O magistério católico sobre a homossexualidade é 'chama de “sem sentido”, diz padre responsável pela Catequese em Malta

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18 Março 2016

"Nos últimos anos, pessoas que vivem em Malta, país altamente católico, viram que os direitos civis da comunidade LGBT podem contar com o apoio de seus credos religiosos e, desde então, estão agindo livremente para avançar nesse sentido", escreve Bob Shine, coordenador de mídias sociais do New Ways Ministry, em artigo publicado por Bondings 2.0, 08-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O New Ways Ministry é um grupo de defesa e justiça voltado à comunidade católica LGBT e que busca a reconciliação deste grupo com as comunidades cristã e civil mais amplas. Bob Shine escreve frequentemente para o blog Bondings 2.0, um dos projetos do New Ways Ministry

Eis o artigo.

A mais alta autoridade catequista de Malta questionou os ensinamentos católicos sobre a homossexualidade e criticou um documento oficial da Igreja do país sobre a terapia reparativa publicada semana passada.

O Pe. Rene Camilleri, chefe da Secretaria para os Catequistas de Malta e delegado para a evangelização, chamou de “sem sentido” a doutrina da Igreja sobre a homossexualidade, segundo o jornal Malta Today. Camilleri disse:

“A doutrina da Igreja Católica ainda se refere à homossexualidade em termos como doença e desordem (...) Falar desse jeito na sociedade de hoje é algo simplesmente sem sentido”.

Camilleri estava respondendo a um documento publicado pelos bispos malteses em que se opuseram à criminalização da terapia reparativa, proposta atualmente sob consideração pela legislatura do país insular. O texto relacionava a homossexualidade com a pedofilia e com doenças mentais, incitando uma forte crítica e mesmo explicações por parte de Dom Charles Scicluna, que reconheceu que o documento fora um equívoco. Camilleri acrescentou as suas próprias críticas, dizendo:

“A minha objeção a esse documento é que ele deixa transparecer que a Igreja ainda acredita ser possível converter os homossexuais, o que é inaceitável para mim (...) Nessa época em que vivemos, não podemos mais aceitar a presença da terapia de conversão dos gays no mercado. Eu tenho as minhas dúvidas quanto ao público visado pelo documento em questão, mas se ele quis se dirigir ao público geral, então mencionar a pedofilia em um tópico delicado como este foi o mesmo que deixar margem para uma interpretação equivocada”.

Esta não é a primeira vez que o Pe. Camilleri fala em termos positivos sobre questões LGBTs. No ano passado, ele ponderou sobre uma decisão de um sacerdote maltês de abençoar os anéis de compromisso de um casal homoafetivo. Sem saber se ele abençoaria tais anéis em um caso parecido, mesmo assim Camilleri reafirmou a decisão do outro padre e disse que os ministros “não podem privar [os casais gays] da benção que lhes pedem”. E continuou:

“Os padres irão enfrentar esse tipo de situação e outros que são parecidos durante o nosso trabalho pastoral em situações emergentes, que precisam de toda a nossa sensibilidade pastoral. A Igreja deveria sempre manter a pessoa no centro de sua existência porque a sua principal preocupação não é a salvaguarda da lei. Se alguém decide mudar o seu modo de vida e não se conforma aos ensinamentos da Igreja, esta em si não pode simplesmente condenar a decisão e usar, consequentemente, uma linguagem condenatória (…). Nós estamos aqui para acompanhar as pessoas, onde quer que elas estejam e independentemente do que escolham fazer”.

Camilleri disse que, diante das realidades emergentes como as uniões civis homoafetivas e as proteções das identidades de gênero, a Igreja “não pode se dar ao luxo de ficar repetindo ensinamentos velhos porque estas realidades vieram para ficar”. Informada pelos contextos renovados e pelos novos entendimentos, a Igreja deve “repensar muitas coisas” e “fazer escolhas ousadas”, sempre atenta em que “a única razão para a Igreja existir são as próprias pessoas”.

Em 2012, o catequista disse que os bispos erraram ao se oporem às adoções feitas por lésbicas e gays, e que “não se pode determinar a adequação de alguém segundo a sua orientação sexual ou o seu estado civil”. São os interesses das crianças, não os estereótipos, o que deve ditar as políticas de adoção.

Em entrevista concedida no mês de janeiro ao Malta Today, a mais alta autoridade em catequese do país falou também sobre as reformas da Igreja sob a liderança do Papa Francisco:

“O Papa Francisco não parece estar mais lá como um papa para salvaguardar a doutrina, mas para salvaguardar principalmente a liberdade e a dignidade das pessoas de se decidirem sobre si próprias. Em tudo isso, o papel da Igreja não é visto principalmente como aquele de ensinar e guardar a doutrina certa, mas de estar aí para acompanhar as pessoas em suas próprias caminhadas”.

Nos últimos anos, pessoas que vivem em Malta, país altamente católico, viram que os direitos civis da comunidade LGBT podem contar com o apoio de seus credos religiosos e, desde então, estão agindo livremente para avançar nesse sentido. O país insular conta com o Drachma, grupo de católicos LGBTs, e o Drachma Parents’ Group, organização que influenciou favoravelmente o Sínodo dos Bispos sobre a família do ano passado. O governo maltês aprovou uma lei de proteção das pessoas transgêneras em 2015, lei que agora é considerada o padrão a ser seguido na Europa. O país também legalizou a união civil homoafetiva em 2013. O primeiro-ministro Joseph Muscat anunciou dias atrás o seu apoio à igualdade matrimonial, dizendo que o país está pronto para debater a questão.

Os comentários do Pe. Camilleri sobre as fundações “sem sentido” do magistério católico a respeito da homossexualidade são extremamente honestos. A disposição dele de criticar os seus próprios superiores e, mais ainda, a disposição deles de ouvir tais críticas e responder de acordo com elas são sinais de um progresso também. Essa liberdade para dialogar mais abertamente hoje sobre os problemas na Igreja é refrescante. A teologia católica e as práticas pastorais podem – e somente irão – melhorar sob tais circunstâncias, particularmente em questões como a da sexualidade, a de gênero e a dos relacionamentos. Espero que as ações dos bispos malteses nestas últimas semanas sejam um exemplo a se difundir pelo mundo.

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