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29 Junho 2015

Como sempre, a linguagem do papa é simples e direta, popular e compreensível a todos. Não é de se admirar, então, que haja alerta e preocupação entre as grandes multinacionais e entre os lobbies industriais e energéticos por causa das repercussões que as palavras de Francisco poderiam ter sobre a opinião pública mundial.

A opinião é do magistrado italiano Gian Carlo Caselli, ex-procurador de Turim, em artigo publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 26-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Extraordinária é a atenção com que foi acolhida a encíclica do Papa Francisco "sobre o cuidado da casa comum", intitulada Laudato si'. Entre tantos, assinala-se a intervenção do não crente Carlo Petrini, autor de um ótimo "Guia de leitura" publicado pela revista Famiglia Cristiana; e a do missionário católico Alex Zanotelli, do qual o Fatto Quotidiano publicou – no dia 19 de junho – um apaixonado artigo que, desde o título ("Uniu o grito da terra ao dos pobres"), capta a essência profunda da encíclica.

Querendo examinar alguns pontos específicos da encíclica, chama a atenção a afirmação do papa de que "o ser humano (…) tem direito a viver e ser feliz" (n. 43). Um problema de fundo que se coloca aos cristãos é que nem sempre o tema da fé consegue se encontrar e se entrelaçar com o horizonte concreto da justiça terrena.

Entre fé e justiça, os cenários às vezes são conflitantes: céu de um lado e terra de outro. Para tantos, para muitos, são realidades ainda pensadas não apenas como distintas, mas também, justamente, como separadas.

Daí uma série de interrogações. Deve-se buscar a justiça apenas no céu (e esperá-la no além)? Ou o fato de ser bem-aventurado é condicionado pelo fato de termos fome e sede de justiça nesta terra? Dividir em partes iguais, em vez de continuar aceitando respostas diferentes entre pessoas desiguais, não seria, talvez, uma premissa necessária de qualquer ulterior (e apenas posterior) bondade e solidariedade?

As respostas formuladas pelo Papa Bergoglio são claras e evidentes, no mesmo momento em que ele afirma que "considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas" (efeitos que são o objeto da encíclica, pondo sempre no centro os pobres e os excluídos) significa justamente considerar o direito do homem à felicidade.

Outro ponto (n. 47) lida com as "dinâmicas dos mass-media e do mundo digital", sintetizando os relativos problemas com a fórmula bastante sugestiva do "ruído dispersivo da informação". A encíclica, de fato, se propõe a dissipar as névoas pesadas que a desinformação e a confusão – muitas vezes interessadas – difundem sobre os temas da poluição e dos desastres ecológicos.

Nos telejornais das televisões globais, as notícias mais aberrantes aparecem (quando aparecerem) principalmente misturadas com as notícias de eventos esportivos ou mundanos, contudo, sempre intercaladas com anúncios publicitários, repletos de sorrisos forçados, que talvez exaltam viagens maravilhosas justamente nos países onde se registram as piores atrocidades ecológicas. Assim, os telespectadores se acostumam e não sentem indignação. Prevalecem o "torpor e uma alegre irresponsabilidade" (n. 59).

Ao contrário, se fosse possível ver, todas juntas e ao mesmo tempo, as atividades de aquecimento do sistema climático e de destruição dos ecossistemas que ocorrem no mundo, esse saque mundial – cenário favorável para novas guerras (n. 57) – nos faria horrorizar e reagiríamos com decisão.

Assim se reduziria a "globalização da indiferença" (n. 52), impedimento para "dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar" (n. 19).

Em várias partes, por fim, ressaltam-se as severas críticas que a encíclica dirige às finanças, à submissão a ela da política, ao sistema industrial, ao "mercado divinizado", ao consumismo, à confiança cega nas soluções técnicas, ao uso perverso da tecnologia, que pode tornar a vida melhor, mas também exacerbar as desigualdades.

Como sempre, a linguagem do papa é simples e direta, popular e compreensível a todos. Não é de se admirar, então, que haja alerta e preocupação entre as grandes multinacionais e entre os lobbies industriais e energéticos por causa das repercussões que as palavras de Francisco poderiam ter sobre a opinião pública mundial.

Razão pela qual é errado se limitar a dar de ombros, argumentando com suficiência que as palavras do papa talvez sejam bonitas, mas, na realidade, as coisas sempre foram assim e devemos dar uma razão disso.

Estão crescendo em ritmos cada vez mais vertiginosos as doenças que se advertem no solo, na água, no ar e nos seres vivos, especialmente entre os pobres mais abandonados e maltratados. Isso por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens da terra por obra de poucos que acreditam ser seus proprietários exclusivos e dominadores.

A encíclica fala disso, com argumentações concretas e cientificamente fundadas, demonstrando de maneira convincente (à prova de ceticismo) que os remédios eficazes existem e devem ser praticados sem acumular outros atrasos.

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