Documento do Vaticano para o Sínodo: equilíbrio entre misericórdia e culpa da cultura

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27 Junho 2014

As dificuldades enfrentadas pelos fiéis ao redor do mundo para seguir os ensinamentos católicos derivam principalmente da educação ineficaz desses ensinamentos e do efeito penetrante de uma cultura relativista, afirma o documento de trabalho para o próximo Sínodo dos Bispos sobre a família.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 26-06-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

O documento, antecipado por muitos católicos como um barômetro para o que se pode esperar do Sínodo, também reforça fortemente os ensinamentos da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio, a limitação do casamento apenas a casais heterossexuais, e que os casais devem estar abertos a ter filhos.

Ao mesmo tempo, afirma o documento, a Igreja deve responder com misericórdia às dificuldades das famílias a aderirem aos ensinamentos, às vezes, polêmicos - como os que proíbem o divórcio e o casamento dos divorciados, a contracepção, a coabitação e o casamento de pessoas do mesmo sexo - e "apoiar estes seus filhos num percurso de reconciliação".

Divulgado pelo Vaticano na quinta-feira, 26 de junho, o documento foi elaborado para o Sínodo Extraordinário dos Bispos que se realizará em outubro. Convocado pelo Papa Francisco no ano passado, o Sínodo de 2014 é o primeiro de dois encontros anuais consecutivos dos bispos católicos de todo o mundo no Vaticano com o tema "Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização".

A Secretaria do Vaticano para o Sínodo dos Bispos redigiu o documento preparatório após uma consulta incomum, que incentivou os prelados a buscar uma amplitude de comentários por parte de sacerdotes e leigos.

Nos últimos meses, a notícia do Sínodo aumentou as esperanças de que o Papa Francisco poderia estar considerando uma mudança nas práticas pastorais da Igreja em uma série de áreas, particularmente em relação à admissão de pessoas divorciadas e recasadas à comunhão.

No entanto, o documento de quinta-feira retrata a próxima reunião como um evento para os prelados avaliarem como rearticular os ensinamentos atuais, não para avaliar os próprios ensinamentos.

O documento, conhecido em latim como Instrumentum laboris, também culpa a cultura moderna pela pobre aceitação de certos ensinamentos da Igreja pelos católicos.

As respostas à consulta global feita pela Secretaria do Sínodo - que viu as conferências episcopais de todo o mundo responderem um longo questionário sobre a forma como os católicos percebem os ensinamentos da Igreja - revelam "unanimidade também em relação aos motivos de fundo das dificuldades na aceitação do ensinamento da Igreja", como afirma o documento.

Entre os motivos: "a cultura hedonista; o relativismo; o materialismo; o individualismo; o crescente secularismo; a prevalência de concepções que levaram a uma excessiva liberalização dos costumes em sentido egoísta; (...) e uma cultura que rejeita escolhas definitivas".

O documento, que se estende por 85 páginas, é para ser usado pelos bispos de todo o mundo na preparação para os sínodos de 2014 e 2015. Foi promulgado e assinado pelo cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral da Secretaria do Sínodo das famílias. O documento está dividido em três partes:

• uma análise do "conhecimento e recepção" dos fiéis da doutrina da Igreja;
• um estudo sobre os "relativos desafios e as situações difíceis" enfrentadas pelas famílias;
• desafios pastorais relativos à "abertura à vida" e educação dos filhos.

Em alguns momentos, aborda práticas específicas, como o aborto, a contracepção, o casamento homossexual, o divórcio e o casamento de divorciados. Em outros, ele fala muito mais amplamente sobre a transmissão da fé e o contexto mais amplo dos ensinamentos da Igreja sobre a família.

Espera-se que os bispos que estarão presentes no Sínodo revisem o documento como preparação para quaisquer declarações que eles venham a fazer durante as reuniões de outubro. Essas declarações, conhecidas como intervenções, são normalmente limitadas a quatro ou cinco minutos e são submetidas para revisão antes da abertura do evento.

O Sínodo de 2014, conhecido como um Sínodo Extraordinário, será limitado principalmente aos líderes das Conferências Episcopais nacionais. O encontro de 2015 será muito maior e consistirá de vários bispos, representantes-eleitos de cada país.

