Um eurocomunista extemporâneo

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Por: Jonas | 27 Janeiro 2015

“A Grécia não escolheu uma expressão política surgida do nada para demonstrar sua frustração com a crise desatada por anos de abuso patrimonialista do Estado pelas elites que o dominaram desde o fim da ditadura dos coronéis e pelo remédio atroz fornecido pela troika. Escolheu o Syriza, da Coalizão de Esquerda Radical, a confluência impulsionada pelos velhos quadros do ‘Partido Comunista do Interior’, após romper com os estalinistas do ‘Partido Comunista do Exterior’ e se abrir aos movimentos sociais dos anos 1980 e à nascente ecologia política”, escreve Gabriel Puricelli, coordenador do Programa de Política Internacional, pelo Laboratório de Políticas Públicas de Buenos Aires, Argentina, em artigo publicado por Página/12, 26-01-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O resultado das eleições gregas encerra várias histórias, além da anunciada reação cidadã ao austericídio ditado desde Berlim por Angela Merkel. É a história do suicídio do Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok), o partido cuja adoração do líder e fundador, Andreas Papandreu, torna-o mais do que qualquer outro, no pós-guerra, semelhante aos movimentos nacional-populares latino-americanos. O Pasok pagou em votos constantes o giro político de 180 graus colocado em prática (com o decisivo empurrão da Comissão Europeia) pelo filho de Anreas, Yorgos. Os amplos ajustes que levaram à recessão durante seu governo se aprofundaram com o governo de “grande coalizão” atual, no qual o Pasok se transformou no garoto de recados de seu arqui-inimigo histórico, a Nova Democracia, o partido do primeiro-ministro saliente, Antonis Samaras. O zelo fiscal com o qual o atual vice-primeiro-ministro Evangelos Venizelos se identificou fez do Pasok um partido no qual nem Yorgos Papandreu quis permanecer. O ex-primeiro-ministro se apresentou nas eleições com lista própria e, claro, não atingiu 3% dos votos necessários para alcançar as cadeiras parlamentares.

O voto grego também contém a história da teimosia quase religiosa da troika, formada pela Comissão Europeia, o Banco Europeu e o Fundo Monetário Internacional, que convocou os gregos para uma travessia de deserto sem prêmio para eles. Uma política de resgate ao extremo do euro, na qual se submeteu a uma superdose de cortes para as vulneráveis maiorias gregas, para que as maiorias alemãs não tivessem que se inteirar de que o sonho hegemônico pode ter custos para a vida. É a história de uma Europa onde não se pode dizer em público que todos os cidadãos dos países da Zona do Euro têm que contribuir com sua talha de carne para que a Alemanha possa continuar sendo uma potência exportadora de primeira ordem.

As preferências dos gregos encapsulam a história da longa marcha dos eurocomunistas gregos desde a dissidência dentro do Partido Comunista até a chegada ao governo. A Grécia não escolheu uma expressão política surgida do nada para demonstrar sua frustração com a crise desatada por anos de abuso patrimonialista do Estado pelas elites que o dominaram desde o fim da ditadura dos coronéis e pelo remédio atroz fornecido pela troika. Escolheu o Syriza, da Coalizão de Esquerda Radical, a confluência impulsionada pelos velhos quadros do “Partido Comunista do Interior”, após romper com os estalinistas do “Partido Comunista do Exterior” e se abrir aos movimentos sociais dos anos 1980 e à nascente ecologia política. Os comunistas que combateram a invasão nazista na Segunda Guerra Mundial evoluíram em direções divergentes diante do intervencionismo soviético na Europa. Muitos deles, forçados pela ditadura dos coronéis para o exílio na Itália, abraçaram o modo de se opor a Moscou e de conceber as alianças políticas de seus correligionários italianos e promoveram uma visão comunista a partir do interior da Grécia, diferente da imposta do exterior pelos mandachuvas da URSS.

Um muito jovem Alexis Tsipras foi chefe da Juventude Comunista, representando esses adultos do partido inspirados pelo eurocomunismo de Enrico Berlinguer e os acompanhou na saída do partido (a sigla histórica, KKE, ficou nas mãos dos ortodoxos) e na busca de alianças que seu velho partido jamais teria aceitado.

Syriza, o partido que há tempo adotou essa política de alianças, é então um sujeito político com uma longa história e profundas raízes na cultura política grega. Chega ao governo com o desafio de encontrar aliados novos para alcançar a maioria no Parlamento, que o escapou por muito pouco. Chega rodeado de expectativas para as quais Tsipras procurou dar um marco realista na campanha. E chega em um momento no qual os pessimistas acreditavam que estava entre optar pela resignação das grandes coalizões ou a besta negra da extrema-direita. Um eurocomunista extemporâneo tem diante de si a oportunidade de demonstrar que não é assim.

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