Diálogo com Damiano Migliorini sobre o barulhento silêncio do Sínodo a respeito dos homossexuais

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17 Março 2016

O Fórum dos Cristãos LGBT (Albano Laziale, 15-17 abril de 2016) está às portas, e para apresentar um pouco melhor os hóspedes que falarão nas várias conferências programadas, decidimos entrevistar alguns.

Vamos começar com Damiano Migliorini, filósofo, especializado em Ciências Religiosas, atualmente doutorando na Universidade de Verona, autor com Beatrice Brogliato, do ensaio L'amore omosessuale. Saggi di psicoanalisi, teologia e pastorale. In dialogo per una nuova sintesi (Cittadella Editrice, Assisi:2014) [O amor homossexual. Ensaios de psicanálise, teologia e pastoral. Em diálogo para uma nova síntese, em tradução livre], que no Fórum 2016, em sua oficina, tratará dos sites do Sínodo sobre a família, “A homossexualidade, um ruidoso silêncio", a partir de um artigo seu já publicado em MicroMega.

A entrevista é de Luca B., publicada por Gionata.org, 10-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis a entrevista.

O que você faz em seus estudos, Damiano, e o que o levou a investigar a questão dos homossexuais crentes?

Neste momento estou levando adiante estudos no campo da Filosofia Analítica da Religião; o objetivo da pesquisa do doutorado é sondar a possibilidade teorética de traçar um teísmo fundado numa ontologia relacional e numa metafísica trinitária, suficientemente coerentes. Este é, ao menos, o objetivo esperado, a longo prazo. Os percursos da pesquisa, você sabe, seguem muitas vezes trajetórias imprevistas. Prova disto é o livro que publiquei com Beatrice, cujo tema pode parecer infinitamente distante das discussões teístas ou trinitárias. Embora, quem navegue há tempo na teologia, sabe que nunca haverá uma distância real entre questões éticas, antropológicas e teológicas.

O livro é o resultado do aprofundamento das questões éticas e teológicas, ligadas a homossexualidade e à experiência de fé das pessoas homossexuais, e nasce de uma amizade, aquela com Beatrice. Em nossas conversas frequentes percebemos que esta questão é crucial, hoje em dia, tanto no lado da psicanálise como do ponto de vista eclesial. Ambos estávamos em contato com os sofrimentos vivos das pessoas, principalmente por causa do contexto cultural em que vivem, e que havia condicionado os percursos de suas vidas. A partir desta consciência, nasceu em nós a ideia louca de colocar a serviço nossas competências, oferecendo às paróquias encontros de formação sobre o tema da homossexualidade. Alguns párocos nos abriram as portas, e das solicitações recebidas neste percurso, nasceu o livro, que coloca a disposição (esperamos de modo fecundo) nossas competências científicas e disciplinares.

Para ficar nas trajetórias imprevistas: ocupei também, no último ano, com a conturbada “questão de gênero", forçado, como tantos outros, pela psicose geral que o tema despertou, graças a manipulação da qual todos temos conhecimento. Fiz uma pesquisa abrangente, da qual espero - se Deus quiser – prestar logo contas num livro de síntese e de programa.

Esta nova pesquisa foi uma oportunidade para aprofundar e ampliar a anterior, cuja publicação, em vários pontos, precisava de mais argumentos. Estamos sempre em formação, e é bom ver que o pensamento está em constante mudança e enriquecimento. O Fórum, desde este ponto de vista, será fundamental para mim.

Em sua publicação, como em tantos artigos, são confrontados debates sobre a homossexualidade em relação ao Sínodo extraordinário sobre a família. O debate sobre a homossexualidade é muito complexa. Coloca em jogo toda a história da interpretação da homoafetividade desde o Antigo Testamento até os dias atuais. Qual é, em sua experiência, a questão mais problemática e que impede hoje de lidar com serenidade sobre a questão homossexual dentro da Igreja?

As questões problemáticas são múltiplas, mas convergem numa única questão: podermos compreender a experiência afetiva de algumas pessoas, como um possível amor abençoado por Deus. O que equivale a perguntar-se: o amor (sexual) homossexual tem as características necessárias para ser considerado um amor humanizante, cristiforme, trinitário-agápico?

Eu sei que para alguém a ideia de que o amor possa ser "valorizado" soa retrógrado e incompreensível; no entanto, é importante ir além do sentimento que subjetivamente constatamos, para compreender sua racionalidade e explicitá-la. Isto, afinal, é o que faz a teologia moral, quando se interroga sobre a adequação de certos comportamentos: procura uma conciliação entre o subjetivo e o objetivo. Se aceitarmos este ponto de partida, poderemos dar o primeiro passo para entender as dificuldades da Igreja na sua - na minha opinião inadiável - atualização doutrinária.

A Igreja, de fato, ao longo do tempo, codificou um conjunto de "características" que determinam a objetividade e a verdade do amor sexual e da bondade de atos sexuais consequentes, que se entrelaçam com a definição (sacramental e jurídica) do matrimônio. O mais conhecido é o famigerado “fim procriativo," mas não é o único, e é apenas o vértice doutrinal, expressão síntese, de uma vasta rede de premissas, holisticamente conectadas, que convergem exatamente nele. Existem ambiguidades e preconceitos atávicos nesta codificação, mas há também uma filigrana racionalmente estruturada e fundamental, que deve ser dissecada, compreendida e modificada com ponderação.

