Análise crítica do fracking: impactos e limitações

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Por: Jonas | 31 Outubro 2014

A conclusão da obra do especialista em assuntos energéticos Richard Heinberg é que “a única opção razoável para o futuro são as energias renováveis. Continuar queimando combustíveis fósseis nos conduz para uma catástrofe climática, além disso, é certo que as reservas destes não são tão abundantes como alguns querem nos fazer acreditar”, conforme escreve Jesús Aller, em uma resenha da obra “Fracking: el bálsamo milagroso”, publicada por Rebelión, 28-10-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a resenha.

As técnicas para a extração de hidrocarbonetos por fraturamento hidráulico (fracking) foram empregadas nos últimos anos com grande êxito, sobretudo nos Estados Unidos, onde provocaram uma virada nas políticas energéticas, junto a enormes discussões em todos os níveis, centradas nas perspectivas reais destes métodos e seus problemas ambientais. “Fracking: el bálsamo milagroso”, do especialista em assuntos energéticos Richard Heinberg (Icaria Antrazyt, 2014), aborda com clareza e rigor estes assuntos para chegar a conclusões que se distanciam muito do discurso oficial defendido pela indústria do petróleo.

A introdução do livro apresenta seus objetivos. Entre aqueles que analisam o futuro do mercado dos hidrocarbonetos existem dois pontos de vista. De um lado, os que prognosticam uma produção crescente com preços estáveis (chamados aqui de cornucopianos, pela cornucópia, o corno da abundância) e, do outro, os que falam do “pico do petróleo” (piquistas) e profetizam um descenso da produção, em um futuro próximo, com o aumento dos preços. A produção mundial de petróleo estagnou em 2005, com um aumento dos preços, que teve seu papel na crise de 2008, e isto parece dar razão aos piquistas. No entanto, a partir de 2007, o começo da exploração do gás de xisto nos Estados Unidos, por técnicas de fraturamento hidráulico, provocou uma derrubada nos preços do gás natural, e a aplicação destas técnicas seguidas pela obtenção de petróleo de rochas de baixa porosidade, como os xistos, conseguiu aumentar notavelmente a produção nos Estados Unidos. Os fatos anteriores serviram para que os cornucopianos considerem a disputa resolvida e proponham a tese de que os métodos de fraturamento hidráulico são o remédio para as necessidades energéticas da humanidade nos próximos decênios, e que estes deveriam ser aplicados extensivamente. O objetivo do livro é realizar uma análise crítica desta proposta, baseada em um estudo das perspectivas reais destes hidrocarbonetos não convencionais, muito mais pobres do que se aponta e seus elevados custos ecológicos e ambientais. Também são explicadas as razões especulativas que inflaram a “bolha do fracking”.

O primeiro capítulo se dedica ao pico do petróleo. A produção de um poço, um campo ou uma região petrolífera seguem sempre uma curva em forma de sino. A questão que se apresenta é: se consideramos o conjunto dos recursos petrolíferos do planeta, em qual momento se chegará ao máximo da curva? É um problema complexo e incerto, mas com a informação e os métodos disponíveis, muitos analistas pensam que o mundo entrou na zona do pico aproximadamente em 2005, quando a produção global alcançou um patamar com valores que se acredita que já não voltarão a atingir. O ciclo de crescimento econômico baseado no petróleo barato, que a humanidade viveu nos últimos decênios, parece chegar ao seu fim. Será o fracking a solução para esta situação?

O segundo capítulo é dedicado para as técnicas de fraturamento hidráulico, apresentadas pelos cornucopianos como o remédio que assegura um século de gás e petróleo baratos para os Estados Unidos. Descreve-se, em detalhe, a tecnologia utilizada e o método de trabalho. Muito resumidamente, trata-se de aceder mediante sondagens a zonas do subsolo onde existe gás ou petróleo em rochas pouco porosas, como xistos, por exemplo, e injetar nelas fluidos com agentes químicos que, em parte, são mantidos em segredo. Estes fluidos provocam o fraturamento das rochas e liberam os hidrocarbonetos, sendo estes extraídos por meio do próprio tubo de sondagem.

Em seguida, são descritos os lugares onde estão concentrados a produção de gás por fracking, espalhados pelos Estados Unidos, ainda que se saiba de importantes recursos na China, América do Sul, Europa, África e Austrália. O petróleo é obtido por fracking especialmente nos Estados Unidos e alguma coisa no Canadá, e existem grandes reservas no Oriente Médio, Sibéria, Austrália e México.

O terceiro capítulo entra na realidade dos resultados do fracking por trás das manchetes propagandísticas. São repassadas as publicações de geólogos como Arthur E. Berman e David Hughes que, após exaustivos estudos dos dados disponíveis sobre regiões onde se realizou fracking, concluíram que apesar de alguns poucos poços situados em áreas muito específicas dentro dos grandes campos, a maior parte se caracteriza por “entrar em declive muito rapidamente”. Se junto a isto se une o fato de que nos Estados Unidos os principais recursos já foram explorados e não são aguardadas descobertas importantes, o mais provável é que as promessas desapontem. Os dados apresentados, correspondentes aos campos Bakken (Dakota do Norte) e Eagle Ford (sul do Texas), joias da coroa do fracking, colocam em evidência estes receios.

