A crise múltipla do PT-PMDB. Esquemática análise de conjuntura

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17 Março 2015

"O movimento de junho foi refluindo entre uma brutal repressão e um ativismo cada vez mais extenuado. Em termos repressivos, esse processo se afirmou como um trator durante a Copa e só não foi arrasador porque a pressão da rua reapareceu onde ninguém a esperava: na alma dos jogadores da seleção, que foram vergonhosamente goleados pela Alemanha", escreve Giuseppe Cocco, cientista político, doutor em História Social e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Segundo ele, "no dia 15, independentemente de partidos e organizações tradicionais e novas da direita democrática e da direita reacionária, manifestaram amplos setores sociais que estão pagando parte da conta de uma crise múltipla² que é do PT-PMDB, do peemedebismo. O PT conseguiu fazer como na Argentina e na Venezuela, entregar à direita a hegemonia sobre a justa indignação".

"Houve sim - conclui -uma verdadeira e massiva mobilização social, mas com um viés conservador. Para as forças de transformação democrática (ou seja, para a esquerda como resultado dessa prática e não como condição metafísica), o desafio é hoje como conseguir ficar dentro dessa justa indignação (claro, não das manifestações da direita!)".

Eis o artigo.

Vários comentários nas redes sociais sobre as manifestações tentaram sintetizar suas dimensões paradoxais e quase irônicas: “na sexta dia 13, manifestaram em apoio ao governo Dilma setores e movimentos sociais que criticam sua política econômica; no domingo 15, manifestaram contra o governo setores sociais (e organizações) que aprovam sua política econômica”. Muita gente gostou desse tipo de definições, compartilhou, eventualmente comentando a situação “surreal”, ou dizendo que “só mesmo no Brasil” podemos assistir a esse nível de confusão e incoerência.

Oras, inicialmente, é preciso pensar que é o próprio das crises e da intensidade e generalidade daquela que está por se alastrar pelo País de criar essa confusão superficial. Mas, na realidade, não há confusão nenhuma, a não ser aquela que o “governismo”, um estranho fenômeno que se avolumou no segundo turno das eleições de 2014, pretende produzir para ... se reproduzir. Ao contrário de seus efeitos retóricos, a situação política atual é bastante nítida e permite, aliás, avaliar muitas das análises e afirmações que foram feitas em junho de 2013 e nos meses seguintes.

Para começar, é preciso dizer que a conjuntura atual tem uma primeira explicação no resultado eleitoral de outubro de 2014: contrariamente ao que a demagogia governista disse e o voto acrítico quis (e quer) acreditar, quem foi derrotado nas eleições não foram nem o Aécio Neves e ainda menos a “direita” brasileira, mas o movimento de junho de 2013. Em seguida, é preciso enfatizar que quem está querendo um “terceiro turno” não é a direita, mas o “governismo”. A direita já estava no governo e o movimento de junho tinha essa ambiguidade positiva de ser contra o governo também pela presença da direita. Hoje (meados de março de 2015), há apenas dois meses e meio da posse de Dilma2, temos uma situação absurda: o governo é ainda mais de direita, mas o regime marqueteiro das eleições e do terceiro turno que o PT procura para continuar polarizando diante dos escândalos da corrupção e da crise vertical da aventura neodesenvolvimentista faz com que a direita hegemonize a (justa) indignação nas ruas também.

As eleições de outubro de 2014 completaram um longo trabalho de desqualificação, repressão e desconstrução que começou já em junho de 2013, quando a multidão se fez de maneira autônoma e irrepresentável. Entre o primeiro e o segundo turno, tive a oportunidade de afirmar exatamente aqui, nas páginas da IHU On-Line, que as eleições eram uma tremenda restauração, um thermidor.

A comparação com a Espanha é emblemática: no 15 de maio de 2011, centenas de milhares de indignados tomaram as ruas das cidades da península ibérica para protestar contra a austeridade de maneira autônoma diante de todo o sistema de representação, em particular da esquerda que governava (o PSOE). Quando vieram as eleições, o 15M não se deixou chantagear e não teve medo de derrotar o PSOE, mesmo que isso significasse a volta da direita, do PP. As redes do 15M sabiam que a vitória do PP seria (apenas) eleitoral e que as lutas continuariam (e continuaram).

