Quem toma a dianteira no papado de Francisco?

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22 Julho 2014

"A tendência do Papa Francisco em agir politicamente por meio de suas amizades se mostra bem clara em toda uma gama de questões", escreve John L. Allen Jr., autor, repórter e colunista especializado em assuntos do Vaticano, em artigo publicado pelo jornal The Boston Globe, 19-07-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Durante o governo Clinton, os políticos americanos desenvolveram um novo termo: “FOB”, ou seja, “Friend of Bill”, literalmente amigo de Bill – alguém próximo do presidente que desfrutava acesso aos corredores do poder e que, talvez, ajudava a moldar sua agenda.

Hoje, o catolicismo tem a sua própria classe de “FOBs”, neste caso querendo dizer “amigos de Bergoglio”. A referência é àqueles que têm laços pessoais com Jorge Mario Bergoglio, mais conhecido como o Papa Francisco, e que podem estar numa situação de influência em seu papado.

O grau de atenção que estes têm por parte do papa torna, atualmente, menos reveladora a cadeia de comando oficial do Vaticano a respeito de quem está tomando a dianteira na Igreja Católica.

O mais recente FOB, amigo de Bergoglio, a vir à tona é Giovanni Traettino, presidente da Igreja Evangélica da Reconciliação. Nesta semana o Vaticano anunciou que Francisco irá viajar, no dia 28 de julho, para a cidade do sul da Itália chamada Caserta para ver Traettino, que se tornou amigo do então cardeal argentino há uma década enquanto trabalhava no país latino-americano.

Em Caserta, Francisco irá se juntar a protestantes e católicos em uma oração na igreja de Traettino. Apesar de esta iniciativa não ser inédita, ela irá marcar uma das poucas ocasiões em que um papa se aventurou a visitar uma igreja protestante para orar.

A viagem faz parte de um padrão adotado pelo Papa Francisco de abertura aos protestantes e pentecostais, em cada caso sempre envolvendo pessoas que ele conhece.

Em janeiro, Francisco enviou uma mensagem em vídeo a uma conferência que estava sendo conduzida pelo americano Kenneth Copeland, pentecostal, onde ofereceu um “abraço espiritual” aos participantes. Isso fez com que um grupo de cristãos protestantes e pentecostais fosse visitá-lo em Roma. O ponto alto deste encontro foi quando o pontífice e o tele-evangelista James Robison deram um “high-five” [cumprimento de mãos espalmadas para cima com os dedos abertos] em concordância sobre a necessidade de os cristãos terem uma relação pessoal com Jesus.

“Deus deu início ao milagre da unidade”, falou Francisco no vídeo, citando o romancista italiano Alessandro Manzoni, de que “Deus nunca dá início a um milagre que não termine bem”.

Como se ficou sabendo depois, o vídeo foi um subproduto de um FOB. Um protestante anglicano e carismático chamado Bispo Tony Palmer, que se tornou amigo de Bergoglio na Argentina, visitou este em Roma no início de janeiro, falando-lhe sobre o encontro que Copeland iria realizar, o que levou Francisco a voluntariamente enviar seus cumprimentos.

Quanto a Traettino, sabe-se que ele veio a conhecer Bergoglio através de um movimento argentino chamado “Comunión Renovada de Evangélicos y Católicos en el Espíritu Santo (CRECES)”. Em 2006, Bergoglio participou de um culto de oração promovido pelo movimento que reuniu 7 mil pessoas no Luna Park, em Buenos Aires, local geralmente usado para lutas de boxe.

Em certo momento Bergoglio se ajoelhou e permitiu-se receber oração de cerca de 20 pastores. O ato fez com que católicos tradicionais declarassem “vacante” a de Buenos Aires, alegando que esta tinha sido ocupado por um herege. Porém o futuro papa continuou sem temer as acusações.

A tendência do Papa Francisco em agir politicamente por meio de suas amizades se mostra bem clara em toda uma gama de questões.

Quanto às relações entre católicos e judeus, ninguém tem mais influência do que o rabino Abraham Skorka, reitor de um seminário judaico em Buenos Aires com quem Bergoglio escreveu um livro em 2010. Da mesma forma quanto ao Islã. Aqui Francisco conta com seu amigo Omar Abboud, ex-diretor de um centro islâmico em Buenos Aires.

A amizade também está no centro da estratégia de relações com a mídia. As entrevistas que concedeu não foram arranjadas através dos canais oficiais, mas através de amigos.

Na quinta-feira, Jorge Himitian, outro amigo evangélico de Bergoglio, disse à jornalista Inés San Martín, do The Boston Globe, que Bergoglio e seu círculo de amizade veem a amizade como a chave para o progresso ecumênico.

“Aprendemos que a via institucional (...) sempre se torna um beco sem saída porque acaba topando com diferenças doutrinais e de prática”, disse Himitian.

