Arcebispo admite equívoco da Igreja no apoio a terapia reparativa

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04 Março 2016

O principal bispo de Malta reconheceu que os líderes católicos do país se equivocaram ao publicarem um polêmico texto onde se oponham a um projeto de lei que busca tornar ilegal a terapia reparativa no país.

Falando ao jornal Times of Malta, Dom Charles Scicluna disse que, tendo presente o que sabe hoje, “simplesmente não publicaria um documento de posição conjunta” sobre o projeto de lei que rege a terapia reparativa.

A reportagem é de Bob Shine, publicada por New Ways Ministry, Bondings 2.0, 01-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O projeto, intitulado “Lei de Afirmação da Orientação Sexual, Identidade de Gênero e Expressão de Gênero”, busca uma “proibição de terapias profissionais de conversão” e uma “proibição clara às terapias de conversão junto a pessoas vulneráveis”, tais como menores de idade e de pessoas portadoras de deficiência.

Profissionais, tais como terapeutas e pastores, e não profissionais enfrentariam multas e prisão por se envolverem em (ou promoverem) a terapia reparativa, caso o projeto seja aprovado.

O “Documento de Posição” dos bispos malteses afirmava, entre outras declarações que atraíram fortes críticas, que o projeto de lei privilegiaria a homossexualidade. Também relacionou a orientação homossexual com pedofilia. Defensores da comunidade LGBT e autoridades governamentais foram rápidos em condenar o documento de oito páginas.

Os principais grupos cristãos malteses pró-comunidade LGBTI (Drachma LGBTI e Drachma Parents Group) disseram que a iniciativa dos bispos foi uma oportunidade perdida de se construir pontes, informou o jornal The Independent. Em um comunicado, os grupos afirmaram que as pessoas “LGBTIQs que estão vivendo esta realidade” deveriam estar incluídas entre os especialistas convidados para produzir o documento, acrescentando:

“Para a Igreja, teria sido apropriado dialogar conosco sobre este assunto delicado, especialmente depois do gesto significativo por parte da Igreja quando poucos meses atrás ela pediu a um membro do Drachma que fizesse parte do painel que preparou o documento de posição sobre a Lei Embrionária e que proferisse um discurso sobre temas LGBTIQ num encontro do Colégio dos Párocos.

“Esperávamos que a Igreja não viesse a perder uma oportunidade de construir pontes com a comunidade LGBTIQ ao afirmar claramente ser contra a ‘terapia de conversão’, muito embora possa haver certos elementos no projeto de lei que exijam esclarecimentos”.

Os grupos disseram que a Igreja deveria buscar o perdão às pessoas submetidas à terapia reparativa, e que ela deveria reconhecer o imenso dano feito a tais vítimas, inclusive danos espirituais.

O primeiro-ministro maltês Joseph Muscat disse se opor “à ideia fundamental que aproxima a homossexualidade à doença ou à pedofilia”, segundo o jornal Gay Star News. Segundo o jornal Malta Today, Helena Dalli, ministra do Diálogo Social, Relações com o Consumidor e Liberdades Civis e proponente do projeto de lei, concordou dizendo que o documento dos bispos “baseia-se em premissas falsas”.

Já de acordo com o jornal The Independent, Mark Josef Rapa, do We Are, organização juvenil de LGBTQQI, falou que documento de posição da Igreja era inesperado, acrescentando que ele mostra que os líderes eclesiásticos ainda creem que “se pode ser curado da homossexualidade”.

Em nota publicada no jornal Times of Malta, o Movimento Maltês pelos Direitos dos Gays (Malta Gay Rights Movement ou MGRM, na sigla em inglês) afirmou que o projeto de lei “simplesmente busca garantir que todas as pessoas, independentemente de quais sejam suas orientações sexuais, identidades de gênero ou expressão de gênero, sejam valorizadas da mesma forma”.

O MGRM observou o “grave preconceito para com as pessoas bissexuais” presente no documento, que sugeriu que tais pessoais têm dificuldades de serem monogâmicas.

Entre outros problemas com o texto dos bispos está que ele descreve o projeto de lei como se estivesse sofrendo “de uma discriminação mais básica e manifesta”, na medida em que iria ostensivamente permitir a terapia de conversão aos homossexuais que buscassem se tornar gays ou bissexuais.

O documento, produzido por acadêmicos malteses das áreas de teologia e direito, alegou que o projeto ignora “áreas sem respostas definidas de orientações sexuais complexas” e que proibiria aqueles que buscam “refrear as suas inclinações homoafetivas”, por causa de um desejo de ser celibatário ou de apoiar um casamento de gênero misto.

O texto também empreendeu uma crítica sutil à Lei de Identidade de Gênero, Expressão de Gênero e Características Sexuais, aprovada em 2014 e que é considerada o padrão de ouro para a proteção aos transgêneros na Europa.

Diante de tantas críticas sustentadas vindas dos quatro cantos do país, a entrevista do arcebispo de Scicluna é uma admissão digna de nota em que a Igreja deveria ter lidado de forma diferente quanto à legislação sobre a terapia reparativa. Ele esclareceu:

“Qualquer terapia de conversão que force alguém a ir contra as suas decisões ou escolhas na vida está simplesmente errada e quero que isso fique absolutamente claro”.

Perguntado a respeito desta postura, Scicluna falou que se os especialistas dizem que tais terapias são “totalmente prejudiciais, então deveremos evitá-las”. Mais adiante falou que, diante desta legislação, que é bastante sensível em termos pastorais, a abordagem deveria ter sido “menos técnica e mais pastoral”. Vendo agora, disse ele, a Igreja “simplesmente não deveria ter publicado um tal documento de posição”, e acrescentou:

“A experiência ensina que não é o suficiente, no debate sobre um projeto de lei, contribuir com ele somente baseado na ajuda de especialistas. Também precisamos trazer o fator do impacto sobre as emoções das pessoas e a percepção que o documento pode criar”.

