Um Jubileu de “amplo alcance”

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14 Abril 2015

Faltam ainda oito meses para o início do Ano Santo da Misericórdia. Mas a Bula de instalação Misericordiae Vultus difundida hoje à tarde já contém sinais claros e eloquentes do caminho que o Papa Francisco sugere que se percorra conjuntamente, dirigindo-se não só aos membros da Igreja, mas de certo modo a toda a família humana. Nas densas páginas do texto papal se colhe nitidamente a intuição que guiou o “Bispo de Roma, servo dos servos de Deus” a promover a mobilização empenhativa de um Ano Santo jubilar para marcar a partida dos traços escatológicos sobre o futuro da Igreja e de sua missão no mundo.

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 11-04-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

A verdadeira face de Deus

“Jesus Cristo”, escreve o Papa Bergoglio na abertura da Bula, “é a face da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nesta palavra a sua síntese”. A insistência bergogliana sobre a misericórdia não exprime suas propensões “temperamentais”. Não se trata de impor palavras de ordem de um programa papal opcional. O dinamismos próprio e incomparável da experiência cristã simplesmente não pode existir sem o dado aflorante da misericórdia. Sem misericórdia – somente isto diz a todos Bergoglio – não há cristianismo, porque toda a história da salvação outra coisa não é senão a manifestação histórica do amor de Deus por suas criaturas humanas. A própria vitoriosa onipotência de Deus não é “demonstrada” pelas doutrinações musculares de algum apologeta carrancudo, mas se revela e manifesta “com a misericórdia e o perdão”, como canta uma das coletas mais antigas da liturgia. Por isso – se detém a explicar o Papa Francisco na Bula pontifícia – é desviante e capciosa toda dialética posta a separar verdade e misericórdia, misericórdia e justiça. Diante de todas as regras de vida que procuram auto justificar-se em virtude do rigor mora, o Papa Francisco – citando os Salmos e São Paulo – repete que “não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, o qual com sua morte e ressurreição traz a salvação com a misericórdia que justifica. A justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela escravidão do pecado e de todas as suas consequências. A justiça de Deus é o seu perdão”.

A missão da Igreja

“Jesus”, escreve o Papa Francisco, “afirma que a misericórdia não é somente o agir do Pai, mas se torna o critério para entender quem são os seus filhos”. Também na Bula para o Ano jubilar, os apelos à misericórdia não permanecem em nível de princípios ideais e não exprimem uma particular sensibilidade sentimental. Com a força de um texto magisterial, eles se tornam critério para avaliar concretamente toda expressão e iniciativa eclesial. “A arquitrave que sustenta a vida da Igreja”, enfatiza o Papa argentino, “é a misericórdia. O todo de sua ação pastoral deveria ser envolvido pela ternura com a qual se dirige aos que creem; nada de seu anúncio e de seu testemunho para o mundo pode ser privo de misericórdia”. A Igreja – repete Francisco – existe somente como instrumento para comunicar aos homens o desígnio misericordioso de Deus. Se não desenvolve esta função, toda iniciativa eclesial acaba por obstaculizar e trair a missão confiada por Cristo aos apóstolos. E talvez – sugere o Papa com uma passagem apenas acenada, mas tanto mais eloquente – tenha acontecido precisamente isto, em tantas dinâmicas passadas e recentes da mobilização eclesiástica. “Talvez”, reconhece o Bispo de Roma, “por tanto tempo tenhamos esquecido de indicar e de viver a via da misericórdia”. Por isso, agora, a iniciativa do Jubileu da Misericórdia toca dinâmicas vitais e nevrálgicas para a inteira estrutura eclesial. “Chegou de novo para a Igreja o tempo de encarregar-se do anúncio alegre do perdão. É o tempo do retorno ao essencial para encarregar-se das debilidades e das dificuldades dos nossos irmãos”, escreve Francisco.