O “governismo” brasileiro não tinha nenhum interesse na potência de renovação democrática do 15M, mas apenas na ameaça que ele representava (e o escândalo da Petrobras nos dá uma imagem do que está ameaçado) pelo fato de fugir da chantagem básica que a esquerda constrói quando está no poder: “se tu me criticas, estás com a direita, és uma quinta coluna do inimigo, um espião do imperialismo”.

Desde que, em junho de 2013, o monstro mostrou sua terrível potência e abriu a brecha democrática, o PT e o governismo o identificaram como o inimigo a ser derrotado: derrotar junho virou o grande objetivo do “lulismo” exatamente porque junho significava a destruição da máquina binária, da dialética que compõe a gramática grosseira do governismo. Armou-se assim um verdadeiro festival de ataques e intrigas de todos os tipos, o governismo em parceria com o “odiado PIG”, cobrando por repressão dos “mascarados”, de “coxinhas” e do “ódio pelo PT”. Os intelectuais governistas se juntavam aos colunistas do Millenium para condenar o “niilismo” universitário que ousava entender o evento. Uma filósofa criminalizou os jovens manifestantes em palestras para essas instituições “democráticas’ que são as PMS quando não dava lições desembestadas sobre o “fascismo da classe média”.

Sem espaços institucionais onde poder dar vazão aos seus conatus constituintes (com as ocupações de Câmaras e Assembleias), o movimento de junho foi refluindo entre uma brutal repressão e um ativismo cada vez mais extenuado. Em termos repressivos, esse processo se afirmou como um trator durante a Copa e só não foi arrasador porque a pressão da rua reapareceu onde ninguém a esperava: na alma dos jogadores da seleção, que foram vergonhosamente goleados pela Alemanha.

Mas o auge foram mesmo as eleições de outubro. Foi uma apoteose de cinismo e mentiras deslavadas: a comida desaparecia do prato dos pobres se Dilma perdesse a eleição ao passo que blogueiros governistas dissertavam doutamente sobre o sexo dos anjos, ou seja a “autonomia e/ou independência do Banco Central”. E assim voltou o mecanismo que junho tinha varrido: era mais importante “ser de esquerda” do que “descobrir” o que é hoje uma prática de esquerda. Pois que “somos esquerda”, votaremos pelas cores da esquerda para barrar a “direita”. Um monte de gente achou que estava mesmo barrando a “direita” e na realidade estava apenas ajudando a cravar os últimos pregos no caixão da brecha democrática de junho de 2013.

Só que isso tem um preço! E caro! Não foi a direita a ser derrotada, mas a possibilidade de construir uma alternativa não-de-direita à falência anunciada do petismo governista (vou me concentrar aqui no PT, assumindo as análises do peemedebismo propostas por Bruno Cava e Marcelo Castañeda como referência mais geral). E a conta chegou antes do previsto!

Ainda não sabemos as conclusões do douto debate sobre o sexo do Banco Central e já perdemos a conta do número de vezes que os juros foram aumentados e a taxa relativa de juros voltou a ser uma das maiores do mundo.

Pior, muito pior, a macroeconomia passa por uma manobra violentíssima que associa ajuste fiscal (corte e contingenciamento das despesas públicas, aumento da pressão fiscal, superávit primário) e aumento generalizado das tarifas administradas de serviços de péssima qualidade. A “virada à esquerda” que o voto acrítico tinha vislumbrado não se sabe em quais sinais esotéricos sequer chegou a ser cogitada e isso porque a experimentação neodesenvolvimentista ensaiada desde o segundo governo Lula foi literalmente para o espaço.

Tendo empurrado todo o eixo da representação para a direita (nesse sentido, Luiz Eduardo Soares fez uma bela e adequada análise na tarde do 15 de março) para poder fazer funcionar o binarismo falso, o governo Dilma2 teve que negociar a governabilidade por meio de uma fuga em avante do oportunismo, convidando o Gilberto Kassab, a Kátia Abreu, o Cid Gomes para complementar o peemedebismo. Mas foi uma vitória de Pirro: o governismo está entregue a si mesmo, ou seja, ao nada.

Teve intelectuais que para falar de junho de 2013 enchiam a boca do termo de niilismo. Agora estão ou calados ou assinando incríveis (no sentido literal: não dá para acreditar) manifestos em defesa da maior empresa do País, a Petrobras, que internacionalmente é considerada insolvente. O que junho de 2013 havia anunciado de maneira expansiva, como uma brecha democrática, hoje aparece como uma tremenda convergência de crises e total esgotamento da aventura neodesenvolvimentista. Não sobra nada, apenas o fisiologismo institucionalizado.