Aborto, coabitação, abuso

Uma das primeiras questões que o documento menciona como uma "situação crítica" na vida da família católica é o aborto. O documento fala que muitas conferências episcopais ao redor do mundo "frisam com grande preocupação" o problema.

"Parece que em muitos aspectos a cultura dominante promove uma cultura de morte em relação à vida nascente. Estamos diante de uma cultura da indiferença em relação à vida", afirma o documento. "Não poucas intervenções frisam como também uma mentalidade contraceptiva marque de fato negativamente as relações familiares".

Mas o documento do Sínodo também aborda o que chama de "contratestemunho" para os valores da família no interior da Igreja, especificamente a persistente crise dos escândalos sexuais e alguns presbíteros que vivem um "estilo de vida por vezes vistosamente abastado".

"Com frequência e com ampla difusão a nível geográfico, nas respostas é relevante a menção dos escândalos sexuais no âmbito da Igreja (pedofilia, sobretudo), mas também em geral a de uma experiência negativa com o clero ou com outras pessoas", afirma o documento. "Sobretudo na América do Norte e na Europa Setentrional, denuncia-se uma perda relevante de credibilidade moral por causa dos escândalos sexuais".

Parte desse contratestemunhos, acrescenta o documento, também ocorre quando os membros do clero tratam os católicos separados ou divorciados indevidamente.

"Em particular, frisa-se a percepção da rejeição em relação a pessoas separadas, divorciadas ou mães solteiras por parte de algumas comunidades paroquiais, assim como o comportamento intransigente e pouco sensível de presbíteros ou, mais em geral, a atitude da Igreja, sentida em muitos casos como excludente, e não como de uma Igreja que acompanha e ampara", declara o texto do documento.

"Neste sentido, sente-se a necessidade de uma pastoral aberta e positiva, que seja capaz de voltar a dar confiança na instituição, através de um testemunho credível de todos os seus membros", ele continua.

O documento também aborda especificamente a coabitação, dizendo que ela se tornou uma "forma estável de vida" para os casais da Europa e da América do Norte.

"Frequentemente, a convivência e as uniões livres são sintoma do fato que os jovens tendem a prolongar a sua adolescência e pensam que o matrimônio é demasiado comprometedor, e sentem medo diante de uma aventura demasiado grande para eles", afirma o documento.

"A este propósito, entre as possíveis linhas de ação pastoral considera-se essencial ajudar os jovens a sair de uma visão romântica do amor, entendido apenas como um sentimento intenso pelo outro, e não como resposta pessoal a uma outra pessoa, no âmbito de um projeto comum de vida, no qual se descerram um grande mistério e uma grande promessa", diz o documento.

Divórcio e divorciados recasados

O documento trata com grande extensão a separação, o divórcio e as segundas núpcias de divorciados, dedicando oito páginas ao assunto. Afirma várias vezes como os relatórios das conferências episcopais, de forma global, mencionam a dor e o sofrimento dos divorciados e recasados católicos que desejam receber a comunhão.

"O sofrimento causado pela não-recepção dos sacramentos está claramente presente nos batizados que estão conscientes da própria situação", afirma o documento. "Muitos sentem-se frustrados e marginalizados. Alguns perguntam-se por que motivo outros pecados são perdoados e este não".

"Noutros casos, não se compreende como a própria situação irregular é o motivo para não poder receber os sacramentos", continua o documento. "Ao contrário, considera-se que a culpa é da Igreja, que não admite tais circunstâncias. Nisto, indica-se também o risco de uma mentalidade reivindicativa em relação aos sacramentos. Além disso, é muito preocupante a incompreensão da disciplina da Igreja, quando nega o acesso aos sacramentos em tais casos, como se se tratasse de uma punição".

Enquanto o documento não delineia mudanças nas práticas da Igreja sobre o assunto, ele obliquamente refere-se a tais mudanças, dizendo que existe "a necessidade de que a Igreja se dote de instrumentos pastorais mediante os quais se abra a possibilidade dela exercer uma misericórdia, clemência e indulgência mais amplas em relação às novas uniões".

