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14 Novembro 2014

"Nem tampouco os Estados Unidos alertaram seus empresários para não investir nesse hipotético projeto, talvez porque a Casa Branca o continue considerando fantasioso. A prova de que não existe tal hostilidade é que, quando Wang Ying apresentou o projeto com toda pompa em Manágua, em 2013, fez questão de estar rodeado de poderosas empresas norte-americanas cujos serviços foram contratados", escreve Sergio Ramírez, escritor, em artigo publicado pelo jornal El País, 12-11-2014.

Nota da IHU On-Line: Sergio Ramírez foi vice-presidente da Nicarágua, nos primeiros anos da Revolução Sandinista. O presidente era Daniel Ortega.

Eis o artigo.

Pode ser que agora a ideia messiânica do Grande Canal da Nicarágua tenha uma origem teológica. E não uma teologia qualquer, mas a teologia da libertação. Durante uma reunião recente do Conselho de Partidos Políticos da América Latina (COPPAL), realizada em Manágua, o presidente Daniel Ortega revelou que não foi fácil se convencer das vantagens de um canal interoceânico, cuja construção e controle entregou, por meio de um acordo de 100 anos, ao empresário chinês Huag Ying, até que foi persuadido pelo famoso teólogo brasileiro Leonardo Boff.

E o comandante comentou dessa maneira: “Passei pela prova de fogo com Leonardo Boff... há dois anos Leonardo andava por aqui, o Canal já estava [em discussão], e falei com Leonardo, que é um defensor da natureza. Eu estava preparado para que me dissesse que a construção do canal era uma barbaridade, esperava isso”. Mas foi o contrário.

Daniel Ortega revelou que não foi fácil se convencer das vantagens do canal interoceânico

Boff teria comentado sobre “hidrelétricas e obras a céu aberto na selva do Brasil: e me dizia que sim, que existiam questionamentos, mas que eles acompanharam os projetos e que o impacto havia dado vida às florestas”.

Entre os bons exemplos que o teólogo expôs a Ortega estava a represa de Iguaçu no rio Paraná, entre o Brasil e o Paraguai, iniciada na época das ditaduras militares em ambos os países, uma das sete maravilhas do mundo moderno. Ouvir tudo aquilo “foi um grande alívio para mim”, comentou Ortega. Um alívio transcendental, pois até antes de sua providencial reunião com Boff, a construção do canal parecia uma monstruosidade. Em maio de 2007 havia declarado: “Não há ouro no mundo que nos faça ceder nisso, porque o Grande Lago é a maior reserva de água da América Central e não vamos colocá-la em risco com um megaprojeto como um canal interoceânico.”

Boff, por sua vez, comentou recentemente sobre aquele encontro com Ortega que, pelo que se nota, poderá definir o destino da Nicarágua se os chineses levarem adiante a construção de seu Grande Canal:

“Não tenho segredos. Há dois anos, em uma conversa informal na casa do ex-ministro de Relações Exteriores Miguel D’Escoto, o presidente Ortega disse que os Estados Unidos estão pressionando todos os países e as empresas para que não invistam no país. E a Nicarágua está se afundando em dívidas. A solução definitiva seria construir um canal que daria ao povo nicaraguense um mínimo de subsistência e desenvolvimento.”

Boff é um homem bem informado, de modo que deveria saber que não é verdade que os Estados Unidos mantenham algum bloqueio econômico ou financeiro contra a Nicarágua, e que as relações de cooperação econômica entre os dois países, incluídos os investimentos, são normais, e assim comemoram as corporações de empresários nacionais.

Tampouco é correto dizer que a Nicarágua esteja se afundando em dívidas. Ortega gaba-se de que o país é um excelente pagador de seus créditos públicos e privados, e da solidez das reservas monetárias. De acordo com o Índice de Liberdade Econômica no Mundo, relacionado ao investimento estrangeiro, a Nicarágua, que ocupava o 111o lugar, subiu 75 posições nos últimos anos, e está no primeiro escalão de países onde o Estado interfere menos com regulação do mercado e no fluxo de capitais. Quer dizer, um exemplar Governo neoliberal.

E Leonardo Boff segue explicando seus conselhos para Ortega: “Disse a ele que devemos combinar os dois polos, o humano e a natureza, já que ambos se pertencem. E hoje em dia existem tecnologias que podem evitar danos irreparáveis. O aconselhei que fosse visitar a maior represa do mundo, a de Itaipu, em Foz do Iguaçu, pois ali é realizada uma experiência bem-sucedida de equilíbrio entre o homem e a natureza... foi tudo o que lhe disse”.

Porém, disse mais uma coisa: “A China é um dos poucos países que resiste e enfrenta os Estados Unidos. Todas as outras empresas foram bloqueadas”. E já não sabemos se esta última frase é sua ou se a copiou de Ortega. De qualquer modo, para um homem tão bem informado, deveria ser óbvio que isso também é falso. China e Estados Unidos não estão em conflito por causa do propalado Grande Canal da Nicarágua.

Nem tampouco os Estados Unidos alertaram seus empresários para não investir nesse hipotético projeto, talvez porque a Casa Branca o continue considerando fantasioso. A prova de que não existe tal hostilidade é que, quando Wang Ying apresentou o projeto com toda pompa em Manágua, em 2013, fez questão de estar rodeado de poderosas empresas norte-americanas cujos serviços foram contratados. Uma delas é o grupo lobista McLarty & Associates, cuja clientela inclui o Walmart e a General Electric.

E Boff também deveria saber que entre os especialistas a serviço da McLarty está John Dimitri Negroponte, que com seu cargo de embaixador de Ronald Reagan em Honduras comandou nos anos oitenta as operações militares da CIA contra a Nicarágua.

Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova teologia.

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