Mas, não há mais brecha democrática para fazer do esgotamento do PT-governismo a alavanca para um novo ciclo, aquele que está tentando o Podemos na Espanha (pesem todas as ambiguidades). Sobra mesmo a direita. Mas não a direita da representação que estava, juntamente com o PT, se prostrando servilmente diante de Eduardo Cunha na CPI da Petrobras. O que sobra é a direita social: é ela que vimos no dia 15 de março nas ruas e avenidas das cidades de todo o País. Trata-se de setores sociais que estão pagando parte da conta da falência do modelo neodesenvolvimentista (sem contar seu dirigismo autoritário de criar grupos de amigos que controlam o dinheiro público).

Ao passo que os pobres não têm o direito de protestar, pois que a PM do PT os mata em Salvador e os Tanques do Exército - também do PT – ocupam a Maré (vide o relato terrível de Priscila Prisco[2]), há uma camada de trabalhadores e empreendedores que estão indignados (partes deles estavam nas ruas no dia 20 de junho de 2013) e agora foram (e irão) nas ruas de maneira conservadora, como aconteceu na Itália do início dos 1990, depois do vazio deixado pela repressão do movimento autônomo, quando a Lega Nord se tornou o maior partido das regiões mais desenvolvidas e abriu o caminho ao “justicialismo” (a operação de repressão da corrupção chamada de “mãos limpas” e da qual se inspira a Lava Jato no caso da Petrobras).

Então, a única incoerência nas manifestações do 13 e do 15 de março é tão somente naquela que aparece nos regimes discursivos. No dia 13, manifestaram apenas “aparelhos” do PT e ligados ao PT que têm tudo a perder (como aparelhos) com a eventual queda do governo (e não conseguiram nenhuma real mobilização social independente): foi muito pouca gente, uma boa parte vergonhosamente “paga”. As manifestações pelegas do 13 de março servem para uma discussão menos douta mas mais material sobre o “sexo” do Banco Central: como sempre, o que interessa não é seu estatuto formal, mas seu funcionamento real e esse depende do nível material de democracia, quer dizer, da autonomia dos movimentos.

Aí, no dia 13 de março, tivemos a triste imagem do movimento que a “esquerda” gosta: uniformizado, organizado, cheio de bandeiras, ônibus, carros de som e líderes falando do alto dos púlpitos. Diziam que “junho” não tinha objetivos claros e definidos e era manipulado; no dia 13 protestaram contra o governo que ao mesmo tempo “defendem”, reivindicaram “reformas populares” que ninguém sabe o que são para enfim dizer que lutam pela Petrobras que foi afundada pelo governo que defendem. Ou seja, no dia 13 de março foi um festival de manipulação do mais baixo nível. Muitos deles foram filmados recebendo pagamento para participar. No dia 13 a esquerda no poder nos mostrou do que gosta: do rebanho manipulado pelo pastor, com as ovelhas defendendo Lobo ne Petrobras!

Mas o pior não é isso: quanto mais o PT angariar esses apoios supostamente destinados a “barrar” a direita, mais o eixo político representativo deriva para a direita, como a eleição de Cunha e Calheiros no Congresso e no Senado nos confirmou logo depois das eleições. Inclusive, o PT insufla o imaginário irresponsável de um terceiro turno. Junho tinha conseguido a proeza de romper o binarismo sem, contudo, entrar na crítica sistemática do PT. Hoje o PT conseguiu a proeza de fazer da sua derrota a condição indispensável para que a esquerda se reinvente.

No dia 15, independentemente de partidos e organizações tradicionais e novas da direita democrática e da direita reacionária, manifestaram amplos setores sociais que estão pagando parte da conta de uma crise múltipla que é do PT-PMDB, do peemedebismo. O PT conseguiu fazer como na Argentina e na Venezuela, entregar à direita a hegemonia sobre a justa indignação. Houve sim uma verdadeira e massiva mobilização social, mas com um viés conservador. Para as forças de transformação democrática (ou seja, para a esquerda como resultado dessa prática e não como condição metafísica), o desafio é hoje como conseguir ficar dentro dessa justa indignação (claro, não das manifestações da direita!). Não é simples!

Referências:

1) Artigo do Bernardo Gutiérrez com análise detalhada dos eventos. Acesse aqui
2) Círculo de Cidadania do Rio de Janeiro. Acesse aqui

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