Papa Francisco não será leniente com padres pedófilos

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21 Janeiro 2014

O Papa Francisco não irá mostrar leniência com relação a padres pedófilos, porque a verdade e a justiça são mais importantes do que a proteção à Igreja, disse o ex-promotor da Igreja para crimes sexuais no último sábado, 18 de janeiro de 2014.

A reportagem é de Philip Pullella, publicada no sítio Reuters, 18-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Monsenhor Charles Scicluna, a maior autoridade católica sobre a crise dos abusos sexuais da Igreja, contou também à agência de notícias Reuters que o número de padres excomungados pelo Vaticano pode ter caído para 100 em 2013, um número menor do que os 125 relativos ao ano de 2012.

Apesar de sua natureza misericordiosa, disse o papa, o Monsenhor Scicluna agirá de forma dura quanto a padres pedófilos após uma crise advinda dos escândalos sexuais, a qual o papa chamou de “a vergonha da Igreja” na última quinta-feira.

“Tenho me encontrado com o Papa Francisco e ele vem demonstrando grande admiração para continuar na linha de seus predecessores”, disse Scicluna, que trabalhou no Vaticano pro 17 anos antes de ter sido nomeado bispo auxiliar em Malta, no ano de 2012.

“O seu evangelho de misericórdia é muito importante, mas não é uma misericórdia barata. Ela precisa respeitar a verdade e as exigências da justiça”, Scicluna falou em entrevista por telefone.

O papa, que foi eleito em março de 2013, criou uma comissão de especialistas em dezembro para enfrentar o abuso sexual de crianças na Igreja. Este foi seu primeiro grande passo para enfrentar uma crise que tem assolado a instituição por duas décadas.

O grupo vai estudar formas para melhor vigiar os sacerdotes. Irá também proteger menores e ajudar vítimas no enfrentamento das acusações em que o Vaticano não fez o suficiente para dar proteção às pessoas vulneráveis e ou fazer as pazes.

O Monsenhor foi o especialista do Vaticano na última quinta-feira em Genebra, ocasião em que os especialistas para a proteção dos direitos da criança da ONU pressionaram os delegados da Santa Sé a revelarem o escopo dos abusos sexuais de menores feitos por padres.

Uma bênção

Apesar da situação em que estava a delegação vaticana, sem precedentes na história, Scicluna disse que a experiência foi muito frutífera para a Igreja. “Temos uma grande responsabilidade para com o nosso povo (…). Creio que foi uma bênção termos este encontro (em Genebra) antes que a comissão esteja configurada”, disse. A comissão ainda está sendo constituída e seus membros estão sendo escolhidos aos poucos.

Scicluna confirmou os documentos publicados pelo Vaticano, que mostram que em 2011 o número de padres excomungados atingiu um pico recente: cerca de 260.

Ele disse que o aumento foi devido a “problemas de acúmulo de contingente junto de casos históricos”. Disse também que esperava que os números se “estabilizassem” para cerca de 100 casos em 2013.

Scicluna disse que os números, na maior parte dos anos, são compostos por aproximadamente 50% de sacerdotes que foram ativamente excomungados e que os demais são constituídos por padres que pediram para deixarem o sacerdócio antes que eles “admitissem seus crimes”. “O desligamento é imposto e a dispensa pressupõe um pedido do padre, porém o resultado é o mesmo”, disse ele.

Em 2012, enquanto desempenhava sua função anterior no Vaticano, Scicluna criou uma celeuma ao pronunciar a palavra “omertã” – normalmente usada para descrever o código de silêncio da máfia siciliana – para se referir à crise dos abusos sexuais na Igreja.

No sábado, ele a usou novamente em uma de suas respostas. “Acho que há um claro sinal de que o ‘omertã’ não é a forma como a Igreja deve responder”, afirmou o religioso. “Estou convencido de que a melhor coisa para a instituição é admitir os próprios erros perante a verdade, seja ela qual for”.

A Igreja teve que pagar centenas de milhares de dólares em indenização de casos de abusos sexuais em todo o mundo, levando à falência uma série de dioceses. Na última quinta-feira o papa disse ser justo pagar indenizações às vítimas.

Grupos formados por vítimas de abuso sexual por parte do clero precisam ser constituídos no intuito de proteger as crianças, e que bispos que foram acusados de acobertamento de crimes, ao deslocar padres de sua paróquia, deveriam ser responsabilizados.