Scicluna assumiu a responsibilidade pelo documento de posição, dizendo que, embora o texto tenha vindo dos líderes da Igreja em Malta, fora ele quem aprovou a sua publicação. O documento também alegava que o projeto violava o “direito consentido do adulto em receber tratamento”. Perguntado se o painel de especialistas dos bispos que preparou o texto publicado deveria ter incluído “alguém da comunidade gay”, o arcebispo respondeu:

“A inclusão de pessoas dos grupos Drachma na elaboração do documento de posição teria ajudado imensamente porque eles já contribuíram em outros documentos, e a contribuição deles foi sempre preciosa.

A disposição de Scicluna em admitir que o documento de posição dos bispos não foi devidamente tratado e que esteve mal orientado em sua abordagem, se não em seu conteúdo, complementou-se com o seu compromisso renovado em dialogar com a comunidade LGBTI:

“Penso que tenho de construir pontes com a comunidade gay que achou que a nossa linguagem fora muito técnica, demasiada fria e distante. Quero assegurá-los de que somos completamente contra a terapia de conversão porque acreditamos, como eles acreditam, e como o governo acredita, que ela vai contra a dignidade humana.

“Nós não subscrevemos as crenças que descrevem os gays como pessoas doentes (...) Estes são rótulos que degradam as pessoas. E com certeza nós não vamos associar os gays à pedofilia”.

Ao comentar sobre o Ano Jubilar da Misericórdia inaugurado pelo Papa Francisco, Scicluna também admitiu que, na história da Igreja, “os nossos atos e linguagem não têm sido inclusivos” às vezes, e que este ano carrega uma “mensagem de compaixão e inclusão”, de fortalecimento dos esforços católicos.

O arcebispo reafirmou o desejo por um diálogo e por um trabalho colaborativo em seu ministério, descrevendo o seu estilo de liderança como “altamente colegiado”. Disse que prefere consultar assessores e realizar debates antes de tomar uma decisão. E, o mais importante, como ficou claro no tocante ao documento de posição dos bispos a respeito da terapia reparativa, Scicluna revê a sua decisão e se sente livre para revisar aquelas que são ineficazes e incorretas.

Scicluna falou também sobre o papel da Igreja Católica na vida pública e de seu estilo franco de liderança em Malta. Declarou que, embora as pessoas apreciem uma Igreja engajada na sociedade, esta deve ser uma Igreja que “aceite ser uma voz entre muitas outras”, pois ela existe em uma “sociedade pluralista”.

Os líderes eclesiásticos não podem fingir ter a última palavra em assuntos sobre os quais eles se manifestam, concluiu o religioso. Ambientes democráticos exigem que sejamos “capazes de discutir coisas com respeito e não levá-las para o nível pessoal”.

Esta entrevista do Times of Malta, válida de ser lida por inteiro, soma-se ao histórico do arcebispo no tocante a temas LGBTs. Ele claramente se opõe à igualdade matrimonial. Antes que Malta aprovasse as uniões civis, ele se juntou a outros líderes religiosos na oposição à legislação que rege o assunto. Mas, ao mesmo tempo, pediu desculpas aos gays e lésbicas cujas vidas foram dificultadas pela Igreja.

Scicluna vem defendendo o amor que pode existir entre parceiros do mesmo gênero, dizendo em uma entrevista que “o amor jamais é um pecado. Deus é amor”. Ele se recusou a aprovar um sacerdote dominicano que havia abençoado os anéis de um casal homoafetivo, exortando-o em um encontro a continuar a trabalhar junto às pessoas LGBTs, porém fazendo-o de maneira respeitosa aos ritos católicos conforme são atualmente compreendidos.

O histórico ambíguo porém, em geral, positivo de Scicluna levou o Malta Gay Rights Movement a homenageá-lo com um prêmio concedido pela comunidade LGBTI do país em 2014, embora o então bispo auxiliar não quis aceitá-lo, pois ele não receberia prêmios ou homenagens por simplesmente estar “fazendo o seu dever de bispo”. Scicluna participou em eventos em torno do Dia Internacional contra a Homofobia naquele mesmo ano.

Os comentários mais recentes do arcebispo sobre o projeto de lei de terapia reparativa e a sua liderança episcopal ajudam o seu histórico a respeito de questões LGBTs a se tornar ainda mais positivo. Os líderes católicos de Malta submeteram um documento de posição ao governo e ao público que não difere muito de outros documentos episcopais sobre a homossexualidade.

Por isso, eles receberam intensas e fundamentadas críticas por parte de muitos representantes deste país, altamente católico. O que é central aqui é a profunda humildade que reforça o tipo de “Bispo à la Papa Francisco” que Scicluna parece estar exemplificando. Ele se dispõe a escutar e a aprender, a reconhecer os seus erros, a buscar reconciliação e a existir de modo mais confortável do que a maioria dos bispos dentro das complexidades da vida humana.

Um último arrependimento expresso por Dom Charles Scicluna na entrevista foi que ele não estruturou ainda as visitas pastorais em seu trabalho como arcebispo. Segundo ele, às sextas-feiras “o bispo precisa estar onde os sofredores estão, e eu não consegui fazer isso ainda”. Ele parece saber que há muito sofrimento nas próprias periferias da Igreja, bem como nas periferias da sociedade.

Espero que Scicluna passe mais sextas-feiras cultivando relações e construindo pontes com a comunidade LGBT e seus entes queridos de forma que equívocos pastoralmente prejudiciais como o documento de posição dos bispos a respeito da terapia reparativa não aconteçam no futuro.

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