Em seguida, são discutidas as possibilidades de que a tecnologia do fracking acabe sendo aplicada extensivamente em outros lugares do mundo. Uma série de fatores parece influir contra isto: leis ambientais na Europa, complexidades geológicas na China, ausência de recursos hídricos suficientes na Arábia Saudita e, em geral, a falta de capitais dispostos a assumir os riscos implicados e a sofisticação inerente às técnicas a ser aplicadas.

O quarto capítulo é dedicado aos perigos ambientais do fracking. O fato é que em muitas regiões onde esta técnica está sendo aplicada estão surgindo associações críticas que denunciam suas agressões ao meio ambiente. No entanto, os porta-vozes da indústria garantem que o método é seguro, quando aplicado corretamente. Qual é a realidade? A primeira coisa a ser levada em conta é que esta tecnologia consome uma enorme quantidade de água, o que em regiões áridas já é um problema em si mesmo, mas é preciso dizer, além disso, que a água utilizada acaba retornando à superfície enriquecida com uma série de compostos químicos, alguns deles venenosos. Esta água pode ser armazenada ou tratada, mas a realidade mostra muitos casos de contaminação de aquíferos e arroios. Os gases que escapam são também um perigo, ainda que até pouco tempo fossem apresentados pela indústria como problemas muito locais. Os estudos recentes que são citados descrevem níveis preocupantes de contaminação do ar em regiões onde as técnicas são aplicadas. Em seguida, são recordados outros trabalhos que evidenciam como o fracking afeta negativamente o gado e os animais selvagens. Os terremotos induzidos, em geral, são de escassa magnitude, ainda que tenha ocorrido algum que destruiu moradias e feriu pessoas. O uso do gás ao invés do carvão nas centrais térmicas reduz as emissões de CO2, razão pela qual o gás obtido por fracking poderia ter um efeito positivo frente ao aquecimento global. No entanto, posteriormente, argumentou-se que a quantidade de metano (gás de forte efeito estufa) que vai para a atmosfera nas operações de fracking anula completamente esta vantagem. Sobre este assunto existe uma ampla bibliografia que mostra substanciais discrepâncias entre diferentes estudos.

O quinto capítulo se dedica aos aspectos econômicos do fracking e são repassados os benefícios que os diversos setores envolvidos obtêm destas técnicas. Em relação às comunidades, há efeitos positivos (pagamento aos proprietários de terras, postos de trabalho, ingressos fiscais) e outros negativos (contaminação, perda de valor das propriedades) em uma interação complexa que podem apresentar saldos muito distintos, em diferentes lugares. Os benefícios globais para a economia nacional, propagados pelas empresas, são basicamente corretos em relação ao passado recente, mas realizam extrapolações para o futuro que, em muitos casos, são muito otimistas. A indústria do petróleo e do gás indubitavelmente consegue lucros, mas os dados apontam que o esgotamento de reservas, as quedas de preços e as indenizações por danos ambientais fazem com que não seja ouro tudo o que reluz. Por último, destaca-se que a grande beneficiada é Wall Street, e vemos isso claramente quando nos são explicados os complexos mecanismos pelos quais os bancos são os responsáveis por uma pressão pela baixa dos preços, que lhes permite se fartar, ao passo que criam problemas para as empresas produtoras de gás e petróleo.

O sexto e último capítulo, contém uma reflexão final sobre a política energética que deveríamos conceber. Os hidrocarbonetos não convencionais, como os hidratos de metano do fundo do mar, as ardósias e areias de alcatrão ou o petróleo de águas profundas supõem, de fato, grandes quantidades de “recursos”, mas requerem tanta energia para sua extração que, em muitos casos, não é economicamente rentável.

Os “recursos” são enormes, mas as “reservas” resultam ser, na realidade, bastante exíguas. A tecnologia é cada vez mais eficaz, mas os estudos disponíveis evidenciam que as taxas de retorno energético são também cada vez mais baixas e isto é um perigo, pois ainda que a aposta pelas [energias] renováveis seja inevitável, a transição para elas deverá ser feita, sem paliativo, com base no uso de combustíveis fósseis durante um período de tempo.

A conclusão do livro é a de que com todos os dados sobre a mesa, a única opção razoável para o futuro são as energias renováveis. Continuar queimando combustíveis fósseis nos conduz para uma catástrofe climática, além disso, como acabamos de ver, é certo que as reservas destes não são tão abundantes como alguns querem nos fazer acreditar. A aposta pelas [energias] renováveis não apenas é sensata, mas também inevitável. O livro termina com um convite para fugir da miragem do petróleo eterno e enfrentar de forma decidida o desafio do século: o desenvolvimento de uma política energética viável e que respeite o meio ambiente.

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