Alguns ecos relativos à repercussão da Laudato Si

Revista ihu on-line

Base Nacional Comum Curricular – O futuro da educação brasileira

Edição: 516

Leia mais

Renúncia suprema. O suicídio em debate

Edição: 515

Leia mais

Lutero e a Reforma – 500 anos depois. Um debate

Edição: 514

Leia mais

Mais Lidos

  • Judith Butler: corpos que resistem ao ódio e ao poder

    LER MAIS
  • Como 'comportamento de manada' permite manipulação da opinião pública por fakes

    LER MAIS
  • Coreias. Do tecnocapitalismo definitivo ao comunismo dinástico

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

15 Julho 2015

"A novidade da encíclica está na mensagem universal de Francisco: ele, como não deixou de afirmar desde os primeiros passos do seu pontificado, pretende falar também com quem professa outras fés e até aos não crentes, e faz isso escolhendo um tema muito atual, mas também sem tempo, eterno, porque realmente transcende a vida terrena do homem", escreve José Odelso Scheneider, sociólogo, padre jesuíta e professor da Unisinos.

Eis o artigo. 

Há um profundo sentido filosófico e teológico presente na definição de "ecologia integral", uma das expressões-chave da “Encíclica Ecológica Laudato Si. A Encíclica é destinada não apenas aos católicos e evangélicos, mas a todas as pessoas de boa vontade, e até às pessoas sem boa vontade, segundo o Papa Francisco, pois todos os integrantes do gênero humano estão desafiados a cuidar melhor da nossa casa comum, a nau terra! Por isso essa Encíclica envolve questões candentes, de caráter político e com tal força que nos leva a escolher uma mudança radical, que deverá renovar o homem e as coisas feitas pelo homem.

Esse documento , de fato, é, principalmente, uma dura mas objetiva tomada de consciência sobre a realidade da nossa casa comum, a Terra com a sua Criação. É muito lúcida na análise de quanto dano nós fizemos às coisas e às pessoas, definindo os nossos modelos de desenvolvimento de maneira enlouquecida, razão pela qual deixamos que a nossa política se subjugasse à economia, e à tecnologia, e as três ao poder financeiro.

A novidade da encíclica está na mensagem universal de Francisco: ele, como não deixou de afirmar desde os primeiros passos do seu pontificado, pretende falar também com quem professa outras fés e até aos não crentes, e faz isso escolhendo um tema muito atual, mas também sem tempo, eterno, porque realmente transcende a vida terrena do homem.

Já antes do Papa Francisco, o pontífice João XXIII em 1963, na Pacem in Terris, dedicou o texto "a todos os homens de boa vontade". Forte é o apelo ao diálogo entre as religiões, entre ciência e religião, entre saberes tecnológicos e tecnocráticos e sabedorias antigas, entre paradigmas e entre todos os homens. Que ninguém se sinta excluído das palavras do Santo Padre: ninguém pode ficar indiferente diante da descrição da dramática realidade em que se encontra a questão ambiental. Devemos "nos sentir unidos por uma mesma preocupação", redimir a natureza e o ambiente, tão agredido pela ganância humana e incluir o crescente número de pessoas e classes excluídas no processo de produção e distribuição de bens e serviços da sociedade.

Não são poucos os homens da ciência que previram um futuro em que a raça humana se extinguirá, se continuar consumindo mais recursos do que a natureza dispõe. Além disso, Francisco também escreve: "Se alguém observasse de fora a sociedade planetária, se admiraria com tal comportamento que às vezes parece suicida".

“A encíclica papal vai direto ao ponto ao criticar, com detalhamento e de maneira contundente, nosso atual modelo insustentável de desenvolvimento. Com um texto claro e de fácil acesso, traz ainda uma contribuição sem precedentes à mobilização de toda a humanidade, e não só dos católicos, mas também de todas as pessoas de boa vontade, nas questões ambientais e por um mundo socialmente justo e ambientalmente equilibrado”, afirma a diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota. “Como ambientalistas, valorizamos e nos sentimos honrados com o nobre engajamento do papa Francisco.”

Segundo reportagem no portal do jornal O Estado de São Paulo “O documento é um presente para a humanidade, independentemente da denominação de fé”, diz Carlos Nomoto, secretário-geral do WWF-Brasil. “No âmbito científico, já está comprovado de que a ação do homem sobre a natureza é que está provocando as mudanças climáticas atuais; as grandes empresas já perceberam que precisam adotar uma estratégia que cuide do meio ambiente; e os governos já entenderam que é mais barato cuidar da natureza do que arcar com as consequências, em todos os quesitos. A encíclica do papa Francisco vem complementar esses três aspectos, trazendo embasamentos éticos e morais.”

Recebemos de forma positiva a clareza e a franqueza da encíclica sobre a necessidade de ação política internacional diante das mudanças climáticas, que faz prevalecer interesses específicos em detrimento do bem comum. As palavras do papa devem servir para afastar os governantes de seu comportamento apático”, acredita Márcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil. “Temos a fé e a ciência do mesmo lado e os governantes devem seguir o exemplo, chegar aos acordos que precisamos e colocá-los em prática. No Brasil, isto significa acabar com o desmatamento e investir em energias renováveis, como a solar.”

