Será que George Pell, hoje o flagelo do Vaticano, esteve alguma vez enganado por todos ao seu redor?

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03 Março 2016

George Pell deve ter um bom faro para pretextos. Nos últimos tempos, ele vem fazendo uma limpa nos antigos departamentos vaticanos que nunca haviam sido auditados. Milhões estão vindo à tona. Ele também possui inimigos em todo lugar. Todos os relatos da Santa Sé sugerem que o cardeal está fazendo um bom trabalho.

A reportagem é de David Marr, publicada por The Guardian, 02-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas este mesmo homem tem uma triste história para contar: a história de ter sido enganado, décadas atrás, por um arcebispo, um bispo e seus colegas – e até mesmo pela Secretaria de Educação Católica (Catholic Education Office). Sim, a Secretaria de Educação Católica de Melbourne não foi capaz de lhe dar “nada do tipo como uma informação adequada” que pudesse ter salvado crianças da Paróquia de Devoton das práticas hediondas do Pe. Peter Searson.

“Eles perceberam, muito claramente que eu não era farinha do mesmo saco”, explicou o cardeal. E o que foi que ele apresentou para provar essa afirmação? “Eu representava uma abordagem bem diferente diante de certos assuntos, o que ficou aparente quando me tornei arcebispo”.

Sim, mas o que ele fez quando chegou a Melbourne na década de 1980 como bispo auxiliar? Nunca pediu pelos arquivos com informações sobre Searson. Jamais confrontou Dom Frank Little. Ele não criticou o status quo. “Vendo hoje, eu poderia ter sido um pouco mais severo com todas as partes envolvidas”.

Quando Pell começou a esboçar os contornos de uma conspiração por parte da Secretaria de Educação Católica para mantê-lo na ignorância a fim de proteger a inação de Little, tanto o presidente da Comissão Real australiana, Peter McClellan, quanto a advogada Gail Furness manifestaram uma franca descrença.

Pell negou inventar o seu depoimento para desviar alguma culpa com base em sua própria falta de ação. Insistiu ter feito o seu dever – por completo – ao levar o caso Searson a Little. “Eu não era obrigado a fazer algo mais do que isso”.

Ele parecia uma figura miserável diante da tela de videoconferência. Após algumas horas de interrogatório, Pell parecia como um daqueles retratos de Francis Bacon de homens musculosos sob tortura. Na imagem, a única cor que aparecia era a do seu rosto.

Todos nas camadas superiores da Igreja em Melbourne falharam diante daquelas crianças. Mas não até que alguns documentos foram trazidos hoje pela Comissão Real.

Nós já sabíamos que Searson fora relatado às autoridades eclesiásticas por portar uma arma, bater com pranchetas no rosto de crianças, mandar para casa meninas chorando depois de irem ao confessionário, mostrar a crianças de uma escola primária um cadáver em um caixão e, certo dia, por bater em um pássaro até a morte diante de crianças com uma chave de fenda.

“Não sei se o pássaro já estava morto”, observou Pell.

Isso importa, perguntaram-lhe.

“Não, realmente não”.

Hoje sabemos que Searson fazia com que meninas ajoelhassem entre as pernas dele durante a confissão. Sabemos de muito mais queixas do tipo. E sabemos que nenhuma delas provocou alguma ação por parte da Igreja.

Depois que delegações de professores e pais foram até Pell pedir-lhe para livrar-se do padre e depois que a Secretaria de Educação Católica de Melbourne enviou infrutíferas reclamações à hierarquia durante uma década, o que se fez foi enviar depoimentos com dizeres das próprias vítimas.

Pensaram que, talvez assim, iriam conseguir que alguma coisa fosse feita.

“O padre não me dá confiança quando ele me toca”, disse uma das crianças.
“Uma vez o padre me tocou, e noutra vez ele bateu no pescoço”.

Mas nada aconteceu. Pell sequer consegue se lembrar desses detalhes, se foram ou não discutidos na cúria local dos bispos.

Um ano depois, Searson seguraria uma faca junto ao peito de uma menininha, dizendo: “Se se mexer, essa faca vai atravessar você”.

Pell e seus companheiros bispos decidiram: “Nada poderia ser feito com respeito a esse incidente”. Por quê? Porque a polícia decidiu não investigá-lo. As atas da cúria deixaram claros os motivos: não por falta de provas, mas porque os pais não queriam que a sua filha fosse levada aos tribunais.

O tom de voz de McClellan mudou nesse instante. Dirigiu-se a Pell como se fosse um mestre conduzindo um pupilo à compreensão de um problema de geometria não muito difícil: “Não seria este o caso em que a Igreja tem a responsabilidade de lidar com tais acusações, independentemente de se a polícia tem condições ou não de agir?”

Pell debateu-se por uns instantes antes de concordar que sim. Mas insistiu no fato de a polícia ter se retirado do caso como sendo um “fator importante na forma como se pode seguir em frente com eficácia”.

Searson não foi impedido de trabalhar por mais quatro anos, o que aconteceu só depois que a polícia agiu quando ele agrediu um outro coroinha. A atenção da polícia parecia poderosamente persuasiva no pensamento da arquidiocese.

Little já havia se retirado a essa altura e Pell tinha assumido o seu lugar. A grande narrativa que ele quer que a Comissão – e que a Igreja – acredite é que a autoridade, quando chegou até ele, permitiu que o seu verdadeiro eu emergisse.

Depois de quase 20 anos, período em que ele pouco fez e pouco viu acontecer, anos nos quais fora impotente e ficara mantido na escuridão por todos ao seu redor, George Pell se tornou o Arcebispo de Melbourne, o flagelo dos pedófilos, o benfeitor de suas vítimas e um defensor das crianças.

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