''Documento de trabalho do Sínodo é chato e sem graça''

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29 Junho 2014

Um documento "com a finalidade de apresentar um primeiro ponto de referência" para o Sínodo dos Bispos de outubro sobre a família foi lançado na última quinta-feira no Vaticano. O documento reconhece que a Igreja tem por "tarefa primária o anúncio da beleza da vocação para o amor", mas há pouco de bonito ou inspirador nesse documento. Se a vida de casado é tão chata e triste como esse documento, eu fico contente por ser celibatário.

A análise é do jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos EUA, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 27-06-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

O documento de 85 páginas, chamado Instrumentum laboris ou documento de trabalho, baseia-se nas respostas a um questionário enviado pela Secretaria do Sínodo em outubro. A compilação das informações vindas de inúmeras fontes não leva a uma apresentação coerente ou a uma prosa cintilante. A elaboração do documento foi mais difícil do que o habitual por causa do grande número de respostas e do tempo limitado que a Secretaria teve para fazer o seu trabalho.

A Secretaria, sem dúvida, fez o mesmo que já havia feito para sínodos anteriores: colocar as respostas em duas pilhas. Para a primeira pilha, e também a mais importante, vão as respostas das Conferências Episcopais, da Cúria Romana e daqueles bispos que participarão do Sínodo. A segunda pilha contém respostas de bispos e de outros individuos, incluindo os leigos. A primeira pilha recebe mais atenção.

Para aqueles familiarizados com o Sínodo sobre a família de 1980, a leitura do novo Instrumentum laboris promove uma sensação de déjà vu.

Muitas das mesmas questões são discutidas: divórcio, coabitação, casamentos irregulares, aborto, controle de natalidade, a pobreza, a poligamia na África, casamentos inter-religiosos, anulações, sexo extraconjugal, educação infantil etc.

Muitos dos mesmos fatores são acusados para os problemas de casamento e família: "Os meios de comunicação, a cultura hedonista; o relativismo; o materialismo; o individualismo, o crescente secularismo; a prevalência de concepções que levaram a uma excessiva liberalização dos costumes em sentido egoísta; a fragilidade das relações interpessoais; uma cultura que rejeita escolhas definitivas...".

Muitas das mesmas soluções são propostas: uma melhor catequese, uma melhor pregação, uma melhor formação nos seminários, uma melhor preparação para o matrimônio, oração, cursos de casamento em escolas católicas, aconselhamento de casais, programas educativos nas paróquia, devoção à Sagrada Família etc.

Evidenciando-se o retorno de todos esses velhos temas no novo Instrumentum laboris, pode-se concluir que o Sínodo sobre a família de 1980 foi um fracasso, mas não está claro como esse novo Sínodo pode fazer melhor.

Há algumas coisas novas no documento de trabalho deste ano. Por exemplo, as referências foram feitas com os ensinamentos de João Paulo II e Bento XVI, especialmente a Familiaris consortio, a exortação apostólica de João Paulo II de 1981, que se seguiu ao Sínodo sobre a família de 1980. Além disso, algumas novas questões surgiram, como o casamento gay.

O mais notável, porém, é o franco reconhecimento do novo Instrumentum laboris de que, mesmo "quando o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família é conhecido, muitos cristãos manifestam dificuldade em aceitá-lo integralmente". Especificamente são mencionados os ensinamentos sobre "controle de natalidade, divórcio e novas núpcias, homossexualidade, coabitação, fidelidade, relações pré-matrimoniais, fertilização in vitro etc.".

Embora coloque a maior parte da culpa sobre a cultura, ele também reconhece que a Igreja poderia fazer um trabalho melhor na apresentação do seu ensino. O arcebispo John Quinn, de San Francisco (EUA), se meteu numa confusão por dizer a mesma coisa no Sínodo de 1980.

Mesmo que a Igreja ao longo dos séculos tenha usado o conceito de "lei natural" para defender o seu ensino, o documento de trabalho confessa que "o conceito de lei natural resulta ser como tal, nos diversos contextos culturais de hoje, bastante problemático, ou até incompreensível". Como resultado, "a lei natural é compreendida como herança superada".

