"Dilma e Aécio são o ‘Estado contra a sociedade’. Duas faces de um mesmo esgotamento”. Entrevista especial com Giuseppe Cocco

Revista ihu on-line

Giorgio Agamben e a impossibilidade de salvação da modernidade e da política moderna

Edição: 505

Leia mais

Pier Paolo Pasolini Um trágico moderno e sua nostalgia do sagrado

Edição: 504

Leia mais

A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo do trabalho

Edição: 503

Leia mais

Mais Lidos

  • Rosa Chávez, o auxiliar que o Papa fez cardeal. Uma homenagem à figura de D. Oscar Romero

    LER MAIS
  • Papa Francisco e as "dúvidas". Cardeal Maradiaga: "Pobre Burke"

    LER MAIS
  • Papa surpreende em El Salvador e escolhe bispo auxiliar ao invés de Arcebispo

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

23 Outubro 2014

“A manipulação do governismo deslocou para direita todo o eixo político representativo. Assim, por um lado, o ‘governismo’ impediu um debate pela esquerda”, critica o sociólogo.

Foto: www.opiniaojuridica.adv.br

O segundo turno das eleições presidenciais representa uma “situação bastante paradoxal”, pois o PT e seu governismo “deram uma sobrevida ao candidato da direita (que por um bom momento aparecia como tendo sido eliminado do segundo turno)”, avalia Giuseppe Cocco ao comentar que o “PT preferiu arriscar a vitória da direita para não ter que enfrentar Marina Silva no segundo turno”. Para ele, “o medo governista de ter que enfrentar Marina Silva em paridade de condições traduz (ou é a tradução, pouco importa em qual direção o pensamos) as dificuldades do PT de realizar um debate pela ‘esquerda’ e a necessidade imperiosa que ele tem de produzir a qualquer custo o binarismo que lhe proporciona o candidato tucano”.

No que se refere às manifestações de junho de 2013, Cocco frisa que o “escândalo do segundo turno” é o esquecimento de junho de 2013 nos debates políticos. Para ele, a falta de discussão das demandas expressas nas manifestações do ano passado e a “destruição da candidatura de Marina Silva”, indicam que “ser de ‘esquerda’ reduziu-se assim ao contrário do que deveria ser: não mais ter o ponto de vista concreto dos oprimidos que lutam, mas possuir uma verdade transcendente e abstrata para dizer e decidir ‘quem e como’ teria direito de lutar”. E alfineta: “Oras, é nessa eleição que rola todo tipo de manipulação e hipnose na qual cai um sem número de eleitores ‘cheios de consciência’ que passaram do não-voto ou do voto de protesto a votar Dilma, sem que ela tenha feito o menor passinho para a esquerda”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Cocco também comenta as abstenções no primeiro turno e o significado do “não-voto” no segundo turno. “Não me parece que nulos e brancos tenham sido relevantes do ponto de vista quantitativo (nem que tenham variado muito). (...) Hoje, o significado do não-voto é uma declaração de autonomia diante de um sistema representativo que não deixa nenhuma livre escolha. Eu pessoalmente pensei que o melhor 2º turno teria sido entre Dilma e Marina e, por isso, defendi o voto em Marina”, pontua. Para ele, a reeleição de Dilma ou a eleição de Aécio são “assustadoras pelas mesmas razões”. E explica: “A verdadeira armadilha é de aparecer tão diferentes quando não o são. A disputa soa ainda mais falsa porque estamos diante de uma tremenda demanda da sociedade de avançar em direção a mais justiça. Parafraseando Pierre Clastres, Dilma e Aécio são o ‘Estado contra a sociedade’, duas faces de um mesmo esgotamento”.

Giuseppe Cocco é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova. É mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). É doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. Coordena a coleção A Política no Império (Civilização Brasileira).

Foto: amalgama.blog.br

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como interpreta o resultado do primeiro turno das eleições?

