ao fim. O Papa Francisco deu início a uma nova fase no processo de recepção. Ele ressalta a eclesiologia do Povo de Deus, povo de Deus a caminho, o sentido da fé do povo de Deus, a estrutura sinodal da Igreja e, para a compreensão da unidade, coloca em jogo uma interessante nova aproximação. Descreve a unidade ecumênica não mais com a imagem de círculos concêntricos ao redor do centro romano, mas com a imagem do poliedro, que possui muitas faces, não um quebra-cabeça colocado junto desde fora, mas um todo e, como pedra preciosa, um todo que reflete a luz de modo tão estupendamente multíplice. Reconectando-se a Oscar Cullmann, o Papa Francisco retoma o conceito da diversidade reconciliada. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, "seu escrito programático," ele parte do evangelho, e convida à conversão não só os cristãos individualmente, mas também o episcopado e o primado.

Assim, subentende-se, coloca-se no centro a originária exigência fundamental da Lutero, ou seja, o evangelho da graça e da misericórdia, e o apelo à conversão e à renovação.

Não só a história da recepção do último Concílio, mas também a história da recepção de Lutero não está, absolutamente, pronta, nem mesmo nas Igrejas evangélicas. Há um esquecimento e também um estranhamento de Lutero da parte deles. Pense-se na doutrina sobre a Santa Ceia e à piedade eucarística. Isso mostra que Lutero, contra Zwínglio, manteve-se resolutamente fiel a compreensão realística da eucaristia, que não pode ser fechada rigidamente no esquema de uma religião de pura interioridade. Pense-se também na compreensão do ministério, do Lutero da maturidade, da sua fundamental abertura em relação ao episcopado histórico, bem como na afirmação de que carregaria na palma da mão e beijaria os pés de um papa que aceitasse e reconhecesse seu evangelho. Não é possível, portanto, fazer referência apenas às reivindicações polêmicas do primeiro Lutero. Devemos e podemos, ao contrário, retomar a questão, fundamental para o progresso do ecumenismo, a questão da compreensão da relação entre Igreja, ministério e eucaristia. Neste sentido, um passo adiante seria levar a sério os aspectos místicos de Lutero.

Eles não se encontram somente no jovem Lutero, mas também no mais simpático dos escritos reformadores mais importantes, Von der Freiheit eines Christenmenschen. Isso abriria a possibilidade de diálogo. Na verdade, unidade e reconciliação não acontecem apenas na cabeça, mas primeiro no coração, na piedade pessoal, na vida cotidiana e no encontro entre pessoas.

Dito de forma mais acadêmica: precisamos de um ecumenismo acolhedor, capaz de aprender com os outros. Somente através dele pode-se realizar concretamente a Igreja Católica e a plenitude da sua catolicidade; por outro lado, mesmo a petição mais original de Lutero, no fundo da exigência ecumênica, pode encontrar plena satisfação somente através de um ecumenismo acolhedor. Ainda não temos nenhuma solução conjunta, mas temos a possibilidade de uma perspectiva comum e de um caminho comum para o futuro. O caminho em direção à unidade plena está aberto, por mais que, eventualmente, possa ser longo e cheio de obstáculos.

A contribuição mais importante de Martinho Lutero para o ecumenismo não se encontram nas abordagens eclesiológicas, que nele ainda permaneceram abertas, mas na orientação original ao evangelho da graça e da misericórdia de Deus, no seu apelo à conversão. A mensagem da misericórdia de Deus era resposta ao próprio problema e necessidade, como também às interrogações de seu tempo; e ainda hoje é resposta aos sinais dos tempos e às prementes questões de muitos. Só a misericórdia de Deus pode curar as feridas profundas que a divisão infligiu no corpo de Cristo, a Igreja. A misericórdia pode transformar e renovar os corações, torna-los dispostos ao arrependimento, a ter misericórdia entre nós, a perdoarmo-nos reciprocamente as injustiças sofridas, a reconciliarmo-nos e a colocarmo-nos em caminho, para encontrar juntos, com paciência, e passo a passo, o caminho para unidade na diversidade reconciliada.

Neste sentido, gostaria de retomar uma frase colocada na boca de Martinho Lutero. Como se costuma dizer do Anticristo, esta se coloca em perspectiva escatológica, mas mais serena, mais branda e voltada à esperança. "Mesmo que eu soubesse que o mundo iria acabar amanhã, plantaria em meu jardim uma macieira". Em 1º de novembro de 2009, pude plantar uma pequena árvore de tília no reconstituído jardim de Lutero, em Wittenberg; retribuindo o presente, sob meu sucessor, os luteranos plantaram uma oliveira na basílica romana de São Paulo fora dos Muros.

Quem planta uma pequena árvore alimenta a esperança, mas também precisa de paciência. A plantinha deve, em primeiro lugar, crescer em profundidade, colocar raízes para suportar as tempestades adversas. Nós também devemos ir ad fontes e ad radices. Precisamos de um ecumenismo espiritual na leitura comum das Escrituras e na oração comum. Em segundo lugar, a arvorezinha deve crescer em altura, e subir para o céu, em direção à luz. O ecumenismo, nós não o podemos "produzir", não o podemos organizar ou exigir pela força. A unidade é um dom do Espírito Santo de Deus. Do poder do Espírito, não podemos ter baixa estima, não podemos apressadamente jogar a toalha e prematuramente perder a esperança. O Espírito de Deus, que começou o trabalho da unidade, também vai leva-la a termo, numa unidade não como nós a queremos, mas como Ele a quer.

Finalmente, a pequena árvore deverá crescer em amplitude, de modo que as aves do céu possam fazer ninhos nos seus ramos (cfr. Mt 13,32), ou seja, para que todos os cristãos de boa vontade encontrem lugar nela e à sua sombra. Segundo a imagem do poliedro, devemos permitir a unidade numa grande multiplicidade reconciliada, devemos estar disponíveis à todas as pessoas de boa vontade e dar, já agora, testemunho comum de Deus e da sua misericórdia.

A unidade está mais próxima hoje do que há quinhentos anos. Ela já começou. Em 2017 não estamos mais, como em 1517, a caminho da separação, mas a caminho da unidade. Se tivermos coragem e paciência, no final, não estaremos decepcionados. Esfregaremos os olhos e, com gratidão, nos surpreenderemos daquilo que o Espírito de Deus nos deu, talvez de maneira totalmente diferente de como nós pensamos. Nesta perspectiva ecumênica, 2017 poderia ser, para os cristãos evangélicos e para os católicos, uma oportunidade. Devemos ser capazes de usufruir: faria bem para ambas as Igrejas, para tantas pessoas que alimentam esperanças com relação a isso, e também para o mundo que, especialmente agora, precisa de nosso testemunho comum.

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