Como o Papa Francisco poderia ajudar Obama no acordo com o Irã

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09 Abril 2015

"O Vaticano mantém abertas linhas de comunicação – e este interesse é recíproco vindo da capital iraniana, Teerã. As relações diplomáticas entre o Irã e a Santa Sé datam de 1954, trinta anos mais antes que houvesse relações entre os EUA e o Vaticano", escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 07-04-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Os papas geralmente usam a mensagem Urbi et Orbi de Páscoa para orar pela paz em meio a conflitos internacionais. Francisco seguiu esta tradição neste último domingo, comentando, entre outras coisas, sobre uma tentativa de acordo nuclear entre o grupo de países P5+1, que inclui os Estados Unidos, e o Irã.

O pontífice falou: “Com esperança, confiamos ao Senhor, que é tão misericordioso, o compromisso assumido nos últimos dias em Lausanne [Suíça], de modo que seja um passo definitivo rumo a um mundo mais seguro e fraterno”.

Tal dizer pode não significar um apoio direto, mas certamente é mais favorável que o comentário feito pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ou pelos republicanos no Congresso americano sobre a proposta de acordo alcançada em 2 de abril na Suíça, sem mencionar os linhas duras iranianos que veem-na como uma ameaça aos interesses nacionais. (Na segunda-feira, Israel recuou em sua insistência para que o Irã suspendesse todo e qualquer enriquecimento de urânio, movimento visto como um reconhecimento de que o pacto exigia concessões de todos os lados.)

O presidente Barack Obama poderia ter problemas em angariar apoio para o acordo, em parte porque os republicanos podem querer tirar proveito do acordo em 2016. Ao mesmo tempo, o supremo líder iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, ainda não acolheu explicitamente o acordo, e um movimento político chamado “We Are Anxious”, fundado ano passado em oposição às concessões nucleares, está fazendo campanha contra o acordo.

A agência Associated Press informou que 200 manifestantes se postaram em frente ao prédio do parlamento iraniano na terça-feira durante as audiências para o acordo, segurando faixas que o classificavam como uma “derrota”.

Em outras palavras, os moderados em ambos os lados podem ter trabalho para trazerem os falcões juntos de si neste acordo, e nesse esforço o Vaticano poderá ser um recurso surpreendentemente poderoso.

Antes de tudo, o Papa Francisco tem, no momento, muito capital político por causa dos seus índices de aprovação altíssimos e da percepção geral de ser uma autoridade moral. Ele também possui uma capacidade comprovada de traduzir este capital em resultados, como ilustra o seu papel no reestabelecimento das relações entre os EUA e Cuba.

Se Francisco for contribuir com o seu selo de aprovação para com o acordo nuclear, mesmo fazendo-o na forma oblíqua e inconfundível que os papas às vezes empregam em questões políticas, sua contribuição poderá mudar as percepções em termos de opinião pública.

A longo prazo, o Vaticano pode ser a instituição mundial com o melhor know-how para se reconstruir a confiança entre o Irã e o Ocidente.

O Irã constitui uma sociedade universalmente religiosa cuja maior autoridade é um clérigo, e para conseguir chegar ao núcleo das coisas, é preciso poder engajá-los não só em termos de realpolitik, mas também em conceitos espirituais. Nenhum estadista ocidental pode fazer isso com credibilidade, mas o Vaticano pode.

Além disso, há uma afinidade natural entre o catolicismo e o islamismo xiita, que é a parcela minoritária do mundo muçulmano, mas a maioria na formação cultural do Irã.

O escritor iraniano Vali Nasr, autor de um livro publicado em 2006 intitulado “The Shia Revival” [sem tradução para o português], sustenta que a divisão entre os sunitas e xiitas é comparável com aquela entre protestantes e católicos, com os xiitas sendo o grupo mais próximo do catolicismo.