O documento também afirma que algumas respostas recomendam a adoção da abordagem assumida pelas Igrejas Ortodoxas Orientais, que permitem que os membros divorciados se casem novamente em uma cerimônia especial que enfatiza a penitência pela perda do primeiro casamento.

"A este propósito, dos países de maioria ortodoxa indica-se que a experiência de tais soluções não impede o aumento dos divórcios", afirma o documento do Sínodo. "Outros pedem para esclarecer se a questão é de índole doutrinal ou apenas disciplinar".

O documento também aborda o processo de nulidade, dizendo que algumas respostas pediram que ele torne mais fácil para os católicos receberem anulações, enquanto outros defenderam a prática atual.

Entre as razões dadas para defender o atual processo: "o risco que mediante tal simplificação, e facilitando ou reduzindo os passos previstos, se produzam injustiças e erros" ou que "se dê a impressão de não respeitar a indissolubilidade do sacramento".

Outros, afirma o documento, pediram que haja um processo mais simples e mais rápido de anulação que conceda mais autoridade aos bispos locais, envolva mais leigos nos tribunais que determinam quais anulações são concedidas, e reduza os custos para as pessoas separadas.

Sem dúvida, nesses casos, a Igreja não deve assumir a atitude de juiz que condena, mas a de uma mãe que acolhe sempre os seus filhos e cuida das suas feridas em vista da cura", afirma o documento. "Com grande misericórdia, a Igreja é chamada a encontrar formas de 'companhia' com as quais apoiar estes seus filhos num percurso de reconciliação", ele continua. "Com compreensão e paciência, é importante explicar que a impossibilidade de aceder aos sacramentos não significa ser excluídos da vida cristã e da relação com Deus".

Uniões do mesmo sexo, contracepção

O documento reafirma, sem rodeios, a oposição católica tanto para o casamento de pessoas do mesmo sexo quanto para a contracepção artificial.

Sobre a primeira questão, o documento afirma: "todas as Conferências Episcopais se expressaram contra uma 'redefinição' do matrimônio". Algumas respostas "recomendam que não se faça coincidir a identidade de uma pessoa com expressões como 'gay', 'lésbica' ou 'homossexual'".

Ele afirma: "o grande desafio será o desenvolvimento de uma pastoral que consiga manter o justo equilíbrio entre acolhimento misericordioso das pessoas e acompanhamento gradual rumo a uma autêntica maturidade humana e cristã".

O documento dedica seis páginas à contracepção, às vezes, defendendo ferozmente a encíclica Humanae vitae, do Papa Paulo VI, que considerou o uso de contraceptivos artificiais por parte dos católicos como pecaminoso.

"A encíclica Humanae vitae teve um significado indubitavelmente profético ao confirmar a união inseparável entre o amor conjugal e a transmissão da vida", afirma o documento. Ele diz que os aspectos positivos dos ensinamentos do Papa Paulo VI são desconhecidos por muitos.

"Em algumas respostas comparam-se a difundida mentalidade contraceptiva com a presença maciça da ideologia do gender, que tende a modificar algumas estruturas fundamentais da antropologia, entre as quais o sentido do corpo e da diferença sexual, substituída pela ideia da orientação de gênero, a ponto de chegar a propor a subversão da identidade sexual", afirma o texto.

"A esse propósito sobressai, de muitas partes, a necessidade de ir mais além das condenações genéricas contra tal ideologia cada vez mais invasiva, para responder de maneira fundada a tal posição, hoje amplamente difundida em muitas sociedades ocidentais".

Para ajudar na divulgação dos argumentos da Igreja contra a contracepção, o documento sugere que as paróquias tenham apresentações em favor dos chamados métodos naturais de planejamento familiar, "em colaboração com pessoas verdadeiramente preparadas, tanto do ponto de vista médico como pastoral".

O documento também sugere "que se reserve maior espaço a esta temática no âmbito da formação dos futuros presbíteros nos seminários, considerando que os sacerdotes resultam às vezes despreparados para enfrentar tais temáticas e, às vezes, oferecem indicações inexatas e desviantes".

Nota da IHU On-Line: A íntegra do documento pode ser lida, em português, aqui.

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