“A Igreja não é perseguida na Espanha”. Entrevista com Carlos Osoro, novo arcebispo de Madri

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Por: Jonas | 29 Outubro 2014

“Quero ser o bispo de todos, estar com todos, não apenas com os crentes. Falarei com todos os que me encontrar, sairei pelas ruas. Sou assim, não sei fazer outra coisa”. Ontem tomou posse em sua nova diocese. Carlos Osoro (foto) já é arcebispo de Madri, em substituição ao todo-poderoso cardeal Rouco. Após duas décadas de um modelo de governo marcado pelo pulso contra o poder, Francisco elegeu a este bispo-pastor para mudar o rosto da Igreja espanhola. Para passar de uma Igreja “aduana” para outra “hospital de campanha”.

 
Fonte: http://goo.gl/VDg4Wm  

É, sem sombra de dúvidas, o homem que mais se parece com Francisco entre todos os bispos espanhóis. Em “Carlos Osoro, o peregrino” (La Esfera de los Libros), a primeira biografia do sucessor de Rouco, o novo arcebispo de Madri revela seus sonhos, segredos e seus planos para o futuro, que passam pelo encontro com todos, desde Rajoy a Pablo Iglesias, desde fiéis de missa diária a ateus ferrenhos.

“É preciso estar com todos, e escutá-los, aproximarmo-nos de todos. Inclusive dos que estão à margem, daqueles que não querem saber de nada, e tentar ajudá-los a ver que não somos inimigos, mas, sim, que desejamos construir o melhor possível para vivermos juntos. E, se verdadeiramente somos testemunhos, as pessoas perceberão que há coisas que são boas e outras secundárias, e poderemos verdadeiramente construir”, afirma Osoro, que assim como o Papa não foge de nenhum debate, do celibato ao acesso à comunhão pelos divorciados, e não se exime de admitir os pecados de uma instituição divina, mas também humana.

“A pedofilia é um pecado, mas também um crime”, afirma, ao mesmo tempo em que denuncia com vigor os corruptos, ainda que advirta do perigo de se “criar uma sociedade de suspeitos”. Um homem de nuances, que possui apenas um horizonte, o mesmo que marca seu lema episcopal: “Por Cristo, com Ele e Nele”, e que desde ontem rege os destinos da Igreja espanhola.

A entrevista é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 26-10-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que supõe ser arcebispo de Madri? O que fará hoje, no primeiro dia após suceder Rouco?

Ainda não tive tempo, ontem foi um dia muito longo e emocionante... Vou tentar entrar em contato com todos os que trabalham em Madri, com os sacerdotes, a vida religiosa, os leigos. Quero conhecer todas as realidades, para isso tenho que me encontrar com as pessoas que estão trabalhando no dia a dia. Hoje, em meu primeiro dia, presidirei a missa, e no período da tarde visitarei alguns dos que trabalham com algumas das escravidões de hoje, e terminarei o dia rezando com as oblatas em um mosteiro de clausura.

Qual é a Igreja que Carlos Osoro sonha?

É necessária uma Igreja em chave de missão. Uma Igreja com portas abertas, que não feche as portas, nem os sacramentos para ninguém. Não se deve fechar as portas para os enfermos, os pobres, e é preciso começar tendo as portas dos próprios templos abertas. É mais importante que as pessoas possam entrar, do que [o medo de que] alguém possa nos roubar um cálice. Com as portas abertas, não sei por que, mas as pessoas entram. Talvez para buscar calor, para buscar silêncio, mas entram.

Com qual Igreja sonho? Sonho com uma Igreja que anuncie o Evangelho para todos, envolvendo-nos com as situações das pessoas, acompanhando, fazendo a festa que as pessoas necessitem. Anunciando a alegria do Evangelho, porque existem pessoas especialistas em ver manchas e rugas: esses não podem anunciar o Evangelho, não servem.

Que pessoa nós encontramos em “Carlos Osoro: o peregrino”?

Isso quem deveria dizer é você, que é quem o escreveu (risos). Disseram, e continuam dizendo, muitas coisas sobre mim. Mas, ao final, e por mais que as pessoas pensem, sou apenas um cristão que tenta fazer aquilo que é possível, que não é muito, para os outros. Isso é o que sou, e o que faço. Não sei fazer outra coisa.

