“Supera-se o medo com a indignação”, diz Manuel Castells

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Por: André | 20 Julho 2015

No dia 17 de dezembro de 2010, Mohamed Buazizi disse um basta. Diante da enésima vez em que sua banca de frutas é confiscada pela corrupta polícia tunisiana, decidiu autoimolar-se por fogo. Seu corpo foi o primeiro a arder, mas não o último. A partir de então, o fogo da indignação ardeu na Tunísia, na primeira das primaveras árabes, e nas redes sociais e praças de todo o mundo, da Espanha à Grécia, dos Estados Unidos ao Egito. Falavam línguas diferentes, chamavam-se Indignados ou Occupy Wall Street, mas unia-os a mesma saturação: não podiam mais tolerar que o 1% vivesse às custas dos 99%, para citar o movimento estadunidense.

 
Fonte: http://bit.ly/1MaA6SL  

A reportagem é de Tommaso Koch e publicada por El País, 17-07-2015. A tradução é de André Langer.

Na realidade, são muito mais os elementos que unem os diferentes protestos espontâneos e coletivos que foram surgindo em meio mundo. É o que se descobre no livro Redes de Indignação e Esperança (Zahar Editores, 2013), uma análise comparativa das origens, pontos de contato e consequências que o sociólogo espanhol Manuel Castells (foto) dedicou em 2012 a estes movimentos. Agora, a obra é reforçada com uma segunda edição “40% nova”, nas palavras de Castells.

Mas, por que retomar o assunto? “Por um lado, deve-se à migração de movimentos deste tipo para outras áreas do mundo, como Brasil, Turquia ou Hong Kong. E, por outro lado, a partir do amadurecimento dos processos de mudança social, pode-se começar a observar efeitos no nível político e institucional”, assevera o catedrático. “Isto acaba de começar”, acrescenta.

Concretamente, cada movimento começa com uma mecha, uma gota d’água que faz transbordar o copo das injustiças. “As sociedades são geridas com base no medo, a emoção humana mais importante. Só se supera o medo com a indignação, que permite ir além do temor de que algo lhe possa acontecer”, resume Castells. A partir daí, o ato de raiva individual ou de um grupo comunica-se como um vírus. Aí está o papel da internet. Aquele levantamento pessoal desemboca finalmente em uma ação coletiva. E o resto é história, como já sabem europeus, asiáticos, africanos ou americanos.

O estudioso destaca em seu trabalho a relevância das redes sociais, mas também dos “espaços urbanos”. Porque já há várias praças cujos nomes soam como baluartes da luta para que outro mundo seja possível. Syntagma, Sol, Tahrir ou Maidán estão espalhadas pelo mundo, mas significam a mesma coisa: levantar a cabeça.

Mesmo assim, Castells esclarece que o protesto coletivo é apenas o primeiro passo, imprescindível para a mudança, mas em nenhum caso definitivo: “Os movimentos sempre morrem”. A chave é como o fazem, seu legado. Há vezes em que a herança também se apaga, e tudo volta à normalidade. Castells cita o caso da Islândia: protestos, condenação dos culpados pela crise e formação de um novo governo que recolhesse as aspirações dos indignados. No entanto, nas eleições seguintes voltou a ganhar o mesmo sistema que havia sido derrotado, e adeus a um futuro diferente.

“Os movimentos ganham se conseguem uma mudança de mentalidade na massa crítica da sociedade”, explica o estudioso. Para além de grandes ideais, pelo que tudo indica a luta política acaba se reduzindo às emoções humanas. Em seu livro Castells coloca um dualismo entre ansiedade e medo, que contribuem para a manutenção do status quo, e entusiasmo e esperança, que despertam na população a vontade de modificar o sistema.

Há, depois, a necessidade de um partido “transformador”, nas palavras de Castells, que aceite o desafio e a herança deixados pelo movimento e se oponha aos partidos tradicionais, mais preocupados consigo mesmos do que com “as pessoas”. O estudioso acredita que o caso espanhol é a melhor demonstração de que o protesto coletivo não é apenas uma catarse e uma utopia, mas tem reflexos reais. “Depois do 15-M, surgiram atores como o Podemos ou, mais importante ainda, as coalizões cívicas que tomaram o poder em cidades como Madri ou Barcelona”, defende o estudioso, que também participou dos protestos dos indignados.

“Para que votar em partidos que querem mudar?”, perguntou, no entanto, uma senhora a Castells e Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos, que acompanhou o autor na apresentação do livro em Madri. O desencanto da mulher referia-se à Grécia, cujo povo disse “Não” à austeridade e recebeu como resposta condições da União Europeia ainda mais severas. Castells acredita que na Europa “há uma ditadura econômico-política da Alemanha” e que se buscou punir o governo do Syriza com um castigo exemplar para amedrontar outros possíveis “desobedientes” do continente. Mas, tanto ele como Iglesias defenderam que a mudança não se faz com um canetaço, mas com pequenas lutas duras e diárias. “A política é horrível e abjeta”, chegou a dizer Iglesias. Talvez exagerasse. Mas, na praça Syntagma ou na praça Tahrir muitos concordariam.

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