Giuseppe Cocco - Em linha geral, me parece uma grande tentativa bi-partisan (consensual entre os grandes partidos) de dizer que junho de 2013 não existiu e se existiu não determinou nada. O curioso é que o PT-governista (há no PT militantes minoritários que ainda têm vida) dizia que o movimento de junho era a negação da política. Oras, estão fazendo tudo para reeleger Dilma e Dilma sim que é a antipolítica, talvez o maior erro político e histórico de Lula. O marketing eleitoral do PT e da Presidente Dilma Rousseff teve um sucesso maior que o previsto pelos institutos de pesquisa eleitoral na “destruição” da candidatura de Marina Silva e colocou no segundo turno o conservador Aécio Neves.

É uma situação bastante paradoxal, pois a “esquerda” (o PT, o “governismo”) deu uma sobrevida ao candidato da direita (que por um bom momento aparecia como tendo sido eliminado do segundo turno). Então, a primeira “interpretação” é exatamente essa: o PT preferiu arriscar a vitória da direita para não ter que enfrentar Marina Silva no segundo turno.

Essa observação inicial pode ser realçada por mais duas observações: havia uma possibilidade real de um segundo turno totalmente diferente, entre Dilma e Marina e, ao mesmo tempo, essa possibilidade só apareceu “graças” à tragédia da morte acidental de Eduardo Campos. Ou seja, uma candidatura que tinha o acúmulo de 2010 (com 20% dos sufrágios) e reais condições de ganhar, somente aconteceu por acaso, depois que tinha sido eliminada pelo mecanismo medieval-colonial de uma decisão cartorial. Quando, como diria Maquiavel, a fortuna colocou Marina novamente na corrida, concentraram cinicamente a máquina milionária e o aparelho de milhares de cargos de confiança unicamente para destruir a virtuosidade da candidatura de Marina.

“O PT virou governismo e não sabe mais como aparecer de ‘esquerda’”

O medo governista

O medo governista de ter que enfrentar Marina Silva em paridade de condições traduz (ou é a tradução, pouco importa em qual direção o pensamos) as dificuldades do PT de realizar um debate pela “esquerda” e a necessidade imperiosa que ele tem de produzir a qualquer custo o binarismo que lhe proporciona o candidato tucano. Dito de outra maneira, para vencer o PT não apenas precisa apresentar-se como o “menos pior”, mas deve produzir o “mais” pior. Para isso, ele dispõe de uma máquina binária que funciona a pleno vapor: sem fazer nenhuma concessão à esquerda e até reivindicando a repressão dos protestos, o PT está conseguindo uma verdadeira mobilização social em torno de sua candidata.

O fato é que o PT virou governismo e não sabe mais como aparecer de “esquerda” (mesmo que reformista, pragmática ou moderada). A virtude do PT é a truculência da direita tucana e os efeitos de manipulação da máquina binária. Quando o desafio vinha do mesmo campo, Marina, o PT recorreu à fortuna: o golpe de aparelho, a mentira e a mistificação. Pior do que isso, a manipulação do governismo deslocou para direita todo o eixo político representativo.

Assim, por um lado, o “governismo” impediu um debate pela esquerda (não há como negar racionalmente que para alguém de “esquerda” um segundo turno com Marina deveria ser não apenas melhor, mas também mais desejável) e, pelo outro, acabou realizando um dos fantasmas agitados desde antes de junho de 2013: que as primaveras árabes, o 15M e as jornadas de junho, se não são diretamente conservadoras, abrem o caminho “à direita”. Como já escreveu Marcos Nobre, a tendência é dizer que “Não aconteceu nada em junho de 2013”.