Ele relata que, "não só no Ocidente, mas progressivamente em todas as partes do terra, a investigação científica representa um sério desafio ao conceito de natureza. A evolução, a biologia e as neurociências, confrontando-se com a ideia tradicional de lei natural, chegam a concluir que ela não deve ser considerada 'científica'".

Isso tem consequências graves para a doutrina da Igreja. "Já que a não consideração do conceito de lei natural tende a dissolver o vínculo entre amor, sexualidade e fertilidade, entendidos como essência do matrimônio, muitos aspectos da moral sexual da Igreja hoje não são compreendidos", diz o documento de trabalho.

Uma nota feliz para os acadêmicos. Ao contrário do Instrumentum laboris de 1980, este novo documento de trabalho não culpa os teólogos dissidentes pelo fracasso dos leigos em aceitar a doutrina da Igreja sobre a ética sexual. Em vez disso, ele admite que a crise dos abusos sexuais e a vida luxuosa por parte de alguns clérigos têm ferido a credibilidade moral da Igreja.

Pode-se ver a influência do Papa Francisco no documento quando este cita o conselho prático do papa para as famílias de repetir constantemente três frases: "Com licença", "Obrigado" e "Desculpe-me". Ele também observa a necessidade de a Igreja ter "um olhar compassivo e compreensivo" e acompanhar "as famílias como são na realidade". Ele cita o papa dizendo: "Deus nunca se cansa de nos perdoar; nunca! [...] nós, às vezes, cansamo-nos de pedir perdão".

Muitos têm a esperança de que o Sínodo mostre compaixão especialmente para com aqueles que se casam após o divórcio e querem receber a comunhão. O documento relata: "Na Europa (mas também em alguns países da América Latina e da Ásia), prevalece a tendência a resolver a questão através de alguns sacerdotes que aceitem o pedido de acesso aos sacramentos".

O documento diz que, "de modo particular na Europa e na América do Norte, pede-se para facilitar o procedimento em vista da nulidade matrimonial". No Sínodo de 1980, as autoridades do Vaticano criticaram os bispos norte-americanos pela concessão de anulações com muita facilidade. Os opositores da simplificação do processo trazem os mesmos velhos medos de que "se produzam injustiças e erros; se dê a impressão de não respeitar a indissolubilidade do sacramento; se favoreça o abuso e se impeça a formação dos jovens para o matrimônio como compromisso para a vida inteira; se alimente a ideia de um 'divórcio católico'".

O documento de trabalho também observa que "alguns sugerem que se considere a prática de determinadas Igrejas Ortodoxas, que, na sua opinião, abre o caminho para um segundo ou terceiro matrimônio, com caráter penitencial". Não menciona que o Papa Francisco está entre aqueles que recomenda a consideração da prática ortodoxa.

O trabalho prossegue jogando água fria sobre essa ideia, dizendo que "dos países de maioria ortodoxa indica-se que a experiência de tais soluções não impede o número dos divórcios". De acordo com o Instrumentum laboris, "outros pedem para esclarecer se a questão é de índole doutrinal ou disciplinar".

Apesar dos inúmeros problemas citados pelo documento de trabalho, ele ainda tem a esperança de "uma nova primavera para a família", que ele acredita que será liderada por jovens que "sentem o valor do vínculo estável e duradouro, um verdadeiro desejo de matrimônio e família". Resta saber como isso pode se articular com o fato de que os jovens estão adiando o casamento, "ficando", praticando o controle artificial de natalidade e vivendo juntos antes de casar.

Com base na experiência do Sínodo de 1980, o impacto do Instrumentum laboris pode ser de curta duração. O documento de 1980 foi criticado por deixar de fora contribuições importantes de algumas Conferências Episcopais. O relatório feito, mais tarde, pelo "relator" do Sínodo, nomeado pelo Papa João Paulo II, foi muito mais importante na condução do sínodo do que o Instrumentum laboris.

O brilhantismo e as habilidades organizacionais do relator impressionaram os Padres sinodais. As previsões eram de que ele seria levado para Roma para chefiar a Congregação para a Doutrina da Fé, e um ano depois, estas previsões se tornaram realidade quando Joseph Ratzinger foi nomeado prefeito da Congregação.

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