Jesus e as mulheres: “Vocês estão livres” (I). Artigo de Elizabeth Johnson

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28 Julho 2014

"Jesus estava ensinando numa das sinagogas em dia de sábado. Havia aí uma mulher que, fazia 18 anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. Vendo-a, Jesus dirigiu-se a ela e disse: “Mulher, você está livre da sua doença.” Jesus colocou as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus. (Lc, 13,10-13)", escreve Elizabeth Johnson, professora de Teologia na Universidade de Fordham, em Nova York em artigo publicado no Global Sisters Report, 22-04-2014.

Elizabeth A. Johnson, religiosa da Congregação das Irmãs de São José, é professora de teologia na Universidade de Fordham, em Nova York. Ela irá receber o Prêmio Liderança de Destaque da LCWR (LCWR Outstanding Leadership Award) na assembleia anual da organização, a ocorrer Nashville, Tennessee, em agosto.

Nota do editor: O texto original foi publicado em bósnio sob o título “Isus I Žene: Uspravite Se!”, na edição especial de 2012 (Isus iz Nazareta: U Perspektivi Medureligijskog Dijaloga) da revista franciscana, com sede em Saraievo, chamada Svjetlo Riječi. Pediu-se a Johnson para abordar o assunto mulher em ensaios sobre o significado de Jesus Cristo numa sociedade pluralista e multirreligiosa (católica, ortodoxa, muçulmana e ateia).

Primeira parte de uma série de dois artigos. A segunda parte pode ser lida aqui.

Eis o artigo.

Há uma cena poderosa nos evangelhos que mostra o quão cheio de vida pode ser o encontro entre Jesus e as mulheres.

Jesus estava ensinando numa das sinagogas em dia de sábado. Havia aí uma mulher que, fazia 18 anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. Vendo-a, Jesus dirigiu-se a ela e disse: “Mulher, você está livre da sua doença.” Jesus colocou as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus. (Lc, 13,10-13).

Observemos o ambiente: um lugar sagrado onde a comunidade se reúne em dia de sábado

Observemos também a posição de Jesus: na frente e ao centro, a posição famosa do mestre que instrui o grupo. É um momento solene. A mulher entra silenciosamente. Ela não é alguém importante. Por quase duas décadas andou pelo mundo curvada, acometida por uma terrível doença, uma figura deplorável aos olhos dos seus outros. Ao menos que faça um enorme esforço, tudo o que ela vê é o chão. Agora ela só quer ouvir e orar.

Mas Jesus está atento: ele poderia ter dado continuidade ao seu ensino, mas, como sabemos por outras histórias, um sentimento de compaixão apossa-se de seu coração. Ele para no meio do caminho e lhe dá total atenção. Perante toda a assembleia, ele a chama à frente, estende a ela sua mão, e suas palavras poderosas junto de seu toque de cura trazem força à sua condição de enferma. “Mulher, você está livre de sua doença”.

Imaginemos como foi a sensação de ficar em pé, de levantar a cabeça, de olhar ao redor e ver os rostos em vez do chão. Uma nova forma de vida se abre diante dela. E esta mulher soube a quem agradecer. Ela louva a Deus por tê-la mostrado uma tal misericórdia através da bondade de seu profeta e mestre, Jesus de Nazaré.

As cristãs de hoje leem esta história como uma revelação do que a sua relação com Jesus pode ocasionar. Encurvadas por muitas forças, elas encontram na sua compaixão poderosa um estímulo para a libertação, capacitando-as a se colocarem de pé. Estudiosas estão descobrindo que existem muitas cenas como esta no Novo Testamento que mostram o amor de Jesus pelas mulheres, a sua preocupação com o bem-estar e o efeito libertador dele em suas vidas. Ao longo dos séculos, porém, o poder destas histórias muitas vezes foi ignorado porque os homens que, em geral, pregaram e ensinaram não consideravam o sofrimento que as mulheres carregavam.

Os fardos

Sociedade – Consideremos estas estatísticas da ONU: as mulheres, que formam a metade da população mundial, trabalham três quartos das horas laborais em todo o mundo; recebem um décimo dos salários; possuem 1% das terras do planeta; formam dois terços dos adultos analfabetos; e juntamente com seus filhos dependentes formam três quartos das pessoas que passam fome.

Para apresentarmos um quadro desolador ainda pior, as mulheres estão sujeitas à violência doméstica no lar e são estupradas, prostituídas, traficadas (escravidão sexual) e assassinadas por homens em um grau que não é recíproco. Em relação à educação, emprego e outros bens sociais, os homens têm vantagens simplesmente por terem nascidos como tais. Preconceitos raciais e étnicos acrescentam outra desvantagem às mulheres bem como o privilégio de classe, que desrespeita aquelas que são pobres. Cada cultura tem uma dinâmica diferente. Mas são sempre as mulheres que são consideradas de menor valor.

Esta situação, chamada de “sexismo” (ou preconceito contra as mulheres por causa de seu sexo), é galopante numa escala global. Assinalar isto não é fazer das mulheres uma classe de vítimas, mas ressaltar as estatísticas que deixam claras as lutas que elas enfrentam na sociedade por causa do gênero. Em país algum do mundo as mulheres e os homens são tratados de forma igual, condizente com a dignidade humana.