Entre as características do islamismo xiita que fazem paralelo com o catolicismo estão:

• A forte ênfase na autoridade clerical
• Uma abordagem ao Alcorão acentuando tanto a Escritura quanto a tradição
• Uma profunda veia mística
• A devoção a uma sagrada família (no caso dos xiitas, os parentes de sangue de Maomé) e aos santos (os Doze Imãs)
• A teologia de sacrifício e expiação através Hussein, que se casou com a filha de Maomé e conduziu as primeiras comunidades xiitas, sendo venerado por sua morte na batalha de Karbala
• A crença no livre-arbítrio (em oposição à doutrina sunita da predestinação)
• Dias santos, peregrinações e santuários de cura
• A oração de intercessão
• Formas fortemente emocionais de devoção popular.

Como diz Nasr, qualquer um que já assistiu a uma procissão da Sexta-Feira Santa no México, digamos, ou nas Filipinas, incluindo pessoas que se flagelam e mesmo pregam-se a cruzes para lembrar a crucificação de Cristo, ficará impressionado com as semelhanças sinistras com o festival xiita do Ashoura, que comemora o martírio de Hussein.

Um outro escritor iraniano, Reza Aslan, diz que a interpretação racional da lei islâmica feita pelos clérigos xiitas cria uma flexibilidade que, às vezes, falta ao islamismo sunita, o qual frequentemente se vê acorrentado a uma leitura literal do Alcorão. Aslan acredita que as sociedades influenciadas pelo islamismo xiita podem ser mais propícias para a experimentação da democracia, dos direitos humanos e do pluralismo, desde que ancorada numa racionalidade religiosa – da mesma forma que a teoria social católica.

O reverendo beneditino Mark Serna, versado no diálogo entre católicos e muçulmanos, escreveu que “diferentemente dos muçulmanos na tradição sunita, os muçulmanos xiitas são parceiros bastante naturais para o diálogo com os católicos romanos”.

Isto não quer dizer que o Vaticano não vem sendo crítico em sua aproximação com o Irã. Acima de tudo, o Papa Francisco tem se tornado, cada vez mais, uma voz crítica da violência contra os cristãos, e a relação ambígua do Irã com grupos radicais que, muitas vezes, visam os cristãos e outras minorias é uma fonte constante de preocupação.

Ainda sim, o Vaticano mantém abertas linhas de comunicação – e este interesse é recíproco vindo da capital iraniana, Teerã. As relações diplomáticas entre o Irã e a Santa Sé datam de 1954, trinta anos mais antes que houvesse relações entre os EUA e o Vaticano. A embaixada iraniana na Santa Sé é bem conhecida em Roma pelo seu grande quadro de pessoal e espírito ativista.

Quando representantes vaticanos e iranianos sentam juntos, falam uma língua comum configurada por conceitos espirituais e teológicos compartilhados.

Num pequeno porém revelador sinal, o arcebispo italiano Vincenzo Paglia, que preside o Pontifício Conselho para a Família, recentemente se encontrou com uma delegação de mulheres iranianas do alto escalão, incluindo Shahindokht Molaverdi, vice-presidente da República Islâmica do Irã para as questões de mulher e família. Quando o grupo lançou a ideia de participarem do vindouro Encontro Mundial de Famílias, a ocorrer na Filadélfia em setembro deste ano – evento em que o Papa Francisco estará presente –, Paglia imediatamente a aceitou.

Consequentemente, quando Francisco visitar os Estados Unidos, ele deve trazer uma delegação iraniana na esteira. Poucos líderes mundiais fariam um tal gesto em sua primeira viagem a este país sem provocar problemas diplomáticos.

(Ao sítio Crux em fevereiro, Molaverdi disse acreditar que Francisco poderia desempenhar um papel no sentido de abrir portas. “Com certeza, este papa tem uma capacidade de aproximar as pessoas, o que pode também influenciar os governos”, disse ela.)

Resta saber se as oportunidades para este diálogo podem ser mobilizadas em tempo suficiente para fazer a diferença num acordo nuclear, que deverá ser finalizado em 30 de junho.

Com o tempo, no entanto, se o Irã e o Ocidente quiserem achar um denominador comum, o Papa Francisco e a equipe do Vaticano poderão ser um ingrediente-chave no sentido de fazer isto acontecer.

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