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16 Maio 2014

"Piketty nos adverte para que não nos deixemos iludir pela aparente estabilidade e prosperidade que foi a experiência comum das economias avançadas durante umas poucas décadas na segunda metade do Século XX. Segundo a narrativa de Piketty, são as forças promotoras de desigualdade e desestabilizadoras que podem ser as dominantes no capitalismo", afirma Dani Rodrik, professor de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, Nova Jersey, em artigo publicado no jornal Valor, 15-05-2014. 

Segundo ele, "Capital in the Twenty-First Century" reacendeu o interesse dos economistas na dinâmica da riqueza e em sua distribuição - um tema que preocupou economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. O livro colocou em debate público detalhes empíricos cruciais e um arcabouço analítico simples, porém útil. Quaisquer que sejam as razões de seu sucesso, já deu uma contribuição inegável, tanto para a ciência econômica como para a discussão pública".

Eis o artigo.

Onde quer que eu vá e seja lá com quem me encontre, atualmente, perguntam-me a mesma coisa: O que você acha de Thomas Piketty? São, na realidade, duas perguntas numa só: O que você acha de Piketty (seu livro), e o que acha de Piketty (o fenômeno)?

A primeira indagação é muito mais fácil de responder. Por pura sorte, fui um dos primeiros leitores da versão em inglês de "Capital in the Twenty-First Century" (o capital no Século XXI). A editora de Piketty, Harvard University Press, enviou-me as provas finais, na esperança de que eu contribuiria com uma sinopse para a contra-capa. Eu o fiz com satisfação, pois considerei notáveis a abrangência, profundidade e ambição do livro.

Eu tinha, certamente, familiaridade com o trabalho empírico de Piketty sobre distribuição de renda, empreendido com Emmanuel Saez, Anthony Atkinson e outros. Essa pesquisa já havia produzido novas descobertas alarmantes sobre o aumento das rendas dos super-ricos. A pesquisa havia mostrado que a desigualdade em muitas economias avançadas atingiu níveis não vistos desde o início do século XX. A investigação, em si mesma, foi um feito brilhante.

Mas o livro é muitíssimo mais do que trabalho empírico, e constitui uma interessantíssima narrativa acauteladora sobre a dinâmica da riqueza sob o capitalismo. Piketty nos adverte para que não nos deixemos iludir pela aparente estabilidade e prosperidade que foi a experiência comum das economias avançadas durante umas poucas décadas na segunda metade do Século XX. Segundo a narrativa de Piketty, são as forças promotoras de desigualdade e desestabilizadoras que podem ser as dominantes no capitalismo.

Talvez mais do que o argumento propriamente dito, o que torna "Capital in the Twenty-First Century" uma ótima leitura é a sensação de assistirmos um embate de uma mente soberba com as grandes questões de nosso tempo. A ênfase de Piketty na natureza política da distribuição de renda; seu sutil vai-e-vem entre as leis gerais do capitalismo e o papel desempenhado pelo acaso; e seu empenho em oferecer ousados (ainda que, para muitos, impraticáveis) remédios para salvar o capitalismo de si mesmo, são tão novos quanto raros para um economista.

Por isso, eu teria gostado de dizer que pude prever o enorme sucesso acadêmico e popular que o livro teria ao ser publicado. Na realidade, a recepção ao livro foi uma grande surpresa.

Por um lado, a obra dificilmente pode ser considerada de leitura fácil. Tem quase 700 páginas (incluindo as notas) e, embora Piketty não dedique muito espaço a formalizações teóricas, ele não se abstém de incluir uma equação ocasional ou letras gregas ao longo do texto. Os críticos deram muito realce às referências de Piketty a Honoré de Balzac e Jane Austen; entretanto, o fato é que o leitor encontrará principalmente a prosa seca e estatísticas de um economista, ao passo que as referências literárias são poucas e esparsas.

A reação dos economistas não foi uniformemente positiva. O argumento do livro gira em torno de uma série de identidades contábeis que relacionam poupança, crescimento e retorno do capital à distribuição da riqueza em uma sociedade. Piketty é exímio em trazer essas relações abstratas à vida ao associar números reais a elas e ao identificar sua evolução ao longo da história. Mas essas relações são bem conhecidas dos economistas.

O prognóstico pessimista de Piketty repousa sobre uma pequena extensão desse arcabouço contabilístico.

Com base em pressupostos plausíveis - a saber, que os ricos poupem o suficiente - a proporção entre riqueza herdada e renda (ou salários) continua a crescer, desde que r , a taxa média de retorno do capital, exceda g, a taxa de crescimento da economia como um todo. Piketty argumenta que essa tem sido a norma histórica, exceto durante a tumultuada primeira metade do Século XX. Se é assim que se nos apresenta o futuro, estamos diante de uma distopia na qual a desigualdade crescerá a níveis nunca antes vividos.

Mas, em economia é perigoso extrapolar e as evidências que Piketty apresenta para sustentar seu argumento são pouco conclusivas. Como muitos têm argumentado, o retorno do capital, r, pode muito bem começar a declinar se a economia tornar-se muito rica em capital em relação ao trabalho e a outros fatores, e se a taxa de inovação diminuir. Alternativamente, como outros já apontaram, a economia mundial pode ganhar velocidade, impulsionada pela evolução do mundo emergente e em desenvolvimento. A visão de Piketty precisa ser levada a sério, mas não pode ser considerada lei absoluta.

Talvez a fonte do sucesso do livro deva ser buscada no "zeitgeist". É difícil acreditar que a obra tivesse produzido o mesmo impacto há dez ou mesmo cinco anos, na esteira imediata da crise financeira mundial, apesar de argumentos e provas idênticas pudessem ter sido arrolados naquele momento. Uma inquietação sobre a crescente desigualdade vem se acumulando há algum tempo nos EUA. A renda da classe média continua estagnada ou em queda, apesar da recuperação da economia. Parece agora aceitável falar da desigualdade nos EUA como a questão central com que se defronta o país. Isso poderia explicar por que o livro de Piketty tem recebido maior atenção nos EUA do que em sua França natal.

"Capital in the Twenty-First Century" reacendeu o interesse dos economistas na dinâmica da riqueza e em sua distribuição - um tema que preocupou economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. O livro colocou em debate público detalhes empíricos cruciais e um arcabouço analítico simples, porém útil. Quaisquer que sejam as razões de seu sucesso, já deu uma contribuição inegável, tanto para a ciência econômica como para a discussão pública. 

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