“Podemos”, um processo inédito

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Por: Jonas | 27 Outubro 2014

Podemos emprega a primeira pessoa do plural, não a terceira. Não é Podem, é Podemos e isso envolve o desejo de incluir o número de pessoas que for possível, de contar com a contribuição de muitos cidadãos.

A reportagem é de Olga Rodríguez, publicado por Rebelión, 23-10-2014. A tradução é do Cepat.

Na Assembleia Cidadã de formação, que ocorreu neste fim de semana, em Vistalegre, foi possível ver muitos rostos, de dentro e de fora. Havia ativistas de movimentos sociais, gente do 15M, trabalhadores e desempregados, jovens, adultos e crianças. Alguns compareceram já convencidos de que a formação é a ferramenta imprescindível para transformar o país. Outros compareceram para se deixar convencer ou simplesmente por curiosidade.

Como jornalista, assisti para observar durante os dois dias o ambiente, os debates, os desafios, as discussões. Houve tensão em alguns momentos, dentro e fora do cenário. Lógico. É muita coisa em jogo.

A eurodeputada Teresa Rodríguez se expressou da seguinte forma, em uma conversa informal com a imprensa: “Se há tensão, é porque o peso da responsabilidade que temos é enorme. Se não houvesse debate, isto seria uma iniciativa morta”.

“Isto é uma escola de democracia com pedagogia crítica”, disse nos corredores o professor de Política Ariel Jerez, do grupo de Pablo Iglesias.

Houve intervenções não aplaudidas por alguns, houve assobios quando os oradores passavam do tempo, mesmo que fossem apenas alguns segundos, houve muitos aplausos e o já célebre pedido de silêncio por parte de Pablo Iglesias. Setenta e duas horas depois de finalizada a assembleia, destaco algumas características:

1. Nem a assembleia, nem todo o processo vivido por Podemos para definir suas linhas éticas, políticas e organizativas estão limitadas aos mais ativos. Ou seja, a estrutura de formação não é pensada apenas para os militantes, mas, sim, para a participação popular. É aberta e nela cabem diferentes níveis de entrega. Milhares de pessoas assistiram a assembleia em Vistalegre, mas dezenas de milhares a mais a acompanharam ao vivo pelo streaming, mais de 38.000 votaram as resoluções e muitos participaram enviando perguntas e reflexões pela internet.

Tudo isto rompe com a lógica política que havia até agora. Mais de 150.000 pessoas já se inscreveram para votar as propostas de Podemos ao longo desta semana.

2. É um processo que está se desenvolvendo com as portas abertas. Os cidadãos podem conhecer em detalhes o que cada grupo propõe e escutaram ao vivo a discussão das diferentes propostas, com momentos de tensão e com críticas. Precisamos admitir: frente ao hermetismo e o fechamento habituais do bipartidarismo, isto é uma novidade. Não são discussões que surgem sem que seus protagonistas desejem. É a vontade de uma formação que quer impulsionar um debate coletivo.

3. O processo conta com muita gente procedente de movimentos sociais. Um dos momentos mais interessantes da assembleia foi a apresentação das cinco resoluções mais votadas. Seus promotores se colocaram à frente e assim pudemos escutar professores, economistas, advogados, médicos e profissionais especialistas que defenderam a necessidade de uma saúde e educação públicas de qualidade, o direito à moradia, medidas urgentes anticorrupção e uma reestruturação da dívida.

Falaram, entre outros, a economista Bibiana Medialdea, os doutores Mônica García e Juan Antonio Palacios, especialistas em Psiquiatria, Saúde Pública e Medicina Preventiva, assim como os integrantes da PAH Irene Montero, Carlos Huerga e o advogado Rafa Mayoral.

4. O lado da tensão: há diferenças entre as diversas propostas organizativas. Pablo Iglesias recorreu a uma metáfora com o esporte para dizer que quando não se pode ganhar uma partida de basquete, pode-se “tirar os jogadores, dar um minuto para todos”; mas quando se pode vencer, “nós não podemos errar, nem falhar um triplo”.

Disse isso em clara referência à proposta “Somando Podemos”, estimulada por Pablo Echenique e apoiada, entre outros, pelas eurodeputadas Teresa Rodríguez e Lola Sánchez. Nela se defende que 20% dos cargos do Conselho Cidadão sejam decididos por sorteio, que a Assembleia seja eleita a cada dois anos e que ao invés de uma secretaria geral, haja três porta-vozes.

Iglesias e sua equipe apostam, ao contrário, em uma secretaria, uma Assembleia Cidadã eleita a cada três anos e consideram que a eleição por sorteio dificultaria a eficácia. Aqueles que lhes criticam dizem que com isso perdem democracia, e eles respondem enfatizando a importância dos prazos: restam apenas alguns meses para as eleições municipais e autónomas e um ano para as gerais. Defendem que uma situação econômica e política de emergência, com as disputas beirando e adversários com vantagem, requer uma direção com dinâmicas de emergência que garantam triunfos.

O grupo que apoia a iniciativa “Somando Podemos” apela para o “consenso”, ao passo que Pablo Iglesias abriu a assembleia com a frase “o céu não se toma por consenso, toma-se por assalto” e ressaltou que, caso sua proposta não vença, ficará de lado. Não quer ter que liderar, nem lidar com modelos organizativos que não compartilha.

Nos momentos de descanso da assembleia, nos corredores, com o café em mãos, algumas pessoas defendiam que para conquistar hegemonia internamente deveriam se empenhar em métodos distintos da dialética de confrontação que se aplica para fora. Disso se continuou falando, depois, nas redes sociais.

Salvo alguma exceção, as discussões estão sendo abordadas com grande responsabilidade política. É chamativa a preocupação que há em determinados setores de fora, interessados em manter o status quo e que nestes dias buscaram, sem êxito, maneiras de desprestigiar o que é um processo político inédito, que atrai muita gente.

No dia 26 se encerra a votação das propostas dentro de Podemos. No dia 27 se conhecerá o resultado e, em novembro, serão eleitos os candidatos. Será possível, então, abordar o mais urgente: a batalha contra os responsáveis pelo esgotamento político e financeiro e a luta para recuperar os espaços retirados dos cidadãos. Há muito em jogo.

O céu está ocupado e controlado por fundos de investimento, pelos paraísos fiscais, por corruptos, por aqueles que resgatam os bancos enquanto expulsam as pessoas de suas casas. As liberdades e os direitos não chegam sem mais, são conquistados. E, como demonstra a história, o céu não os dá de presente: é preciso tomá-los.