“O diálogo que temos se baseia na amizade e na espiritualidade”, falou. “Esperamos que o resto acabe, finalmente, encontrando o seu lugar”.

Com certeza, esta confiança na amizade tem o seu lado negativo.

Por um lado, as pessoas que poderiam ajudar o papa em muitos assuntos se veem em desvantagem caso não façam parte do seu círculo de amizades. A deferência aos amigos também pode significar que Francisco se sinta obrigado a agir com base nas sugestões deles, mesmo se elas forem meia-boca, além de se correr o risco de que os amigos possam exagerar quanto ao grau de acesso que têm em relação ao papa ou mesmo deturpar suas intenções.

Por duas vezes o pontífice, por exemplo, se sentou com um jornalista italiano, de 90 anos, Eugenio Scalfari, a quem Francisco considera um amigo próximo, e por duas vezes o Vaticano precisou distanciar o papa das conclusões que o entrevistador tirou. O último caso veio em 13 de julho, quando Scalfari deu a entender que Francisco estava prestes a abandonar a exigência do celibato sacerdotal e que um porta-voz do Vaticano teve que voltar atrás e se explicar.

Para o bem o para o mal, as relações têm importância para este papa. O principal motivo por que ele escolhei morar na Casa Santa Marta em vez do apartamento papal, por exemplo, é porque a ele importa a companhia de outras pessoas.

Aos que buscam progresso em assuntos como ecumenismo e relações com as comunidades judaica e islâmica, no entanto, a boa notícia é que Francisco não se deixa levar apenas por uma convicção abstrata. Ele se alimenta através das amizades também.

Alerta cristão em Gaza

Por falar nos amigos de Bergoglio, se há um amigo neste exato momento em seus pensamentos, este provavelmente é o sacerdote argentino chamado Pe. Jorge Hernandez, que trabalhou como pastor na Sagrada Família, a única paróquia católica na Faixa de Gaza.

Nas primeiras horas da última sexta-feira, Israel lançou-se numa campanha por terra em Gaza após 10 dias de bombardeios que não conseguiram parar os ataques de foguetes dos militantes, intensificando uma ofensiva que já vem tendo um elevado custo. Na sexta-feira autoridades de saúde disseram que 238 palestinos, a maioria civis, foram mortos, junto de um civil israelense.

Na sexta-feira pela manhã, Francisco telefonou para os presidentes Mahmoud Abbas, da Palestina, e Shimon Peres, de Israel, para manifestar a sua preocupação. O pontífice recebeu ambos os líderes para uma oração de paz nos jardins do Vaticano – não é preciso dizer que esta vem sendo, até o momento, uma oração sem respostas.

Há apenas 3 mil cristãos de uma população total em Gaza de 1.6 milhão. Apenas 206 deles são católicos; a maioria é formada por cristãos ortodoxos gregos.

Neste momento, estes cristãos enfrentam os mesmos perigos que qualquer outro que vive na Faixa de Gaza. Recentemente, mísseis caíram perto da paróquia católica, onde vários membros das Irmãs da Caridade, ordem de freiras fundada por Madre Teresa, junto de 28 crianças portadoras de deficiência física e 9 idosas buscavam refúgio.

Numa curta mensagem divulgada sexta-feira pela Rádio do Vaticano, Hernandez disse que as crianças estão começando a adoecerem por causa do estresse criado pelo barulho contínuo e ensurdecedor. Disse que desde a quinta-feira pela manhã os católicos vêm rezando diante do Santíssimo Sacramento e que uma missa especial será celebrada na sexta-feira “para implorar perdão, justiça e paz para todos”.

Hernandez é membro de uma ordem missionária com sede na Argentina chamada Instituto do Verbo Encarnado. A sua paróquia em Gaza administra duas escolas com cerca de 1000 alunos, 90% dos quais são muçulmanos.

O alerta cristão na Faixa de Gaza não acontece só por causa da rodada de combates em curso, mas também por preocupações mais amplas que dizem respeito ao que se pode esperar do futuro. Embora a relação com a maioria islâmica seja boa em geral, houve certos episódios de violência em meio a uma crescente onda de radicalismo islâmico na região.

Em 2007, a única livraria cristã funcionando na Faixa de Gaza foi bombardeada e o seu proprietário, Rami Ayyad, foi sequestrado e morto. A livraria tinha sido bombardeada outras duas vezes: em fevereiro de 2006 e em abril de 2007. Uma escola católica e um convento foram também saqueados em 2007, e uma biblioteca da Associação Cristã de Moços foi bombardeada.

Francisco já se mostrou capaz de apresentar iniciativas diplomáticas surpreendentes, tais como o seu dia mundial de oração e jejum pela paz na Síria no último mês de setembro e o seu convite, feito de improviso, a Abbas e Peres durante sua viagem à Terra Santa em maio.