Enfim, esse é mais um paradoxo irônico. Diante do levante da multidão, os dirigentes do PT e seus intelectuais residuais, ao invés de se debruçar com humildade para entender o acontecimento democrático, gritaram ao golpe e ao medo como poderiam fazer os aristocratas de uma monarquia ameaçada. Não apenas ficaram com medo como Toqueville diante do sorriso da criada que saudava os gritos dos sans culotes revolucionários, mas passaram a dizer que a multidão era fascista e manipulada, até hipnotizada. Ser de “esquerda” reduziu-se assim ao contrário do que deveria ser: não mais ter o ponto de vista concreto dos oprimidos que lutam, mas possuir uma verdade transcendente e abstrata para dizer e decidir “quem e como” teria direito de lutar. Oras, é nessa eleição que rola todo tipo de manipulação e hipnose na qual cai um sem número de eleitores “cheios de consciência” que passaram do não-voto ou do voto de protesto a votar Dilma, sem que ela tenha feito o menor passinho para a esquerda.

Chegamos ao absurdo: ao passo que a candidata passeia com o candidato de direita fluminense que apoia o Aécio (Pezão), um intelectual como Luiz Eduardo Soares – que sempre esteve firme ao lado do movimento de junho contra a repressão – é excomungado nas redes por ter ousado apoiar a escolha de Marina de estar com Aécio no segundo turno. Só o PT pode ser sujo, cínico e até organizar a repressão e militarização dos pobres (na Maré, onde os militares têm jurisdição reconhecida pelo STF sobre os civis, até por crimes de desacato).

IHU On-Line - Como explicar o fenômeno Marina, com os primeiros indícios de que ela poderia disputar o segundo turno e, depois, sua queda? Quais são, na sua avaliação, os fatores que contribuíram para que ela perdesse votos?

Giuseppe Cocco - Podemos explicar o fenômeno “Marina” em três momentos: em primeiro lugar, como confirmação e aprofundamento da crise da representação; em segundo lugar, pela determinação do PT de continuar na mesma postura de antes de junho de 2013; em terceiro lugar, do ponto de vista dos limites da própria candidatura Marina.

Em primeiro lugar, o sucesso de Marina é um dos sintomas da crise da representação. Um dos sintomas e ao mesmo tempo uma das causas dessa crise é a volatilidade das bases eleitorais e, portanto, a existência de algo como “fluxos” de votos que devem ser capturados por custosíssimas estratégias de marketing e não mais por formas de organização que estruturam a sociedade (grêmios, sindicatos, associações).

O “lulismo” foi fruto de um deslocamento desse tipo exatamente na reeleição de 2006, quando sua base eleitoral passou dos setores mais organizados do proletariado urbano e das classes médias do Sudeste e do Sul para os pobres das periferias e, sobretudo, do Nordeste e do Norte. Já em 2010, Marina tinha mostrado sua força, conquistando 20% dos votos. Depois de junho de 2013 e antes da não homologação da Rede, todas as pesquisas de opinião indicavam esse potencial em torno de 30%. Quando voltou a ser candidata a presidente, ela amplificou ainda mais esse potencial pela comoção pública e pelo fato que parte do eleitorado antipetista começou a enxergar nela uma real chance de tirar o PT da presidência. Quando ela perdeu credibilidade na esquerda, o voto útil de direita “flutuou” para seu berço natural.

Em segundo lugar, o PT e o governismo mostraram uma forte capacidade de destruição de reputação, acusando Marina de tudo de que poderia ser acusado o PT (e ao cubo, ou seja, pelos seus três governos). A eficácia dessa máquina binária é diretamente proporcional à determinação de não propor nenhuma alternativa, de apenas funcionar com base na manipulação: destruíram a reputação de Marina enquanto mulher de luta sem fazer o mínimo passo à esquerda e um monte de gente caiu vergonhosamente nessa armadilha do binarismo. Podemos apontar três exemplos:

(a) o que o PT faz, Marina não pode fazer do mesmo jeito. Por exemplo, todo o mundo fala de “lulismo” e todo o mundo sabe que Lula passa por cima das decisões do PT. Mas o “personalismo” do metalúrgico é sempre aceito de maneira positiva, mesmo quando colocou o Palocci de volta para coordenar o programa da Dilma em 2010. O protagonismo de Marina, oriundo de uma longa história de lutas, pelo contrário, é reduzido por um monte de gente que apenas militou na repartição onde trabalha um “messianismo”. Lula pode viajar nos jatinhos dos empreiteiros bilionários que generosamente bancam seu Instituto, mas Marina não pode ter o apoio da Neca e do Guilherme Leal. Ninguém sabe por que, mas funciona!

(b) as propostas sobre direitos LGBT e mais em geral a questão do “Programa”. A candidatura Marina publicou um detalhado programa – o mais avançado dos três grandes candidatos - e, logo depois, eliminou a frase sobre “casamento homoafetivo”. Marina e seu programa foram massacrados e ridicularizados pelo governismo e pelas redes: “ela vai escrever seu programa com lápis”, disseram. Uma grosseira mistificação, pois a candidata Dilma não propõe nada nesse sentido e, sobretudo, seu governo não fez nada a não ser retirar o kit anti-homofobia que devia ser distribuído nas escolas. Quanto ao programa: Dilma sequer publicou o seu e os governos Lula e Dilma nunca respeitaram as promessas.

(c) foi bem curioso assistir ao evento da “cultura” com Dilma no Oi-Casa Grande. Claro, dessa vez o teatro estava bem esvaziado apesar do esforço financeiro da máquina. Ainda assim me pergunto: como fizeram aqueles que foram aplaudir a não lembrar que Dilma simplesmente destruiu toda a bela experiência de Gilberto Gil? Como não lembrar o desprezo total que Dilma teve e tem pela cultura, tratada na melhor das hipóteses como enfeite.

Por fim, Marina perdeu fôlego pelos problemas estruturais de sua campanha e talvez pelo seu personalismo. Ela era candidata por acaso, de um partido que não é o dela, com pouquíssima estrutura e recursos, apenas dois minutos de tempo de televisão. Essa fraqueza acabou exaltando as incertezas e as ambiguidades que toda candidatura desse “porte” necessariamente contém. Sem essas ambiguidades e “impurezas” ela não teria tido chances de “ameaçar” os dois candidatos mainstream.

“Não se trata de um problema de entendimento, mas de vontade política: o PT e seus dirigentes não querem apreender os processos de subjetivação, querem apenas manipulá-los”

IHU On-Line - Qual foi a relevância dos votos nulos e brancos e o que eles demonstram sobre a política no Brasil?

Giuseppe Cocco - Não me parece que nulos e brancos tenham sido relevantes do ponto de vista quantitativo (nem que tenham variado muito). Ou seja, não houve aumento expressivo desse “voto” (ou não-voto) e ele não conseguiu deslegitimar o resultado do voto. Por outro lado, acredito que parte do voto nulo e abstenções contém hoje um elemento político novo, ainda qualitativo, oriundo do ativismo horizontal produzido pelo desdobramento do movimento depois de junho de 2013. Talvez se torne um fenômeno mais expressivo no segundo turno, diante da total ausência de debate ou da miséria de uma polarização mistificadora.

Quanto mais violento o confronto entre Dilma e Aécio, mais evidente fica que nenhum dos dois tem algo a propor e na realidade usam essa violência toda para esconder que são as duas faces de um mesmo fenômeno: uma representação incapaz de encontrar uma nova dinâmica, mas decidida a levar todo o mundo na mesma crise.

IHU On-Line - Que relações estabelece entre as eleições e as manifestações de junho do ano passado? Como as manifestações foram expressas nessa eleição?

Giuseppe Cocco - O escândalo do segundo turno é esse mesmo: ninguém fala de junho de 2013. A única referência que Dilma faz a junho é o dispositivo repressivo que ela montou para a Copa do Mundo deste ano e sem nenhuma referência aos Direitos Humanos! Isso no país do Amarildo e de 50 mil assassinatos por ano.

Em termos políticos gerais, Junho de 2013 foi e é um divisor de água. Trata-se de um evento que muda as perspectivas e define um antes e um depois. A tentativa do PT e do governo vai no sentido de relativizar essa dimensão. Podem até conseguir, mas para fazer isso perderão definitivamente a possibilidade de se renovar e correm o risco de fazer pagar ao país como um todo essa determinação conservadora.

Até junho, todas as ambiguidades e limitações do governo e do PT tinham se não uma "justificativa", uma desculpa: a ausência de relações de força que permitissem uma radicalização da democracia e uma virada à esquerda das políticas públicas. Veio junho, a multidão foi pra rua. A resposta do PT/governo foi de desqualificar o movimento e até desejar que fosse conservador-fascista para poder reprimi-lo e manter sua coesão diante da vergonha de uma crítica de massa das ruas. Depois passou a coordenar a repressão em nível federal. Quando disse que dialogava com o movimento, o PT “decretou” que alguns patrocinados (aqueles mesmos que diziam que em São Paulo só existia amor logo antes que a cidade explodisse e levasse o país com ela) são “o” movimento. Com isso mostrou que não há nenhuma vontade de diálogo, de nenhum tipo.

Várias vezes discuti com amigos sobre a incapacidade do PT de entender os processos de subjetivação. É preciso admitir que não se trata de um problema de entendimento, mas de vontade política: o PT e seus dirigentes não querem apreender os processos de subjetivação, querem apenas manipulá-los. Oras, a máquina binária começou a esgotar-se no Rio de Janeiro já em 2006, com a versão fluminense da coalizão nacional que levou Sergio Cabral Filho ao governo do Estado. Em 2008, foi mais um passo nessa direção, com a eleição pela coalizão de governo do direitista Eduardo Paes. Em 2010, a polarização era fraca e conseguiu eleger Dilma Rousseff somente por causa da truculência do Serra.

Crise de representação

Assim, a crise da representação chegou ao Brasil por linhas tortas, dando até a ilusão ao PT e seus aliados de que o Brasil estivesse numa contratendência. Mas a crise chegou, ao longo de três eixos:

- O primeiro eixo é o mais estrutural e diz respeito ao fato de que o PT de Lula chegou ao poder integrando e não rompendo com as políticas econômicas neoliberais. Dando continuidade ao tripé da ortodoxia macroeconômica, Lula conseguiu abrir algumas brechas na educação (Prouni e cotas raciais), na política social e na política externa (a mais ameaçada pela eventual vitória tucana). Além disso, ele deixou acontecer – mesmo sem entendê-las – experimentações como aquelas do MinC [Ministério da Cultura] na gestão de Gil.

- O segundo eixo é aquele que a mídia chamou de escândalo do mensalão. Contrariamente ao que se podia imaginar, a crise do mensalão teve o efeito de levar o PT ainda mais para dentro do pacto conservador da governabilidade ao qual tinha tido que aderir com a “Carta aos brasileiros” de 2002. O efeito paradoxal foi de amplificar e não de diminuir o pragmatismo cínico que estava na base do “escândalo” e da única “corrupção” que interessa: a redução do tempo intensivo da transformação em tempo lento da corrupção da democracia. A corrupção passou de uma situação na qual “os fins justificam os meios” a uma na qual ninguém sabe mais quais são os fins. Os “meios” se tornaram o alfa e o ômega de uma política sem mais nenhuma inovação. A transformação social passou a depender do fato de “ser poder”. Oras, por um lado sabemos que o poder é, por definição, conservador e, pelo outro, que a forma que essa involução do PT tomou foi a própria coalizão com o PMDB. O PMDB – como a Globo – não é “um” partido, mas o Estado ou, melhor, o próprio “poder”. Da mesma maneira que foi no Rio de Janeiro que a intervenção nacional (em 1998) contra a candidatura própria inaugurou o oportunismo petista, é no Rio – entre 2006 e 2008 – que esse mostrou-se em sua assustadora maturidade.

- O terceiro eixo ao longo do qual chegou a crise da representação apareceu no momento da decisão de Lula (e não do PT) sobre a sua sucessão: ao invés de apostar em um dos dois Ministros mais representativos de um possível aprofundamento democrático (Tarso Genro ou Marina Silva), ele escolheu uma figura de gestão de megaobras e megaeventos, sem nenhuma sensibilidade política. Em 2010, o esgotamento já estava dado, apesar do sucesso de Dilma no segundo turno: o sinal é o resultado espetacular de Marina Silva (20% dos votos) e foi mais uma vez no Rio que a crise apareceu com mais nitidez: na capital fluminense, Marina totalizou 30% dos votos e Molon – que ficou na oposição à coalizão PT e PMDB - foi o deputado federal mais votado do PT. Nas municipais de 2012, a insurgência carioca confirma sua persistência com o sucesso da candidatura-movimento de Freixo (PSOL) que recolheu 27% dos votos. De nada adiantou. O PT e a coalizão de governo olhavam tão somente para o sucesso da eleição de Haddad em São Paulo e a reeleição do Paes já no primeiro turno no Rio. Mas estavam errados. São Paulo explodiu sob os olhos dos que diziam que só “existia amor”, e o levante, além de se espalhar por todo o país, veio ao Rio onde durou até outubro. O Rio não é ponto fora da curva, mas a curva: a tendência. Entre junho e outubro, é essa tendência que se transformou num divisor de águas.

“Os “pobres” no capitalismo contemporâneo não são lúmpen e tampouco são “nova classe média”: se trata da nova composição do trabalho metropolitano, o trabalho que luta pelos transportes e faz rolezinhos”

Pobres: nem lúmpen nem classe média

Queria terminar narrando um episódio. Em novembro de 2010, logo depois das eleições, Molon me convidou para compor mesa num debate que ele organizou - no auditório da Universidade Candido Mendes – sobre o tema “E Agora PT?”. Estávamos na Mesa eu e a economista Maria da Conceição Tavares. Grosso modo, critiquei a política de remoções dos pobres conduzida pela Secretaria Municipal de Habitação - SMH do petista Jorge Bittar e fiz duas afirmações: “o PT perdeu (no Sudeste e no Sul) a classe média e agora falta só perder os pobres” e “o Rio é o laboratório do desaparecimento do PT como partido de esquerda”. Vejam o resultado do 1º turno de 2014: Marina ganhou no Rio de Janeiro e teve um ótimo desempenho nas zonas mais pobres da cidade. Em São Paulo, Dilma teve um péssimo desempenho, inclusive no ABC paulista. Lembro que Maria da Conceição Tavares, por um lado, lamentou as políticas conservadoras conduzidas na Prefeitura do Rio e, pelo outro, qualificou os “pobres” de “lúmpen”. Oras, os “pobres” no capitalismo contemporâneo não são lúmpen e tampouco são “nova classe média”: se trata da nova composição do trabalho metropolitano, o trabalho que luta pelos transportes e faz rolezinhos. As políticas sociais de Lula não eram assistenciais exatamente porque funcionais a essa inclusão dos excluídos enquanto excluídos. Mas o governo Dilma (e também o governo Lula) enxergou os pobres somente do ponto de vista do marketing (eleitoral e de consumo) e só se preocupou com os “ricos”, colocando rios de dinheiro para empreiteiras, megaeventos e montadoras, tendo como modelo o Eike Batista (hoje quase esquecido).

Aqueles que compartilham a campanha eleitoral que fala do desaparecimento do Brasil no Mapa da Fome da UNESCO, ou dos milhões de pobres que saíram da miséria, esquecem que os pobres, em junho de 2013, saíram das estatísticas constituindo sua própria subjetividade, algo que não cabe no marketing eleitoral, a não ser com base no porrete e na repressão. A nova composição do trabalho metropolitano mostrou sua capacidade de constituir-se nas lutas. Junho é incontornável, mesmo que as transformações que ele determina não impliquem nenhum determinismo. As brechas podem ser fechadas, e a oportunidade para a esquerda se reinventar, desperdiçada.

IHU On-Line - A declaração de votos à candidatura de Aécio por Marina e Eduardo Jorge deve ter algum impacto no segundo turno das eleições?

Giuseppe Cocco - No que diz respeito ao PSB, a morte de Eduardo Campos precipitou algumas mudanças de seus equilíbrios internos e a posição da família me parece indicar que era o que o próprio Campos estava planejando. Não consigo explicar o apoio de Eduardo Jorge (do PV) a não ser como estratégia quase pessoal dele e do PV. Talvez ele não queira ou não saiba como assumir uma posição de abstenção ou voto nulo. No que diz respeito à escolha de Marina, devo dizer que me parece ser a consequência da campanha que o governismo conduziu contra ela. Foi essa postura que impediu a repetição da neutralidade de 2010.

Entendo, pois, a decisão de Marina. Contudo, me parece que – apesar das dificuldades que pode criar à Dilma – se trata de uma vitória do cinismo do governismo e de um erro político. Com efeito, é uma decisão que acaba sendo de tipo personalista: não leva em conta o necessário acúmulo de forças.

Assim, a questão da construção de uma alternativa no nível da representação fica em aberto. Teremos que olhar mais do lado do “podemos” e também do “ganhemos”, essas experimentações de inovação que a esquerda espanhola está produzindo.

IHU On-Line - Como vê as críticas aos votos nulos e brancos na atual conjuntura, onde há quem diga que este é o momento de votar num ou noutro candidato, se posicionando, inclusive mais à direita ou à esquerda? Ainda sobre isso, é possível enquadrar tais candidaturas em posições tais como direita e esquerda?

Giuseppe Cocco - Pessoalmente, eu acho sempre bom votar. Mas, nessa situação onde somos chantageados por um binarismo mistificador, pois que aqui no Rio a Dilma apoia os dois lados (Pezão e Crivella ao mesmo tempo), o não-voto (em particular o voto nulo) me parece a única opção nesse segundo turno para recusar a chantagem que o governismo quis, cinicamente, impor. Estamos mesmo na situação do Bartleby de Herman Melville: I would prefer not to! Aliás, meus amigos filósofos terão assim a oportunidade de usar esse mote de maneira política e não apenas acadêmica.

Contudo, se a Dilma se posicionasse com firmeza sobre alguns temas com propostas de esquerda (por exemplo, sobre a questão dos Direitos Humanos: contra a violência do controle exercido sobre os pobres, os indígenas, as mulheres, os gays), eu até mudaria de posição. Mas não houve nenhum tipo de movimento nessa direção. Sequer o mínimo. Estou esperando!

Hoje, o significado do não-voto é uma declaração de autonomia diante de um sistema representativo que não deixa nenhuma livre escolha. Eu pessoalmente pensei que o melhor 2º turno teria sido entre Dilma e Marina e, por isso, defendi o voto em Marina.

Mas eu não faço disso uma questão de princípio. Pelo contrário, eu penso que o movimento de junho tem pela frente o desafio de reinventar instituições e formas de representação. Como o fará e se terá as condições de fazê-lo, é difícil hoje de dizer.

IHU On-Line - O senhor mencionou em artigo recente que “a crise da representação não significa ‘fim’ da representação”. Que questões devem ser consideradas numa possível reforma do sistema eleitoral para repensar a representação política?

Giuseppe Cocco - Não acho que se trate de uma questão de reforma do sistema eleitoral (por importante que possa ser). Penso que a mudança passa pelo aprofundamento das brechas democráticas, de tipo constituinte. Precisamos inverter a perspectiva: não mais pensar um poder perpétuo, mas a perpetuidade da sua renovação. Sem processo constituinte, toda reforma será interna ao sistema de poder em vigor: ela nascerá corrupta.

“O PT perdeu (no Sudeste e no Sul) a classe média e agora falta só perder os pobres”

Nesse horizonte, temos três desafios enormes:

- O primeiro é o de construir o direito dos pobres a fazer política, bem no sentido de Hannah Arendt. Uma das grandes lições de junho é que os pobres não têm esse direito (porque são mortos: como Amarildo) e isso passa pela construção de uma verdadeira paz (a questão da legalização das drogas é fundamental e mais em geral a questão da defesa dos direitos humanos: os direitos das mulheres, LGBTs, Indígenas).

- O segundo desafio é de construir uma nova agenda de reformas. Uma agenda adequada ao novo mundo do trabalho, à nova composição do trabalho: isso implica, por um lado, fazer evoluir o Bolsa Família em direção a uma renda mínima universal e, pelo outro, inventar uma outra esfera institucional, além do público-estatal e do privado-mercado (nesse âmbito precisamos também pensar em retomar o tema da liberdade sindical, que foi abandonado pela CUT). É nesse sentido que precisamos pensar como fazer a gestão radicalmente democrática das metrópoles e em particular do sistema dos transportes.

- O terceiro desafio, urgentíssimo, é olhar na cara a crise hídrica de São Paulo e do Rio: continuar a exportar commodities agrícolas e deixar acontecer o desmatamento significa isso mesmo: mandar nossa água para a China! A água e a floresta são nosso comum e as reservas indígenas são embriões de instituições do comum. Proteger seus direitos é afirmar os nossos também!

IHU On-Line - Como avalia o debate entre outros dois partidos que apresentavam uma proposta mais progressista para presidência, como o PSOL e o PV?

Giuseppe Cocco - Francamente, não me parece que o PV constituísse uma alternativa progressista, independentemente do desempenho televisivo do seu candidato. Quanto ao PSOL: com certeza, ele veicula e propõe as pautas mais progressistas e mais próximas dos movimentos. Quando estive nas passeatas, sempre encontrei os companheiros do PSOL e com uma postura de respeito da autonomia do movimento.

Contudo, creio que nessas eleições ele se apresentou de maneira inadequada. Não quero com isso dar nenhuma lição. Eles devem ter suas razões e as respeito mesmo sem conhecê-las. Mas tenho a sensação que perderam (e com eles perdemos nós todos) uma grande oportunidade.

No Rio de Janeiro, o PSOL preferiu apresentar uma figura não conhecida, privilegiando reforçar a bancada. Tarcísio Motta acabou sendo um ótimo candidato, mas só conseguiu despontar no final. Creio que Freixo estaria hoje no segundo turno e com chance de ganhar (e seria interessante de saber se a Dilma retribuiria o apoio que ele está lhe dando atualmente).

Em São Paulo, a candidatura inovadora do Safatle foi eliminada pela lógica do aparelho. Mas em geral, não sei por que, os militantes do PSOL entraram de cabeça na campanha contra Marina, de uma maneira que me parece meio suicida: sem nenhuma concessão por parte do PT e Dilma. Além disso, credito que o voto para Freixo e para Marina é no Rio em boa parte o mesmo. Além disso, eles sempre fizeram uma oposição firme quando o governo tinha uma dinâmica expansiva, e agora que ele está totalmente esgotado passaram a um apoio cego, em troca de nenhuma concessão política visível.

IHU On-Line - O que se pode esperar de uma reeleição de Dilma ou de um futuro governo Aécio?

Giuseppe Cocco - Eu acho assustadoras as duas, e talvez pelas mesmas razões. A verdadeira armadilha é de aparecer tão diferentes quando não o são. A disputa soa ainda mais falsa porque estamos diante de uma tremenda demanda da sociedade de avançar em direção a mais justiça. Parafraseando Pierre Clastres, Dilma e Aécio são o “Estado contra a sociedade”, duas faces de um mesmo esgotamento. Mas enfim, tendo a dizer que o Aécio vai ser pior. Gostaria que a Dilma fizesse declarações claras e contundentes para me convencer de vez.

(Por Patricia Fachin)

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - "Dilma e Aécio são o ‘Estado contra a sociedade’. Duas faces de um mesmo esgotamento”. Entrevista especial com Giuseppe Cocco