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Pedofilia: ''Chega de silêncio''. Entrevista com Stephen J. Rossetti

Monsenhor Stephen J. Rossetti (foto), 61 anos, é um padre norte-americano de Nápoles. Ex-aluno da Força Aérea dos EUA, professor da Catholic University of America, de Washington, autor de best-sellers de espiritualidade como The joy of Priesthood (A alegria do sacerdócio), psicólogo, foi cooptado para a força-tarefa criada pelos bispos norte-americanos quando, em 2002, estourou o caso de pedofilia do clero dos EUA.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada em seu blog, Oltretevere, 11-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele conheceu muitas vítimas de abusos sexuais dos padres. E, como especialista mundial na matéria, foi chamado para abrir o simpósio internacional sobre a pedofilia organizado na semana passada pela Pontifícia Universidade Gregoriana com o apoio do Vaticano, intitulado Rumo à cura e à renovação.

Ele tomou a palavra diante de mais de 100 bispos dos cinco continentes logo depois do testemunho de uma mulher irlandesa que foi violentada quando era adolescente. Ele disse abertamente os "erros" cometidos até agora pela Igreja com relação ao ardente tema da pedofilia e deu algumas "sugestões" sobre como evitá-los no futuro.

Nesta entrevista ao TMNews, ele faz um balanço do congresso e explica como todos os episcopados, incluindo o italiano, devem perseguir com determinação, no futuro, os abusos sexuais de padres contra crianças, porque o tema agora já "faz parte das responsabilidades do bispo".

Eis a entrevista.

O senhor acha que na Itália há menos padres pedófilos do que em outros países?


Não sei. Mas há muitos estudos gerais sobre o fenômeno no mundo que sugerem que tais abusos ocorrem em um percentual bastante alto em todos os lugares. Há diferenças culturais, obviamente, mas, como expliquei aos bispos esta semana, todas as vezes que enfrentamos esse problema mais a sério, sempre ficamos surpresos ao descobrir como ele é amplo. No início, dizemos: "Aqui, o problema não existe". Depois, quando cavamos mais profundamente, descobrimos que existe e é amplo.

Dou o exemplo do papa, a quem, no livro-entrevista Luz do mundo, foi questionado por que não foi mais enérgico para enfrentar o problema quando ele era arcebispo na Alemanha, e ele respondeu: "Naquela época, eu não tinha ideia de como o problema era grande". A pedofilia é um mal que tende a se esconder e só surge quando começamos a buscar. Todas as conferências episcopais do mundo, então, deveriam buscar.

Uma coisa que o Vaticano disse claramente, mesmo neste simpósio, é que toda conferência episcopal deve elaborar as suas próprias linhas diretrizes para combater e evitar a pedofilia. Essas linhas diretrizes, depois, não devem ser postas de lado, mas sim aplicadas. O que significa desenvolver uma atitude aberta para que as vítimas possam se manifestar.

O Vaticano disse que os bispos devem colaborar com a justiça civil. A Conferência Episcopal Italiana sublinha que a lei italiana não prevê a obrigação da denobrigatóriúncia de um padre pedófilo. O que o senhor acha?

Em todos os países onde existe um sistema de justiça civil que funciona, e onde o abuso de crianças é considerado crime, ele deveria ser denunciado. O Mons. Charles J. Scicluna (promotor de justiça da Congregação vaticana para a Doutrina da Fé, espécie de "procurador-geral" da Santa Sé) destacou que não se trata só de cooperação com as autoridades civis, mas também de cooperação plena com as autoridades civis. Ele também disse isso de modo muito forte no encontro com os bispos (a portas fechadas).

De todos os modos, para mim, o preferível seria que a sociedade civil julgasse se um padre suspeito de pedofilia é culpado. As autoridades judiciárias civis deveriam levar em consideração todos os casos e julgá-los. Se dizem que o padre é culpado, é culpado; se dizem que é inocente, é inocente. É sua tarefa determinar a culpabilidade ou não de um homem e, depois, aplicar a justa punição. Quanto ao tema da denúncia obrigatória, é uma circunstância difícil. A minha recomendação pessoal, elaborada depois de ter trabalhado com muitas vítimas, é que eu gostaria de ver as autoridades mais enérgicas em perseguir todos os casos de abuso sexual.

