Os projetos faraônicos de urbanismo que desencadearam os tumultos em Istambul

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07 Junho 2013

Um pequeno parque com 600 árvores. Foi de lá que partiu o grande movimento de protestos que vem abalando Istambul há uma semana. Para a população, o projeto de urbanização que prevê a eliminação do espaço verde Gezi, um dos raros da megalópole turca, foi a gota d'água, neste momento em que o governo tem lançado cada vez mais obras urbanísticas faraônicas de maneira autoritária.

A reportagem é de Audrey Garric, publicada no jornal Le Monde e reproduzida pelo portal Uol, 05-06-2013.

Situado na emblemática praça Taksim, centro moderno da cidade, ponto de encontro de manifestações da sociedade civil e local histórico – no dia 1o de maio de 1977, dezenas de manifestantes foram mortos ali em circunstâncias ainda não elucidadas –, o parque Gezi deve ceder lugar a réplicas de antigos quartéis militares do império Otomano que abrigariam um centro cultural, um museu da cidade e um shopping center. A chegada de escavadeiras com o intuito de arrancar as árvores, na segunda-feira (27), levou a violentos confrontos entre a polícia e manifestantes; conflitos que teriam resultado em dois mortos e mais de mil feridos em uma semana.

Influência do governo sobre a urbanização

A iniciativa desse polêmico projeto cabe à prefeitura de Istambul, nas mãos do AKP, partido islamita-conservador do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, ex-prefeito da cidade. Oficialmente, o objetivo seria devolver aos pedestres a praça, que por anos foi estrangulada pela circulação de automóveis. Assim, em novembro foram perfurados túneis ali para os carros passarem. Mas vários arquitetos, urbanistas e ambientalistas acreditam que o novo projeto trará mais motoristas para a Taksim. E, acima de tudo, todos veem ali mais um exemplo da influência do governo sobre a urbanização.

"Nos últimos dez anos Istambul vem passando por um boom de projetos urbanísticos, que se acelerou nos dois últimos anos. O primeiro-ministro quer fazer da cidade a vitrine internacional da Turquia", explica Benoît Montabone, geógrafo na Universidade de Rennes e especialista em urbanização turca. "Recep Tayyip Erdogan está tentando se estabelecer como realizador de obras antes da eleição presidencial de 2014. Ele quer reviver a antiga potência otomana".

De fato, o governo tem realizado cada vez mais projetos de visibilidade. Na quarta-feira (29), o primeiro-ministro inaugurou a obra de uma terceira ponte sobre o Bósforo, entre a Europa e a Ásia. Com uma extensão de 1,3 quilômetro, ela deve ser ligada a uma nova estrada periférica, que ameaça 85 mil hectares de florestas protegidas, segundo a câmara dos planejadores urbanos de Istambul. O governo também ordenou a demolição de imóveis antigos, cinemas e teatros, para dar lugar a novos shopping centers, bem como a renovação do bairro central de Tarlabasi, confiada ao grupo Calik, dirigido pelo genro de Erdogan.

O frenesi construtor do governo parece incansável. Além de um terceiro aeroporto de dimensões colossais, Erdogan quer construir em breve uma mesquita, "a maior do mundo", na colina Camlica, que domina toda a cidade. E ele não pretende parar por aí: o primeiro-ministro criou o projeto "maluco", segundo seus próprios termos, de inaugurar para o centenário da República Turca em 2023 um gigantesco canal de 150 metros de largura e 50 quilômetros de extensão, o "Kanal Istanbul". Paralela ao Bósforo, essa via hídrica ligaria o mar de Marmara ao mar Negro e deverá permitir desafogar o tráfego marítimo no estreito. Isso também teria consequências ambientais, uma vez que o traçado do canal pode levar a poluir a água doce dos lagos ao noroeste de Istambul, da qual a cidade depende para seu consumo.

Laços estreitos entre as construtoras e o AKP

Outra ameaça ao meio ambiente é o fato de que esses projetos de infraestrutura vêm acompanhados de amplas operações imobiliárias, que evidenciam os laços estreitos entre as construtoras e o AKP. "Centenas de milhares de casas serão destruídas nos próximos cinco a dez anos, sob pretexto de que elas não estariam dentro das normas antissísmicas", observa Yoann Morvan, pesquisador no observatório urbano de Istambul. "Ao reconstruir cidades satélites em outros lugares, o primeiro-ministro dá trabalho às empresas de obras públicas próximas do governo, sobretudo o órgão paraestatal Toki, ao mesmo tempo em que recompõe os bairros que não lhe eram favoráveis".

Há também centenas de projetos imobiliários privados, da mesma forma que os grandes shopping centers, provas de uma sociedade de consumo cada vez mais rejeitada à medida que crescem as desigualdades.

Por que, então, o movimento de protestos não estourou antes? "Existe um fastio diante de um acúmulo de projetos urbanísticos muito nebulosos, sem consulta à população, que se sente desprovida. Mas, acima de tudo, isso vem ocorrendo em um contexto de abuso autoritário do governo", acredita Elise Massicard, analista política no Instituto Francês de Estudos Anatolianos e pesquisadora associada ao CERI. Na semana passada, a votação de uma lei que restringe o consumo e a venda de álcool suscitou a ira dos meios liberais. Outro motivo de descontentamento foi a proibição da manifestação do Primeiro de Maio na praça Taksim, em virtude das obras.

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