Um outro depoimento de personalidade é relativo à surpresa provocada pelo documento: “Confesso que me surpreendi com o posicionamento radical de Francisco acerca do tema ambiental”, comenta o jurista, diplomata e economista Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal. “Imaginava um teor mais moderado. Embora a linguagem seja moderada, o discurso é muito radical, em sua essência. Francisco afirma que se não houver uma mudança total no sistema de organização da economia, da sociedade e da distribuição, o problema ambiental não terá solução. E ele repete uma ideia que não é nova dentro da Igreja, mas é radicalíssima: a necessidade de criação de uma alta autoridade internacional, uma espécie de governo supranacional.”

Com a Laudato Si’, o papa Francisco inaugurou um novo modelo para o desenvolvimento do ensino católico oficial, um modelo em que o centro da Igreja leva as suas periferias a sério. 

Uma “encíclica” é a forma mais desenvolvida de ensino papal, e a Laudato Si’ é a primeira vez que um papa dedicou um documento destes inteiramente às questões ambientais. O pontífice aceita inequivocamente o consenso científico de que as alterações climáticas resultam, em grande parte, da atividade do homem e lamenta a perda da biodiversidade e a escassez crescente de água potável.

Na prática, o texto traz poucas surpresas. Francisco claramente endossou o consenso científico de que o planeta está se aquecendo devido, em grande parte, à atividade humana. Ele enumerou uma série de outros desafios, tais como a perda da biodiversidade e as ameaças à água potável, e insistiu numa forte ligação entre os problemas ambientais e a pobreza.

“Nunca maltratamos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos”, escreveu ele, insistindo que a humanidade já não pode mais se dar ao luxo de “[adiar] as decisões importantes, [agindo] como se nada tivesse acontecido

Neste sentido, a Encíclica é providencial, não apenas no sentido da divina providência! Vivemos uma época de deserto do pensamento, um pensamento fragmentado em que toda a complexidade do problema, é que se perde de vista o interesse daquilo que o Papa Francisco chama de “casa comum, numa maravilhosa fórmula retomada de Gorbatchev,”.

Francisco é um papa impregnado da peculiar cultura andina que opõe ao “bem estar”, exclusivamente materialista europeu, o “BEM VIVER”, que é desenvolvimento pessoal e comunitário autêntico, herdado das tradições indígenas. Para Edgar Morin o grande filósofo e sociólogo da atualidade, “a mensagem papal apela para uma mudança, em prol de uma nova civilização, e sou bem sensível a isso. Essa mensagem é, talvez, o ato número 1 para uma nova civilização “ .

Para Eugênio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. É a figura mais relevante do século em que vivemos.

Segundo Naomi Klein, convidada para o lançamento da Encíclica, em declaração na Sala de Imprensa do Vaticano afirmou : "Para mudar tudo, precisamos de todos. Naomi é escritora e ativista de fama mundial sobre os efeitos da globalização econômica e das mudanças climáticas. Nesta oportunidade repetiu que "As pessoas e o planeta em primeiro lugar: há o imperativo de mudar de rota" Naomi Klein sentiu-se "honrada" com o convite recebido pelo Vaticano. Falou da urgência de construir alianças amplas e inéditas, que envolvam pessoas, crenças e culturas diferentes.

"O Papa Francisco – disse a ativista de origem canadense – escreveu que a Laudato si' não é dirigida apenas para o mundo católico, mas para 'cada pessoa que habita este planeta'. E eu posso dizer que, como feminista e judia secular, fiquei bastante surpresa ao ser convidada para o Vaticano."

Embora conhecesse e apreciasse os diversos discursos do papa sobre o tema, "a encíclica – observou Naomi – foi uma surpresa pela coragem e pela temeridade que contém, em um momento em que os políticos não mostram muita coragem. Há uma verdade poderosa no texto. Fiquei chocada com isso e também pela poesia, a liricidade que expressa. A encíclica fala ao coração das pessoas" .

Para concluir e como convite à leitura e reflexão integral sobre tão relevante e oportuna encíclica, vejamos cinco pílulas, frases marcante, extraídas do documento:

1. “É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença” (52). Para tal consciência, “A conversão ecológica (de cada pessoa), que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária” (219). 

2. “O problema fundamental é o modo como a humanidade assumiu a tecnologia e seu desenvolvimento juntamente com um paradigma homogêneo e unidimensional (o paradigma tecnocrático globalizado)” (106).

3. “Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de domínio sobre o mundo, que provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse atividade de fracos. Mas a interpretação correta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável” (116).

4. “O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está acontecendo periodicamente em várias regiões” ( 161).

5 “...Torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar” (175).

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Alguns ecos relativos à repercussão da Laudato Si - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV