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17 Março 2015

"Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade?", pergunta Renato Janine Ribeiro, professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo, em artigo publicado pelo jornal Valor, 16-03-2015.

O professor de Filosofia narra: "Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava água no seu prédio. Ouvi a secretária telefonar a alguém: "Não quero saber como, mas você tem que resolver o problema em duas horas". Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar o encarregado à margem da lei. Vire-se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. "Não quero nem saber!"

E pergunta:

"E se Dilma tiver a mesma convicção que o povo brasileiro? Se também quiser o fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não crê na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade?"

Eis o artigo. 

Um princípio básico da ciência é que, quando uma hipótese não explica os fenômenos, devemos procurar outra que dê melhor conta deles. Este princípio me ocorreu há poucos dias. Afinal, quase todos os analistas, eu inclusive, temos criticado a presidente da República por seu estilo de pouca negociação. Até ficamos espantados: como sobe à presidência alguém que ignora princípios tão elementares? Mas aí parei. Nunca é bom apostar na ignorância ou inépcia daquele a quem criticamos. Pode ser que Dilma Rousseff erre sim ao não negociar, ao não fazer política. Só que...

Se isso não for óbvio? Se nosso ponto de partida estiver errado?

Durante milênios, os homens acreditaram que os astros, inclusive o sol, giram em torno da Terra. Só que, desse jeito, alguns astros têm um movimento estranho, irregular, e até mesmo retrogradam. Já com a astronomia moderna, heliocêntrica, os movimentos dos planetas - inclusive a Terra - em torno do Sol descrevem órbitas mais regulares. Essa, a lição científica: se os resultados soam absurdos, devemos questionar a hipótese de que partimos. No caso, em vez de pensar que Dilma ignora o mais elementar da razão e da política, indagar o que ela efetivamente pretende.

No seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu todos os auxiliares acusados de corrupção. Foi aplaudida. Mas logo começaram a questioná-la: por que não fazia alianças? Porque não gostava dos políticos? ou, sei lá, da própria politica? Só que, num País em que tantos políticos importantes são suspeitos de corrupção, negociar com eles o que significa? Podemos ter decência no exercício do poder e, ao mesmo tempo, trânsito livre pelo mundo dos políticos?

Essa é a realidade atual, que precisa mudar, mas isso não será fácil. E se Dilma for representativa de nosso desejo difuso de uma política competente e sem corrupção? Ela se irrita, sim, com quem está a sua volta, o que politicamente é inábil, mas isso porque cobra eficiência. E isolou a família da política. Nem ela nem os familiares despertam suspeitas de favorecimento pessoal. Pode até governar mal, só que detestando a corrupção e a ineficiência. Mas basta detestá-las para superá-las?

A hipótese passa a ser: e se o "momentum" Dilma for exatamente a tragédia mais representativa daquilo que desejamos? Se o problema não estiver nela, mas em nós? Em nós, analistas da política e cidadãos, que pretendemos o melhor de dois mundos: eficiência e honestidade.

Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade?

Para não ficarmos num só partido, lembremos a rebelião do PCC em São Paulo em 2006, quando a quadrilha paralisou a cidade por alguns dias. A situação só foi resolvida quando o governo estadual - que é do PSDB - negociou com o PCC e cedeu. Meticulosamente, deletamos este passado (embora ainda presente) de nossa memória.

E ouvi de Drauzio Varella que desde o massacre do Carandiru em 1992, ocorrido no governo do PMDB, a polícia não entra nos presídios do Estado. São geridos pelo crime. Isso é inadmissível. Mas assim baixa a violência nas cadeias e mesmo o crime fora delas.

Essa mistura de bem e mal, de resultados positivos e meios obscuros para consegui-los, merece atenção. Porque lavamos as mãos. Denunciamos a corrupção e queremos que as leis passem no Congresso. Mesmo na ditadura, isto é, num regime em que o Congresso pouco decidia, o assessor presidencial Heitor de Aquino dizia, quando ia negociar a aprovação de decretos-leis pelos parlamentares, que ia abrir o "barril de peixe podre". Imagina-se o odor. Fingimos que ele não existe, ou que nasceu ontem.

Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava água no seu prédio. Ouvi a secretária telefonar a alguém: "Não quero saber como, mas você tem que resolver o problema em duas horas". Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar o encarregado à margem da lei. Vire-se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. "Não quero nem saber!"

E se Dilma tiver a mesma convicção que o povo brasileiro? Se também quiser o fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não crê na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade?

Esta é uma hipótese. Não justifica a presidente, no sentido de aprová-la e apoiá-la. Ela deveria dialogar, se não com a categoria política, certamente com a sociedade. Mas a hipótese talvez explique os fenômenos, isto é, a ação - e inação - de Dilma, melhor do que a suposição de que ela é inepta politicamente. E cabe perguntar se a psicanálise não ajuda a entender o ódio crescente a ela. Ódio ao outro é projeção de ódio a si mesmo (simplifico, claro). Talvez ela cause tanta rejeição porque nos mostra, às escâncaras, um dilema que queremos esconder de nós. Queremos a honestidade sem pagar o preço por ela.

Pensamos que a honestidade dos políticos, quando vier, vai nos cumular de bençãos. O dinheiro que é roubado da sociedade virá a nós como as fontes de leite e mel da Terra Prometida. Esquecemos que chegar a isso dá trabalho, e que também terão que acabar muitas condutas nossas, "informais" dizemos às vezes, imorais ou ilegais. Mas, sobretudo, esquecemos que reformar a política não é só dos políticos. Demanda esforço de quem os elege, e esse esforço não se resume em raiva, menos ainda, insultos.

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