As coisas de sempre

Mas, o “tempo da misericórdia e do perdão” não é prospectado pelo Papa Francisco como a fórmula da enésima automobilização eclesial. Não se trata de inventar coisas novas, de por em campo algum achado ou inaugurar algum programa centralizado. A ser chamada em causa é a vida ordinária da Igreja, solicitada a redescobrir e a oferecer a todos os tesouros de graça que lhe foram confiados, a partir dos sacramentos. Os gestos e as práticas acenadas pelo Papa como trama do ano jubilar são aqueles mais habituais e costumeiros da vida da Igreja: as obras de misericórdia corporal e espiritual, as inciativas de reconciliação no “Tempo Forte” da Quaresma, as peregrinações, a acolhida nos santuários. E, sobretudo os sacramentos, a partir da confissão, com a intenção anunciada de enviar os “Missionários da Misericórdia”, sacerdotes com a autoridade de perdoar também os pecados reservados à Sé Apostólica, como “sinal vivo de como o Pai acolhe a quantos estão à procura do seu perdão”. Já como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio sustentava as iniciativas pastorais dos sacerdotes que andavam a fazer batismos e confissões também as estações e praças, para facilitar de todo modo possível o encontro dos homens e das mulheres com a graça doada pelos sacramentos.

Por toda parte e para todos

O critério de “facilitar” de todo modo o encontro entre as vidas dos homens e a misericórdia de Deus – o que se intui de várias passagens da Bula – configurará todas as modalidades concretas de participação do Ano jubilar. O horizonte não parece ser aquele das máquinas organizativas e dos acréscimos autocelebrativos. Os “lugares” do Jubileu da misericórdia serão os confessionários, os santuários, as paroquias, mais do que as quermesses de praça. A própria disposição de abrir uma Porta Santa em cada diocese e nos santuários exprime a intenção de tornar capilar a rede de lugares onde viver a experiência jubilar numa modalidade que interpela e envolve toda a estrutura eclesial, e tem como lugar próprio a trama da vida cotidiana mais do que os “grandes eventos”. Por sua natureza, depois, o Jubileu da Misericórdia se emancipa já na Bula de indição do risco de transformar-se em atividade reservada exclusivamente aos devotos ou as categorias dos católicos “empenhados”. Os destinatários privilegiados da iniciativa – sublinha-o por várias vezes o Papa Francisco no documento – são antes os “tantos filhos distantes” que poderiam reencontrar o caminho para a casa paterna na confissão. Incluídos os “homens e as mulheres que pertencem a um grupo criminal, qualquer que ele seja” e as pessoas “fautoras ou cúmplices de corrupção”. Além disso, no tempo dos delírios religiosos que se tornam terror, o léxico da misericórdia – assim o deseja Francisco – poderá oferecer-se como terreno comum de encontro e de fraternidade também com os não cristãos, a partir dos hebreus e dos muçulmanos, e sugerir vias de reconciliação para sanar as feridas de toda a família humana.

O rastro luminoso do Concílio

A Igreja da proximidade e da misericórdia, amiga dos homens e das mulheres deste tempo, não é uma “invenção” do Papa Francisco. É esta a “Igreja de sempre”, reflorescida de maneira convincente e consoladora na primavera do último Concílio. Na Bula de indição do Ano da Misericórdia se respira também o bom ar do Concílio Vaticano II, subtraído finalmente a todas as caricaturas a bom mercado postas em circulação pelos cliques anti-conciliares organizados. É eloquente o espaço reservado na Bula as citações da alocução “Gaudet Mater Ecclesia” com a qual João XXIII deu início àquela assembleia conciliar (“Agora a Esposa de Cristo prefere usar a medicina da misericórdia em vez de embraçar as armas do rigor”) e ao discurso pronunciado por Paulo VI, ao encerramento do Concílio (“Em vez de deprimentes diagnoses, encorajadores remédios, ao invés de funestos presságios, mensagens de confiança partiram do Concílio para o mundo contemporâneo: os seus valores foram não só respeitados, mas honrados, os seus esforços sustentados, as suas aspirações purificadas e abençoadas”).

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