Caso a situação continuar a se deteriorar, a Faixa de Gaza pode ser o próximo lugar onde ele escolherá intervir – não apenas por causa dos riscos, tanto para o mundo quanto para o minúsculo rebanho cristão, mas também porque há um “FOB” na linha de fogo.

Polêmica na Coreia sobre a visita papal

Quanto aos amigos do papa que o colocam em apuros, há também a polêmica cada vez maior em relação à sua viagem marcada para a Coreia do Sul entre os dias 14 e 18 de agosto. Trata-se de uma parada a ser feita no dia 16 num centro assistencial junto de aproximadamente 4 mil pessoas com deficiência chamado Kkottongnae, a maior instituição de assistência social do país.

O centro foi fundado em meados da década de 1970 pelo padre coreano John Oh, que também iria fundar congregações religiosas tanto para homens quanto para mulheres chamadas Irmãos Kkottongnae e Irmãs Kkottongnae respectivamente. Estas acabaram sendo instituições mundialmente conhecidas por, entre outras coisas, organizarem centros para pessoas carentes e idosas nos Estados Unidos – em Los Angeles, San Bernardino, Nova Jersey e Atlanta.

Enquanto era arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio conheceu John Oh e o movimento Kkottongnae, convidando-os a se instalarem na Argentina, ainda que ele não tivesse tempo de acompanhá-los antes de sua eleição ao papado.

A sua decisão em passar uma tarde de sábado junto a John Oh e companhia pode ser, portanto, um pouco para pagar uma velha dívida.

Nos últimos dias têm havido protestos na Coreia contra esta parada do pontífice. Em sua maioria as manifestações foram lideradas pelos mesmos católicos com os quais se esperaria celebrar – os que estão comprometidos no trabalho com os pobres e marginalizados. Eles citam dois motivos básicos.

Em primeiro lugar, dizem que o centro Kkottongnae “institucionaliza” os deficientes, tirando-os do contato social e regimentando suas vidas de uma forma que não está de acordo com as melhores práticas.

“Sem exagero, gesto algum de abraço ou beijo por parte do Papa Francisco irá dissipar a verdade subjacente”, disse o Pe. Noel O’Neill, missionário irlandês da ordem dos columbanos, na Coreia do Sul.

“Este tipo de institucionalização massiva das pessoas com deficiência há muito foi desacreditado na maioria dos países”, disse O’Neill. “Um modelo de serviço como este não é aceitável”.

Em segundo lugar, os críticos acusam o Kkottongnae de ser uma máquina de fazer dinheiro ligada, nos últimos anos, a vários escândalos de peculato e corrupção. Questiona-se como o Papa Francisco iria conciliar um seu selo de aprovação deste trabalho ao lado de seu pedido por uma maior integridade nas finanças da Igreja.

Segundo reportagens, Kkottongnae há muito vem desfrutando dos favores da elite política e econômica. A organização tem recebido contribuições substanciais do que é conhecido na Coreia como Chaebols – conglomerados transnacionais administrados por famílias tais como a Hyundai, Samsung e Kia. Ela também recebe mensalmente contribuições de aproximadamente 100 mil apoiadores.

Uma ordem católica na Coreia chamada Pequena Companhia de Jesus recentemente organizou uma manifestação pública para denunciar a Kkottongnae como uma “organização criminosa”, acusando John Oh de corrupção.

Apontaram para vários julgamentos que John enfrentou por supostos crimes financeiros, embora ele nunca tenha sido condenado. A Suprema Corte sul-coreana o absolveu em 2007 após ser acusado de desviar 3,3 milhões de dólares. No momento, moradores do bairro em que fica o centro Kkottongnae estão pedindo aos promotores para investigarem as recentes aquisições de terra feitas por John Oh, estimadas em mais de 3.200 acres, perguntando-se se ele não teria desviado subsídios governamentais.

“As práticas da Kkottongnae são quase as mesmas da máfia”, disse o Pe. Joseph Park Sung-gu. “A visita papal deveria se focar mais nos pobres e desamparados, e não num ambiente rico”.

Para constar, alguns destes críticos também administram centros para deficientes e pessoas carentes e se ressentem pelo fato de que uma grande quantia de dinheiro público vai para a Kkottongnae e não para eles. Os bispos coreanos manifestaram plena confiança em John Oh e na Kkottongnae.

Até o momento, nem o Vaticano nem os bispos coreanos deram qualquer indicação de que Francisco planeja mudar a programação. Os que protestam entregaram cartas à embaixada do Vaticano em Seul, mas dizem que, até o momento, não receberam nenhuma resposta.

Inés San Martín e eu estaremos na Coreia do Sul para cobrir a viagem do papa para o jornal The Boston Globe. Eu também estarei a bordo do avião papal para capturar tudo o que o papa tem a dizer durante o voo.

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