A Igreja é perseguida na Espanha, como postulam certos grupos católicos?

Não. Sinceramente não, não acredito que seja perseguida. Neste sentido, penso que às vezes nos queixamos, seguramente com razão, mas não terminamos por oferecer, por ofertar soluções. E precisamos deixar de chorar e continuar trabalhando para construir.

Um bispo pode ir atrás de uma faixa?

Como bispo, não. Acredito que um bispo não deve sair para protestar na rua. E não porque não tenham direito de fazer isso como cidadão, mas, sim, porque se eu participo em uma manifestação com uma determinada bandeira, necessariamente verão que me uno com um grupo, aquele que convoca essa manifestação. E eu tenho que ser de todos. Neste sentido, só compareceria em atos que unissem a todos, em concentrações em que todos nós estivéssemos de acordo. E então saímos todos.

O Arcebispo de Madri vota?

Bom, além de bispo, sou cidadão, e sempre voto. Voto em quem me parece que defende mais a pessoa humana, a solidariedade, a quem defende mais todas as dimensões reais do homem e da mulher de hoje.

Como arcebispo de Madri, e como vice-presidente da Conferência Episcopal, terá de enfrentar as relações Igreja-Estado, o ensino de Religião... Terá que “fazer política”...

Sempre procurei estabelecer diálogo com todas as forças políticas. Agora, em Madri, seguramente devo fazer isso com mais assiduidade. Contudo, uma coisa é ter contatos, chegar a acordos, dar-me bem com todas as forças políticas, estar disponível para todos, e outra coisa muito diferente é que se possa dizer de mim que eu voto em um ou outro partido, que sou de uns ou de outros. Um bispo tem que ser de todos, crentes e não crentes, de esquerda, direita e de centro.

Os Acordos Igreja-Estado devem mudar?

Acredito que possuem vigência, vigoram na democracia e seus aspectos fundamentais continuam tendo vigência. Foram acordos feitos em um momento da Transição da Espanha, e talvez tivesse algumas coisas para revisar, mas, em geral, parecem-me um instrumento, perfectível, mas que foi capaz de manter uma relação em que Igreja e Estado se olham de frente e não de costas, e alcançamos acordos em questões que atingem os aspectos mais importantes da vida, desde os mais pobres aos mais enfermos, ao desenvolvimento da pessoa em sua totalidade.

Questão distinta é que no momento de alcançar acordos concretos nem sempre podemos conseguir o que a Igreja ou o que o governo deseja, mas como instrumentos de diálogo, e não de confrontação, parece-me que são válidos e nos permitem aprofundar nessa cultura do encontro. Isso sim. É preciso continuar dialogando e trabalhando para que continuem permitindo o encontro e o diálogo. Se não, não servem para nada.

Monarquia ou república?

Hoje, estamos no que estamos. Parece-me que não nos deu mal resultado o que tivemos até agora. A convivência na Espanha foi muito boa, graças a Deus, e ter uma instituição que se posicione acima dos grupos políticos também é bom. Além disso, dom Felipe e dona Letizia representam essa Espanha moderna, jovem, preparada, que conta com todos. Acredito que é bom, possível e desejável que quem nos representa, quem está acima dos grupos e dos partidos, seja capaz de arbitrar em momentos difíceis, de estender pontes em momentos de ruptura.

Qual a sua opinião sobre a retirada da lei do aborto?

O aborto é um crime, um dos mais absurdos e graves que existem, e diante do qual nenhum cristão pode objetivamente defender o contrário. Havia um compromisso de que essa lei fosse efetivada, eu não pensava que fosse retirada.

O que diria para uma mulher que quer abortar?

Primeiramente é preciso dizer que com o aborto se mata e, portanto, é um crime. O que há no ventre de uma mãe é uma pessoa, e caso se cuida, o que sai é uma criança, não uma árvore. Porém, também é necessário defender a vida frente à guerra e o que traz consigo.

