Teologia da Libertação e a preocupação ecológica. Leonardo Boff e o chamado à Mãe Terra

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11 Outubro 2012

Um apaixonado pela terra. Mais do que isso. Pela Mãe Terra. Alguém que tem a humildade de reconhecer a grandeza e a divindade de Deus manifestada em cada elemento da natureza. E desta forma vive e faz Teologia. Este é Leonardo Boff, renomado teólogo brasileiro, que abrilhantou o palco do Anfiteatro Pe. Werner da Unisinos, na primeira conferência da manhã de ontem, dia 10 de outubro, durante o quarto dia do Congresso Continental de Teologia.

Ele abriu sua fala esclarecendo que falaria sobre a relação entre Teologia da Libertação e a preocupação ecológica. Afinal, explicou, “não podemos, como teólogos cristãos, esquecer nossa responsabilidade diante das ameaças à Terra”.

Em seguida, apresentou alguns traços biográficos seus para que o público entendesse como ele chegou ao tema da ecologia relacionado à Teologia da Libertação, considerando que trabalha nessa relação há 10 anos aproximadamente. “Recebi uma carta do Papa em que me pedia que eu fosse mais sério. Mas eu disse: estudei na Alemanha, sou sério (risos). E também me pediu que abordasse os verdadeiros temas da Teologia. Dei-me conta de que o grande tema para a reflexão seria pensar a terra, os filhos e filhas condenados da terra e ver como podemos garantir o futuro de nossa civilização, porque podemos nos aniquilar totalmente. Uma teologia que não aborde esses temas não é séria”, definiu.

Então, Leonardo Boff recordou que a Teologia da Libertação nasceu ouvindo o grito dos pobres, das águas, dos animais e da terra. “É preciso articular esses gritos. O grande pobre é o planeta terra, pacha mama, que está devastado e oprimido, e deve ser inserido na Teologia da Libertação. Como bem diz Sobrino, a terra está crucificada”.

Em seguida, Boff destacou que há outros interlocutores da Teologia que não são apenas os clássicos da Filosofia, Antropologia e Sociologia. Há outros saberes que vêm da ciência da vida, do universo, como a cosmologia, a astrofísica e a física quântica. Durante 13 anos, Boff trabalhou com um cosmólogo canadense, chamado Mark Hathaway, com quem escreveu o livro Tao da Libertação (lançado este ano pela Editora Vozes), para pensar a Teologia da Libertação a partir das relações com a nanotecnologia, com a física quântica, em um caminho difícil, mas que vale a pena, segundo Boff, tentando incorporar valores do Oriente.

Nesse sentido, o teólogo destaca a importância de se envolver em um projeto de educação popular, encabeçado por Fritjof Capra, de alfabetização ecológica, para “alfabetizar” os mais analfabetos que existem hoje em nossa sociedade, que são os empresários.

Leonardo explica como foi o processo de elaboração da Carta da Terra e que a primeira frase deste documento, que ele considera o mais importante em relação a princípios do século XX, era a seguinte: “estamos em um momento da história em que a humanidade tem que fazer uma escolha: ou fazer uma aliança global para cuidar da terra e uns dos outros, ou então aceitar o desaparecimento da espécie humana e a devastação da biodiversidade”. Tal frase foi considerada de alto impacto e acabou sendo enviada a três importantes institutos mundiais, que confirmaram que ela deveria ser dita. “A terra está cansada; já não aguenta mais”, reitera.

Foi aí que Boff defendeu que o capital já cumpriu sua missão histórica e não tem mais condições de sobreviver. “Então, passou a usar da violência para se impor, pois não tem mais argumentos para convencer as pessoas da sua necessidade”.

Na visão do teólogo, “se respeitarmos a dinâmica da natureza e conhecermos as leis dos ecossistemas, poderemos continuar usando as suas ‘bondades’, tranquilos, com direção ao futuro”.

“Estamos dentro de um grande processo de evolução e a vida é um momento no processo da evolução”, afirmou Boff, citando Prigogine. Segundo o teólogo, a evolução é uma tentativa de por ordem no caos onde vivemos.

Leonardo defende a crença em uma teologia da criação. “Deus está continuamente criando, sempre presente em sua criação. Deus está em tudo e tudo está em Deus – é o que chamamos de panenteísmo, o que é diferente do panteísmo. É preciso repensar a criação como algo dinâmico, além de repensar a cristologia da ressurreição. O Cristo cósmico está presente em todas as realidades. E o Espírito Santo, por meio de sua ação missionária no mundo, também está dentro da criação”, explica.

Depois de traçar um panorama sobre o caos de devastação que vive o planeta hoje, tendo o ser humano como seu principal “meteoro”, Leonardo Boff apresenta duas atitudes diante desta situação: “podemos considerar uma grande tragédia previsível, ou podemos identificar que estamos diante de uma grande crise de civilização e temos que mudar. Ou mudamos ou morremos. Então, temos que mudar, pois não queremos morrer. Estamos dentro de uma grande crise, chegamos ao coração dela. Podemos aprender pela dor ou pelo amor. E precisamos aprender pelos dois caminhos”.

Em seguida, argumentou que é preciso resgatar a razão cordial, a inteligência emocional e a razão sensível. “Somos vitimas da razão instrumental analítica, que criou a modernidade. É preciso reconhecer que junto com toda a evolução criamos uma máquina de morte que pode nos destruir”.

E encerrou sua fala desta forma: “não quero que saiam tranquilos daqui; quero produzir angústia, pois ela nos faz trabalhar e nos põe em marcha. Nós somos terra, filhos da terra. Se não resgatarmos essa razão sensível para complementar a outra, não vamos nos mobilizar. O maior crime da humanidade hoje é a falta de sensibilidade. Não sentimos mais, não nos indignamos. O origem das religiões é o sentimento do mundo e não a razão do mundo. Para isso existe a ciência. Abraçando o mundo, estamos abraçando a Deus”.

Debate

O público aplaude BoffUma das primeiras questões respondidas por Leonardo Boff foi sobre os povos indígenas e a visão do “bem viver”, a partir da busca de equilibro entre todos os seres humanos. “Eis uma utopia necessária. Temos que nos unir e formar uma governança global. Seremos todos socialistas, não por ideologia, mas por estatística, afinal estamos em um voo cego”. E recordou que um dos momentos mais importantes de sua vida foi quando, na ONU, junto com Evo Morales, votou para que o Dia da Terra (22 de abril) passasse a se chamar Dia da Madre Terra

Em seguida, abordou com o plenário o tema dos jovens que, para ele, são as maiores vitimas do sistema hoje. “Estão roubando deles a capacidade de fantasia, de sonhos, de utopias, oferecendo tudo pronto pela internet, pelos jogos, pelos filmes e todo o maquinário capitalista que nos transforma em meros repetidores, consumidores alienados, despolitizados. O desafio é levá-los a reencantar o mundo. Não creio em uma evangelização que tenha como meio principal a palavra, mas que tenha a arte, a música, a dança, que é o discurso dos jovens”, responde Boff.

Texto de Graziela Wolfart e fotos de Wagner Altes

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