A alegria revolucionária nas palavras de Francisco. Artigo de Carlo Petrini

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21 Junho 2015

Na exortação a cultivar e a guardar, para além de um sentido epocal filosófico e teológico que está totalmente na definição de "ecologia integral", entreveem-se também questões candentes que podem ser definidas como políticas: com tal força que nos leva, sem possibilidade de escolha, a uma mudança radical, que deverá renovar o homem e as coisas feitas pelo homem.

A opinião é do chef italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 19-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Francisco, no fim da encíclica Laudato si', antes de propor as duas orações conclusivas, afirma ter feito uma "reflexão jubilosa e ao mesmo tempo dramática". Gostaria de dizer, porém, que é a alegria que prevalece – e afirmo isso como leitor não crente –, embora os pressupostos sejam dolorosos.

É a alegria de poder acreditar em uma mudança revolucionária e em uma nova humanidade. É a alegria que aprofunda as palavras do papa, cheias de esperança, mesmo quando descrevem os piores desastres em que nos encontramos.

Essa encíclica, de fato, é, principalmente, uma dura mas objetiva tomada de consciência sobre a realidade da nossa casa comum, a Terra com a sua Criação. É muito lúcida na análise de quanto dano nós fizemos às coisas e às pessoas, definindo os nossos modelos de desenvolvimento de maneira enlouquecida, razão pela qual deixamos que a nossa política se subjugasse à economia. e a economia, à tecnologia.

Na sua primeira parte, o texto é um perfeito resumo, altamente educativo, da situação em que o mundo se encontra: poluição e mudanças climáticas, a questão da água, a perda de biodiversidade com as consequências da deterioração da qualidade da vida humana, a degradação social, a propagação da iniquidade em um mar de indiferença e de suposta impotência. Um quadro que não deixa margens a dúvidas, nem mesmo científicas.

Ele nos fala da realidade de forma crua, mas não interpretável e, da realidade, na qual várias vezes e de forma nada casual a encíclica se ancora, ele parte para as considerações sucessivas. Saber olhar, com a mesma capacidade de se surpreender e de enternecer pela beleza da Criação própria de São Francisco – essa magnificência está toda no título, Laudato si' – também significa saber compreender um estado humano não mais adequado à casa comum e mergulhar plenamente no nosso tempo.

O apelo a "cultivar e guardar", como está escrito no Gênesis, citado em várias ocasiões, é uma referência a algo antigo e ancestral, que nos pede desde o início dos dias para viver com equilíbrio a nossa natureza mais profunda de seres humanos. Enquanto isso, torna-se um compromisso revolucionário para o futuro. Não há dúvida de que essas palavras representam um dos momentos de virada mais importantes na história da Igreja e, sobretudo, da humanidade.

A novidade está na mensagem universal de Francisco: ele, como não deixou de afirmar desde os primeiros passos do seu pontificado, pretende falar também com quem professa outras fés e aos não crentes, e faz isso escolhendo um tema muito atual, mas também sem tempo, eterno, porque realmente transcende a vida terrena do homem.

Francisco se dirige a todos, como fez João XXIII na Pacem in Terris, em 1963, que dedicou o texto "a todos os homens de boa vontade". Forte é o apelo ao diálogo entre as religiões, entre ciência e religião, entre saberes tecnológicos (e tecnocráticos) e sabedorias antigas, entre paradigmas e entre todos os homens. Que ninguém se sinta excluído das palavras do Santo Padre: ninguém pode ficar indiferente diante da descrição da dramática realidade em que se encontra. Devemos "nos sentir unidos por uma mesma preocupação".

Não são poucos os homens da ciência que previram um futuro em que a raça humana se extinguirá, se continuar consumindo mais recursos do que a natureza dispõe. Além disso, Francisco também escreve: "Se alguém observasse de fora a sociedade planetária, se admiraria com tal comportamento que às vezes parece suicida".

Esses cientistas também concordam em dizer que o fim da humanidade não representaria o fim do planeta, a biosfera sobreviveria à espécie humana, sem muito esforço, implementando os devidos ajustes ao seu complexo sistema de interações entre seres vivos, sejam vegetais ou animais.

"Nós não somos Deus, a terra nos precede e nos foi dada." Por um lado, a hipótese da extinção humana, que eu não considero totalmente improvável, nos faz intuir como até para quem vive uma dimensão espiritual diferente a vida terrena, necessariamente, deve ser atribuída a uma renovada abordagem diante da história do mundo. Por outro lado, tudo isso nos exorta, indistintamente, a interagir de forma mais responsável com o resto das espécies vivas.

É um passo que não pode mais ser prorrogado, para tornar reciprocamente profícuo a nossa existência sobre este planeta e preservá-lo em favor das gerações futuras, mas sobretudo da própria Criação: um sistema tão complexo a ponto de não ser ainda plenamente conhecido pelo homem, em que o indemonstrável – segundo os meios científicos de que dispomos – ainda tem um peso decisivo na ordem das coisas, misterioso para quem não crê, que diz respeito ao próprio íntimo e à fé para os crentes, caracterizado, porém, por uma beleza que nos liga à nossa responsabilidade.

Várias vezes, o papa fala de beleza, como critério estético e espiritual, que deve guiar a nossa ética e a nossa política. A mesma beleza que São Francisco canta.

Na exortação a cultivar e a guardar, para além de um sentido epocal filosófico e teológico que está totalmente na definição de "ecologia integral", entreveem-se também questões candentes que podem ser definidas como políticas: com tal força que nos leva, sem possibilidade de escolha, a uma mudança radical, que deverá renovar o homem e as coisas feitas pelo homem.

No texto de Francisco, não faltam referências a um sistema tecnofinanceiro que não funciona e demonstra a sua incompatibilidade com uma sociedade harmônica e justa. Não só isso, mas também a centralidade da política, entendida como capacidade de desenhar o mundo que queremos e de fazer as escolhas necessárias para realizá-lo, é reafirmada diante de um momento histórico em que a perseguição quase espasmódica do lucro impede que os governantes tomem decisões clarividentes, capazes de imaginar um futuro para além dos prazos eleitorais.

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