Todas as batalhas de Kirill

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Por: André | 09 Junho 2014

É uma época complicada para o patriarca ortodoxo de Moscou: um momento que não pode não ter repercussões no longo prazo nas relações entre as Igrejas do mundo ortodoxo e, naturalmente, com Roma. Recentemente uma notícia da AsiaNews, até hoje não confirmada oficialmente, assegurava que o Papa Francisco teria enviado uma mensagem pessoal ao patriarca Kirill. Uma mensagem que não foi enviada através de canais diplomáticos, na qual o Papa teria dito a Kirill: “Estou preparado para uma reunião neste momento”.

 
Fonte: http://bit.ly/Ti7mQx  

A reportagem é de Marco Tosatti e publicada no sítio Vatican Insider, 05-06-2014. A tradução é de André Langer.

E isto é um problema. Por um lado, por questões de equilíbrio interno no Santo Sínodo, onde a ala anticatólica foi, desde sempre, muito forte. Já o Papa Wojtyla buscou estabelecer um contato pessoal (com a doação do ícone de Kazan) sem sucesso. João Paulo II era eslavo, polonês, e talvez Moscou temesse seu carisma. Mais tarde falou-se de um possível encontro com Bento XVI; mas a ideia encontrou vários obstáculos, sempre pelo lado oriental. Agora o problema volta a aparecer com Francisco: tudo parece simpático e positivo, neste sucessor de Pedro, que garante estar disposto (assim como seus antecessores) a discutir seu papel na Igreja. Mas como se faz isso?

O problema se aprofundou a partir da presença cada vez mais constante e apreciada do grande adversário de Moscou ao lado do Papa. O patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, primus inter pares entre os ortodoxos, foi um dos protagonistas da viagem do Papa à Terra Santa e estará ao seu lado no próximo domingo, dia 08, na oração pela paz na Terra Santa. São eventos que relançam seu papel, e em consequência, fragilizam ainda mais as aspirações do Patriarcado de Moscou a uma posição de liderança na Igreja ortodoxa, à custa de Constantinopla. Não se exclui o fato de que a disponibilidade do Papa Bergoglio para encontrar Kirill se reafirme justamente para temperar os aparentes favoritismos de Roma por Bartolomeu; mas é evidente que na silenciosa batalha entre a Segunda e a Terceira Roma, a Segunda, Constantinopla, está ganhando pontos.

E depois está a crise na Ucrânia. O Patriarcado de Moscou, sólida base religiosa da política interna de Putin, assumiu uma posição basicamente prudente na crise ucraniana. A Crimeia converteu-se – por enquanto – em território russo. E Moscou tem não poucos problemas com os tártaros, muçulmanos, a cujo líder foi negado o visto de entrar novamente na península, e que se negam a se dobrar ao estado de fato. Uma Crimeia russa teria tido, como consequência natural, a passagem da Igreja Ortodoxa de obediência moscovita, sob o controle direto do Patriarcado. E, no entanto, o Patriarcado decidiu, como gesto “para os irmãos ortodoxos ucranianos”, que as três dioceses que cobrem o território da Crimeia continuem a responder à Igreja ortodoxa ucraniana de obediência moscovita. (Existem, além disso, outras duas Igrejas ortodoxas ucranianas.) Todos os bispos e sacerdotes da Crimeia – e trata-se de não menos de 150 paróquias – mantiveram seu posto.

Boa vontade, um pouco de vergonha, e talvez também o desejo de evitar grandes problemas no Concílio da Igreja ortodoxa russa, onde 76 dos 318 bispos são ucranianos frente a 180 russos. Está claro que numa situação de conflito aberto no leste deste país, a tentação da Igreja ortodoxa da Ucrânia de se emancipar da tutela moscovita é forte; como ocorreu em 1992 com a criação de uma Igreja autônoma. Não é por acaso que o Patriarcado de Moscou tenha divulgado nos últimos meses apelos à paz do metropolita Onofrio de Kiev; um movimento do qual provavelmente Putin não gostou.

E esta obrigada moderação fez com que o Patriarcado de Moscou tenha perdido a posição contra o inimigo favorito dos ortodoxos russos, ou seja, a Igreja greco-católica ucraniana. Falando na Bielorússia, o metropolita Hilarión, o ‘Ministério do Exterior’ do Patriarcado, acusou os greco-católicos de “ter desempenhado um papel destrutivo” na crise. “Ao contrário da Igreja ortodoxa canônica ucraniana – disse –, que foi capaz de, durante estes meses difíceis, unir pessoas de diferentes pontos de vista políticos, inclusive aquelas que participaram das barricadas, os ‘uniatas’ (termo negativo usado pelos ortodoxos para identificar os greco-católicos, N.D.R.), se posicionaram de maneira aberta a favor de uma das partes do conflito”.

Hilarión recordou o Concílio de Brest, de 1595, no qual se decidiu pelo retorno à comunhão com Roma das dioceses ortodoxas ucranianas e bielorussas. E acusou os greco-católicos atuais de trabalhar contra o diálogo entre católicos e ortodoxos, e de trazer de volta “os tempos em que os ortodoxos e os católicos se olhavam mutuamente não como amigos, mas como rivais”.

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