Encíclica verde: ''A Terra não é nossa. Quem ofende a natureza comete pecado contra Deus''

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17 Junho 2015

"Carta Encíclica Laudato si' do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum". Há o símbolo papal do pontífice argentino, o seu lema ("Miserando atque eligendo") e quase 200 páginas de texto com muitas citações e notas. Uma introdução, seis capítulos e duas orações finais.

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 16-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A revista L'Espresso online, na segunda-feira à tarde, publicou uma versão integral da encíclica, já batizada como "verde", ambientalista, de Jorge Mario Bergoglio, três dias antes da apresentação oficial no Vaticano. Um texto que, para além de algumas variações e polimentos finais, deve ser muito semelhante ao definitivo.

Depois da publicação da revista, o porta-voz da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi, divulgou uma declaração: "Foi publicado o texto italiano de um esboço da encíclica do papa 'Laudato si'. Nota-se que não se trata do texto final e que a regra do embargo continua em vigor". Portanto, não era uma negação do texto antecipado, portanto, do qual apresentamos aqui grandes trechos.

Eis os trechos.

Nossa irmã Terra

"Laudato si', mi' Signore'" [Louvado sejas, meu Senhor], cantava São Francisco de Assis. Nesse belo cântico, ele nos recordava que a nossa casa comum também é como uma irmã, com quem compartilhamos a existência. Essa irmã protesta pelo mal que lhe provocamos, por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus colocou nela. Crescemos pensando que éramos os seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la.

A destruição do ambiente humano é algo de muito sério. O Patriarca Bartolomeu se referiu particularmente à necessidade de que cada um se arrependa do próprio modo de maltratar o planeta.

Sobre esse ponto, ele se expressou repetidamente de maneira firme e estimulante, convidando-nos a reconhecer os pecados contra a criação. Porque "um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus".

Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado com aquilo que é frágil e de uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos aqueles que estudam e trabalham no campo da ecologia.

O apelo de Francisco

O desafio urgente de proteger a nossa casa comum envolve a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.

Alguns eixos que atravessam toda a encíclica. Por exemplo: a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta; a convicção de que tudo no mundo está intimamente conectado; o convite a buscar outros modos de entender a economia; a grave responsabilidade da política internacional; a cultura do descarte e a proposta de um novo estilo de vida.

Existem formas de poluição que afetam cotidianamente as pessoas. É preciso considerar também a poluição produzida pelos resíduos. A Terra, nossa casa, parece se transformar cada vez mais em um imenso depósito de imundície.

Água limpa para todos

O clima é um bem comum, de todos e para todos. A água potável e limpa representa uma questão de primeira importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial.

Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável. Lembremos, por exemplo, aqueles pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes aquíferos e as geleiras.

Há de fato uma verdadeira "dívida ecológica", especialmente entre o Norte e o Sul, conectado a desequilíbrios comerciais com consequências em âmbito ecológico. O problema é que ainda não dispomos da cultura necessária para enfrentar essa crise, e é preciso construir lideranças que indiquem caminhos. Digna de nota é a fraqueza da reação política internacional. A submissão da política à tecnologia e às finanças se demonstra no fracasso das Cúpulas Mundiais sobre o Ambiente. Enquanto isso, os poderes econômicos continuam justificando o atual sistema mundial, em que prevalecem uma especulação e uma busca pela renda financeira.

Guardar a Terra

Nós não somos Deus. A terra nos precede e nos foi dada. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto e recordar que eles nos convidam a "cultivar e guardar" o jardim do mundo. Enquanto "cultivar" significa arar ou trabalhar um terreno, "guardar" significa proteger, cuidar, preservar, conservar, vigiar.

A tecnociência, bem orientada, é capaz não só de produzir coisas realmente preciosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano, a partir dos objetos de uso doméstico até os grandes meios de transporte. No entanto, não podemos ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos nos oferecem um poder tremendo.

Ecologia cotidiana

É necessário cuidar dos espaços públicos. A falta de moradia é grave em muitas partes do mundo. A qualidade de vida nas cidades está ligada em grande parte aos transportes, que muitas vezes são causa de grandes sofrimentos para os habitantes. Nas cidades, circulam muitos automóveis utilizados por uma ou dua pessoas, razão pela qual o tráfego se torna intenso, eleva-se o nível de poluição, consomem-se enormes quantidades de energia não renovável e torna-se necessária a construção de mais estradas e estacionamentos, que danificam o tecido urbano. Muitos especialistas concordam sobre a necessidade de dar prioridade aos transportes públicos.

As previsões catastróficas já não podem mais ser vistas com desprezo e ironia.

Linhas de ação

Para os países pobres, as prioridades devem ser a erradicação da miséria e o desenvolvimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo, devem examinar o nível escandaloso de consumo de alguns setores privilegiados da sua população e combater melhor a corrupção.

Em toda discussão referente a uma iniciativa empresarial, dever-se-ia fazer uma série de perguntas, para poder discernir se levará a um verdadeiro desenvolvimento integral: para qual objetivo? Por que motivo? Onde? Quando? De que modo? A quem é dirigido? Quais são os riscos? A que custo? Quem paga as despesas e como o fará? O princípio da maximização do lucro é uma distorção conceitual da economia.

Qual é o lugar da política? Precisamos de uma política que pense com uma visão ampla e que leve adiante uma nova abordagem integral, incluindo em um diálogo interdisciplinar os diversos aspectos da crise.

Mudar de estilo de vida

Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma saudável pressão sobre aqueles que detêm o poder político, econômico e social. É o que acontece quando os movimentos de consumidores conseguem fazer com que se deixe de comprar certos produtos.

A educação para a responsabilidade ambiental pode encorajar vários comportamentos que têm uma incidência direta e importante no cuidado do ambiente, como evitar o uso de material plástico ou de papel, reduzir o consumo de água, separar os resíduos, cozinhar só aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com cuidado os outros seres vivos, utilizar o transporte público ou compartilhar um mesmo veículo entre várias pessoas, plantar árvores, desligar as luzes desnecessárias.

Não devemos pensar que esses esforços não mudarão o mundo. A crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior.

A sobriedade, vivida com liberdade e consciência, é libertadora. Não é menos vida, não é baixa intensidade, muito pelo contrário. Pode-se precisar de pouco e viver muito.