A solidão de Dilma

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18 Março 2015

Em uma charge publicada nesta segunda-feira na Folha de São Paulo, o cartunista Jean Galvão apresenta a presidenta Dilma Rousseff em um canto escuro do palácio, esmagadoramente sozinha, olhando para uma ampla janela onde se veem as multidões que no domingo protestaram nas ruas contra ela. A presidenta, vestida de vermelho, com expressão de enfado, se limita, impotente, a contar, apontando com o dedo: “Um, dois, três, quatro...” A ilustração reflete razoavelmente bem a atual situação política da presidenta: isolada, só, protegida em sua residência de Brasília e a cada dia com menos apoios com os quais contar.

A reportagem é de Antonio Jiménez Barca, publicada por El País, 16-03-2015.

As centenas de milhares de pessoas que saíram no domingo para protestar em São Paulo e outras cidades brasileiras (alguns estimam um milhão, outros elevam a cifra para dois milhões) entoaram, sobretudo, um slogan claro e categórico: “Fora Dilma”. Indo além dos números, a resposta da população, em sua imensa maioria pertencente à classe média e urbana, foi maciça, contundente e inesperada. Daí que a presidenta brasileira atravesse hoje seu pior momento, com uma popularidade que já ia a pique (segundo uma recente pesquisa feita antes do protesto, só 23% consideravam que a gestão de Dilma é boa). Tudo isso, em um tempo recorde de dois meses e meio depois de ter tomado posse de seu segundo mandato.

Os analistas e especialistas observam agora a cada vez mais escassa margem de manobra da presidenta e sua cada vez mais exígua lista de aliados, com exceção do círculo mais próximo de colaboradores e ministros fiéis.

No Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual ela pertence, ouvem-se vozes críticas diariamente. O senador Walter Pinheiro, personagem histórico do partido, condenou o Governo por não saber reconhecer os erros e escutar a sociedade.

Não é só ele. Uma parte do partido de Dilma e de Lula critica, de modo geral e já há algum tempo, o fato de a presidenta ter assumido desde o princípio as teorias econômicas do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, favoráveis a um ajuste fiscal, à elevação de impostos e à contenção de gastos. Nesta segunda-feira mesmo, Levy insistiu em que não há como recuar: “Se ficarmos com medo, teremos problemas, porque nos paralisamos”.

O PMDB, seu aliado e de ideologia pouco clara, tampouco é um aliado confiável. É verdade que vários de seus membros estão no Governo, incluindo o vice-presidente do país, Michel Temer. Mas a lista divulgada há duas semanas dos implicados na corrupção da Petrobras, na qual constam os nomes dos presidentes da Câmara e do Senado, ambos desse partido, envenenou essa relação e semeou minas que podem explodir a qualquer momento.

O próprio Lula, mentor de Dilma, referência do PT (e da esquerda brasileira), a pessoa que a elegeu para o cargo e que na última e decisiva parte da campanha eleitoral pôs seu carisma e seu cacife eleitoral ao lado da candidatura de Dilma, permanece neste momento ou, por ora, calado e ausente. Desvendar como estão se dando Dilma e Lula é um capítulo interminável da política brasileira contemporânea, já que as relações entre o fundador do PT e a presidenta podem se complicar o tempo todo: personalidades distintas, dois egos poderosos frente a frente, interesses às vezes opostos, falta de confiança em algumas ocasiões, de ambas as partes...

Até agora o PT ganhava nas ruas. Não mais. O multitudinário protesto do domingo, o mais numeroso na recente democracia brasileira, segundo alguns, com 1 milhão, no mínimo, de manifestantes por todo o Brasil, faz empalidecer a marcha de apoio a Dilma realizada na sexta-feira, com 40.000 participantes (e com o adendo de insultos ao ministro da Fazenda)

Ela falou nesta segunda, no ‘day after’ aos protestos, mas não parecia falar para todos, como queria fazer supor. Procurou mudar parte dessa fama em entrevista coletiva nesta segunda, quando falou que poderia ter cometido um erro de dosagem na política econômica empregada até o ano passado. “É possível até que a gente possa ter cometido algum”, disse ela, para explicar em seguida que o foco era a melhoria econômica de emprego e de renda. A resposta não parece suficiente para um país em polvorosa, mas para Dilma foi um avanço depois de uma reunião ministerial, em que ouviu dos interlocutores que precisava passar uma mensagem de humildade depois dos protestos. Seus ministros mais próximos, incluindo José Eduardo Cardozo, da Justiça, Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Jacques Wagner, da Defesa, talvez sejam seus únicos companheiros fieis neste momento. Mas, com tantas pontes que ela já desfez até aqui fica a dúvida se a Dilma Rousseff de verdade não se parece cada vez mais com a Dilma Rousseff da charge.

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