A respeito destas mulheres, a primeira coisa a se dizer é que são decisões muito difíceis, porque tocam o mais profundo da existência humana. Normalmente, quando me encontrei em situações semelhantes, pude comprovar que quem decide abortar está convencido de que é o que tem que fazer. Muitas vezes, os problemas vêm do fato de estarem sozinhas, sem trabalho, as famílias não aceitam a situação... Há ocasiões em que algumas mulheres se sentem, quando não empurradas pela família, na rua ou sem horizontes. Diante disto, a primeira coisa, sempre, é escutar. É necessário ajudar as pessoas a descobrir o valor da vida, e isso não se consegue sem ter tempo, porque as coisas importantes não são resolvidas em um instante. É preciso deixar as pessoas falarem, que se desnudem, e acompanhá-las verdadeiramente, com todas as consequências.

E se ao final aborta?

Pois olha, se não funciona, você não é ninguém para condenar alguém. Você fez tudo o que tinha que fazer, e depois a pessoa tem sua liberdade. Uma liberdade que não conseguiu descobrir em plenitude, mas que não lhe resta outro remédio a não ser aceitar. O que você tem que fazer é se envolver nesta situação, e não à distância, mas, sim, muito perto, e procurar abrir perspectivas.

O Papa acaba de encerrar um Sínodo sobre a Família, no qual se abriu a porta à acolhida aos gays, divorciados em segunda união, uniões de fato... Qual é a sua opinião?

A Igreja deve ser capaz de saber estudar todas as situações, e eu espero que o Sínodo ajude o Santo Padre e toda a Igreja a fazer uma reflexão sincera, aberta, sem medos, constatando tudo o que temos e vendo como a Igreja pode lançar luz, em nome de Jesus Cristo, em todas essas questões.

O que fica claro é que este Papa não deixa ninguém indiferente...

O papa Francisco é um homem próximo, você se sente bem, muito bem, muito bem. Diante dele, você sente a presença de um pai, de um irmão mais velho, ao qual você pode contar todas as suas preocupações. Ele o trata como se não existisse outra pessoa no mundo. Faz com que você se sinta acolhido, próximo, único.

Dizem que você é um “dublê”, inclusive fisicamente...

Tenho vergonha, porque não sou, e sinto inveja, porque eu gostaria. Oxalá fosse verdade, porque a cada dia eu admiro mais este Papa. Pelo que diz, pelo que faz, pela forma como faz. É uma benção de Deus para o mundo, e também para a Igreja.

Como saímos desta crise?

Oxalá eu soubesse, porque dói muito esta crise, da qual parece que estamos saindo, mas que sempre deixa pessoas sofrendo. E, em geral, os que mais sofrem são os mais pobres, são muito atingidos, possuem menos recursos. E o dinheiro deve servir e não governar. Os que mais têm precisam ajudar os mais pobres, respeitá-los, porque caso abandonem alguns na periferia não há programas políticos, nem recursos sociais que assegurem a tranquilidade, pois a desigualdade provoca a reação violenta dos oprimidos. Hoje é preciso dizer: a humanidade continua tendo escravos.

Vivemos um momento de crise na saúde por causa do ebola. Uma doença de pobres?

Esta é uma emergência global, mas como não costumamos olhar para os pobres, nos desinteressamos deles, e apenas quando a enfermidade, a pobreza ou a miséria chegam ao “Primeiro Mundo” é que começamos a nos preocupar. Há muito tempo, pessoas estão morrendo de ebola, mas somente quando chegou a Europa e aos Estados Unidos é que começamos a investigar. Temos que buscar soluções para todos. É muito triste que aconteça que, em casos como o ebola, apenas começamos a buscar a vacina quando chegou ao "Primeiro Mundo". Esse é o descarte que o Papa denuncia.

No Oriente Médio, assistimos ao massacre do Estado Islâmico. Pode se justificar a violência em nome da religião?

Esta gente que mata em nome de Deus se equivoca, porque Deus nunca mata, faz com que todos vivam. Quando eu transformo esse Deus em uma luta política, provavelmente o que estou fazendo é impor aos demais minha forma de entender as relações entre os homens, e isso me dá uma pena tremenda. Nosso Deus, se é Deus, é impossível que mate. Ao contrário, vem dar a vida.

Contudo, o mundo hoje não é nada, conhecemo-nos todos. Isto permite que saibamos de grandes injustiças, mas também que possamos fazer muitas coisas. As convocações do papa Francisco pela paz no Iraque e na Síria, ou sua oração no Muro de Belém, são símbolos necessários e que vão muito mais longe do que antes.

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