Nos EUA, infelizmente, isso é muito difícil: as autoridades dizem "não temos provas", "o fato é muito velho", "há limitações devidas ao status", "as vítimas não querem testemunhar". Esse é um problema enorme.

Ao longo do simpósio na Gregoriana, foram expostas as "melhores práticas" sobre a questão do combate à pedofilia. Não seria uma confissão de impotência de quem não pode pressionar os bispos a fazer mais?

Os bispos foram pressionados tanto quanto podiam ser pressionados. Foi-lhes dito muito claramente que eles devem enfrenar o problema e que se espera que eles sigam essa política. É muito claro que houve uma mudança, e a mudança consiste no fato de que se reconhece como parte do trabalho do bispo o fato de enfrentar bem as acusações de pedofilia.

Se alguém tinha qualquer dúvida sobre esse ponto, agora as dúvidas estão superadas. Parte da missão do bispo hoje é ser responsável e enérgico ao enfrentar as acusações de abuso sexual de crianças. A Igreja não é hierarquia como as pessoas pensam que é. O papa é o líder, mas é realmente primus inter pares. Sim, ele pode nomear e remover bispos, mas ele mesmo é o bispo de Roma e, por isso, é um bispo, embora o mais importante entre os outros bispos. Há um certo poder difuso na Igreja, e o bispo tem a jurisdição da sua diocese.

O Vaticano, no entanto, disse publicamente que é preciso enfrentar eficazmente o problema da pedofilia. Porque, se estoura um problema, ele fere a Igreja não só lá onde estoura. Se há um problema de pedofilia na Itália ou na Inglaterra, por causa dos meios de comunicação, o problema também chega aos EUA ou à África. Nesta sociedade internacional, há pessoas desiludidas com a Igreja por causa do que aconteceu na Igreja em outro país. Devemos simplesmente enfrentar o problema.

O que o senhor pensa sobre a participação dos bispos no simpósio da Gregoriano? A Irlanda enviou o primaz Bredy; a Alemanha, o cardeal de Munique, Marx; a Itália, um bispo auxiliar; alguns países, ninguém...

Fiquei contente que tantos bispos tenham vindo. Eram bispos com um nível de experiência muito variado: alguns trataram por muitos anos o problema da pedofilia, outros, nada. Um bispo africano discursou depois de Marie Collins (a vítima irlandesa de um padre pedófilo) e admitiu que jamais tinha ouvido falar de algo assim. Estava chocado, ferido, sentia vergonha e constrangimento, mas estava agradecido pelo simpósio.

Havia uma grande diferença de experiências e de conhecimentos sobre o assunto. Na Irlanda, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, já se conhece bem o problema e como enfrentá-lo. Em muitos outros países, tudo o que sabem é o que leram a respeito. O simpósio, de todos os modos, foi um sucesso. Eu não gostaria de exagerar e dizer que agora tudo vai mudar, porque mudar as coisas leva tempo, e a Igreja, que é uma organização de dois mil anos, muda lentamente. Mas o papa enviou uma carta. Alguns dos principais representantes do Vaticano, como o cardeal Levada e o cardeal Ouellet, vieram para dizer: apoiamos este simpósio.

Se alguém pensava que podia liquidar o problema, agora ficou esclarecido que parte da responsabilidade do bispo é enfrentar o tema da pedofilia. Foi claramente indicado um caminho para o futuro e foi dito que é preciso caminhar ao longo desse caminho. Alguns irão caminhar mais rápido do que outros. Alguns, como o cardeal de Munique, demonstraram estar à frente. Outros eram mais relutantes ou não tão conscientes, mas o caminho está marcado.

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