Em 1995, as Nações Unidas realizaram uma conferência sobre mulher em Pequim. Evento histórico, este foi o primeiro encontro em que participaram mulheres de todos os países do mundo. Na ocasião, o Papa João Paulo II escreve uma “Carta às mulheres”, dando apoio à agenda do evento relativa à igualdade social:

“Urge conseguir onde quer que seja a igualdade efetiva dos direitos da pessoa e, portanto, idêntica retribuição salarial por categoria de trabalho, tutela da mãe-trabalhadora, justa promoção na carreira, igualdade entre cônjuges no direito de família, o reconhecimento de tudo quanto está ligado aos direitos e aos deveres do cidadão num regime democrático. Trata-se não só de um ato de justiça, mas também de uma necessidade”. (Carta às mulheres, Conferência Mundial sobre a Mulher, julho de 1995, parágrafo 4.)

Esta carta foi muito bem-recebida, colocando a Igreja Católica diretamente ao lado das mulheres na luta por justiça. O movimento para a construção da igualdade das mulheres no direito e na cultura é, em verdade, um movimento pela justiça social em conformidade com a doutrina social católica. Por sua vez, baseia-se na verdade segundo a qual as mulheres, assim como os homens, foram criadas à imagem e semelhança de Deus e que devem viver com a dignidade condizente a todas as pessoas humanas.

No entanto, há problemas na própria Igreja que o papa não abordou.

Igreja – O cristianismo tomou forma na cultura do Império Romano, onde os homens de elite possuíam o poder sobre homens inferiores, mulheres, crianças e escravos. Esta estrutura social, chamada patriarcado (o governo do pai), é um arranjo em forma piramidal em que o poder está sempre nas mãos de um homem – ou de grupo de homens – dominante. Na medida em que a Igreja cresce e se estabelece, seus líderes acabaram adotando este padrão para si. Dentro desse sistema, alguns homens podem ter bastante respeito pelas mulheres e mesmo gostar delas. Mas elas são necessariamente colocadas em papéis desiguais e predeterminados. Os homens ensinam e decidem; as mulheres escutam e obedecem.

A Igreja reflete esta desigualdade em todos os seus aspectos. Textos sagrados, símbolos religiosos, doutrinas, ensinamentos morais, leis canônicas, rituais e autoridades governantes são todos projetados e liderados por homens. Na maior parte das vezes, até mesmo Deus é imaginado como um patriarca poderoso no céu governando a terra e seus povos. Por sua vez, este patriarcado sagrado justifica o governo dos homens sobre as mulheres – na família e na sociedade em geral.

Embora as histórias sejam diferentes, um padrão semelhante aflige todas as religiões do mundo.

A teologia segundo as mulheres

Tendo em vista estes fardos, atualmente as teólogas estão descobrindo que o poder do encontro com Jesus é libertador. As suas palavras às mulheres do primeiro século ecoam através dos tempos: “Mulher, você está livre de sua doença”.

O fato de haver teólogas percebendo isso é um desenvolvimento surpreendente. Por 2000 anos quase toda a teologia cristã foi feita por homens. Depois que o Concílio Vaticano II (1952-1965) abriu o estudo da teologia aos leigos na Igreja, muitas mulheres começaram a se instruir nesta área. O trabalho da teologia, segundo a famosa definição de Anselmo de Canterbury, é “a fé que busca a compreensão”. A meta deste pensamento é lançar luz sobre o significado da fé para que ela possa ser vivida de forma mais vibrante, com mais amor.

As mulheres trouxeram para este trabalho uma nova perspectiva, fazendo perguntas que surgem a partir das experiências de vida – e do sofrimento – delas. Este tipo de teologia é comumente chamado teologia “feminista”, do latim “femina”, isto é, mulher. Esta teologia vê a fé com os olhos das mulheres. Vê o que está errado ou faltando na forma como a fé, ou a religião, vem sendo apresentada até então, na medida em que ignora ou sobrecarrega as mulheres. Esta teologia vasculha a tradição em busca de elementos libertadores poderosos que podem transformar a vida hoje.

A visão que orienta a teologia feminista é aquela que Jesus pregou, centrada no seu frequente uso do símbolo “o Reino de Deus”. Este reino traz uma nova forma de comunidade onde as pessoas vivem em mútuo respeito uns pelos outros e pelas demais criaturas vivas da terra. O objetivo não é reverter a discriminação, [não é estabelecer] uma comunidade onde as mulheres dominem os homens; isso iria apenas dar continuidade à injustiça porém numa nova forma. Pelo contrário, as mulheres sonham com um novo céu e uma nova terra, onde não haja um grupo dominando e nenhum grupo sendo dominado; elas desejam que cada pessoa seja amada e participe segundo os dons que Deus lhe deu, em relações recíprocas genuínas. Com esta esperança, o trabalho da teologia feminista, hoje, enfatiza uma nova apreciação do significado de Jesus Cristo para os seres humanos que são mulheres.

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