O amor homossexual representa um desafio crucial para esses dispositivos teológicos, pede-lhes a elaboração de uma nova antropologia metafísica, superando esta de molde aristotélico-tomista, superando uma ética derivada da doutrina da lei moral natural, e superando alguns lugares exegéticos (não falo apenas de textos de aparente condenação da homossexualidade, mas de toda teologia do masculino e do feminino derivados, mais ou menos consequencialmente do "homem e mulher os criou" e outras passagens sobre os quais foi construída a doutrina da unidade dual, agora tão em voga, e da antropologia trinitário-familiar sobre a qual grande parte da teologia está se exercitando); provavelmente também superando alguns esquemas eclesiológicos e ecumênicos envolvidos (para uma panorâmica inicial aconselho, obviamente, o nosso livro, mas também o pequeno "breviário" que fiz em alguns artigos.

Seremos capazes de produzir uma versão atualizada da doutrina capaz de manter o sistema holístico e a sua força, tornando-a, porém, mais inclusiva?

Este é o desafio que temos pela frente, e que os cristãos homossexuais devem conquistar. Só este trabalho paciente e ingente pode levar à harmonização dos aggiornamenti no campo da moral sexual com a teologia católica, como um todo. Em seguida, é claro, existem lados humanos, psicológicos, em alguns homens da Igreja, relacionados à educação, ao medo, à paranoia, ao isolamento pessoal e cultural ao qual estão sujeitos. Mas, aqui saio das minhas competências, por isso paro. No Fórum, gostaria de me confrontar com os participantes sobre questões teológicas, pastorais (que são igualmente delicadas e complexas) e espirituais (sobre as quais me sinto carecente). Demasiadas vezes fizemos um escudo com a incapacidade humana de muitos pastores, por não querermos ir às raízes teorético-teológicas mais profundas; em vez disso, temos que trabalhar em duas frentes, de forma coordenada e constante. São necessárias pessoas muito mais competentes que eu para concluir a operação... Mas cada um deve, humildemente, tentar fazer a sua parte. Eu pude constatar que algum teólogo importante formulou novas hipóteses (muito interessantes), a partir do nosso livro. Então, talvez, por quanto seja imperfeito, nós não trabalhamos em vão... Outros, e espero sejam sempre mais, terão a grande tarefa de testemunhar, com sua própria vida de casal, aquele amor possível. Trata-se de tornar conhecido aos bispos e sacerdotes, pessoalmente, aquele momento subjetivo (a experiência de se apaixonar e o amor fiel e duradouro do casal), que marca o caminho da pessoa homossexual; aproximar este momento àquele objetivo (atualmente codificado); isto poderia levar a mudanças substanciais, tanto na pastoral, como na teologia. Também os pais das pessoas homossexuais têm essa responsabilidade. Soube, recentemente, que os pais foram exatamente os protagonistas da aproximação, e estou feliz que o Fórum tenha dedicado a eles um momento particular.

Em 2016 vamos ver a conclusão do Ano Jubilar e o encerramento do Sínodo sobre a Família, esta assembleia que criou tantas esperanças, confirmações ou decepções no mundo crente, e não só.

Além do fenômeno de mídia, podemos esperar um desequilíbrio seriamente inclusivo da parte de Francisco?

Não quero desiludir de saída os participantes do Fórum, mas tenho a impressão de que não há condições para esperar este desequilíbrio. Admitido que o Papa seja pessoalmente a favor - mas nós não o sabemos, lembremos que é um papa muito fiel ao Catecismo – o Sínodo mostrou uma hierarquia dividida, uma Igreja dilacerada em questões morais, e uma ala reformadora muito fraca. O papa não está em condições de fazer rupturas (repito: admitido que tenha as convicções pessoais para fazê-las), também em vista do delicado caminho de reaproximação ecumênica com igrejas ainda mais atrasadas sobre estas temáticas. Já escrevi: ainda é, dolorosamente, muito cedo (gionata.org).

A maioria dos bispos não estão preparados - nem humana, nem teoricamente - para enfrentar este problema. A Igreja está num ponto de viragem histórico sobre sua maneira de ser Igreja; para evitar que a mudança torne-se um cisma (o clima atual não é bom, inútil esconder), o papa terá que recuar bastante; sobre o tema da homossexualidade não gostaria que se fizessem passos para trás, com relação ao próprio Sínodo. Claro, um vago apelo à misericórdia, também pode ser útil para questões relacionadas à homossexualidade. Mas duvido que ele possa fazê-lo de modo substancial. Acredito que terá mais eficácia em termos geopolíticos e espirituais (também eclesiais), do que doutrinais.

No artigo citado acima – escrito no calor da emoção e, portanto, parcial – tentei mostrar quais são as luzes e sombras surgidas no Sínodo. Agora, cabe ao papa fazer as escolhas, e, honestamente, não sei o que esperar. São muitas as variáveis em jogo, e as correntes subterrâneas das quais não temos conhecimento. Nós, simples mortais, só podemos tentar ler nas entrelinhas dos documentos, e, trabalhar na teorização. A oficina será um tempo para trabalhar sobre nós mesmos, para partilhar experiências e esperanças sobre os resultados do Sínodo, e não, um jogo de palavras genéricas sobre os bastidores, aos quais, nem mesmo, temos acesso.

O que fazer, então? Rezar, diria sabiamente o amigo Gianni Geraci. Rezar e esperar, continuar a fazer-nos ouvir, e simultaneamente empenharmo-nos num diálogo estreito com os bispos e instituições culturais católicas. Continuar a fazer, com perseverança, o que se faz nos grupos diocesanos. Colhamos esta oportunidade de uma igreja em saída! Fortaleçamos as mãos fracas, revigoremos os joelhos vacilantes, coragem!. Haverá momentos quando vamos ver a água jorrar no deserto, "realização de prodígios". A promessa da glória é para todos, resgatados do Senhor, que virão a Sião com júbilo (Isaías 35).

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