"Erdogan pensa que pode fazer o que quiser"

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04 Junho 2013

Movido por uma crescente autoconfiança, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan tem tido atitudes "arbitrárias", que explicam a eclosão dos protestos na Turquia. Mas o "dilema" dos turcos é que o principal partido de oposição, o CHP, ligado aos nacionalistas e militares, também não prima pelos valores democráticos. É o que afirma o cientista político turco Sahin Alpay, professor da Universidade Bahcesehir, em Istambul.

A entrevista é de Lourival Santanna e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 04-06-2013.

Eis a entrevista.

Quais as principais motivações dos protestos?

As manifestações começaram em protesto contra a derrubada de árvores na Praça Taksim, para abrir espaço para a construção de um hotel e um shopping center na réplica de um forte do século 17 destruído. Mas evoluíram para um protesto coletivo que uniu todos os críticos desse ou daquele aspecto das políticas do governo. O principal problema desse governo é que, desde que obteve 50% dos votos nas últimas eleições, em 2011, Erdogan pensa que pode fazer o que quiser - suprimir as críticas, manipular a mídia, desconsiderar as sensibilidades dos alevitas (membros de uma seita muçulmana), restringir severamente o consumo de álcool, resistir à fiscalização dos gastos públicos, etc. É a sua virada em direção à arbitrariedade e ao autoritarismo de maioria.

Há uma divisão na sociedade quanto ao papel da religião?

Na Turquia, 90% dos habitantes são religiosos, mas a parcela que aprova a implementação da lei islâmica é completamente marginal. Erdogan certamente não é um islamita, mas um conservador orientado por valores muçulmanos. Ele se manteve discreto em relação a isso até recentemente, mas, numa explosão de autoconfiança, começou a defender os valores muçulmanos.

Depois de 11 anos no poder, o AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento) sofre de fadiga?

Acredito que sim. Observo que Erdogan parece muito cansado. Ele se impôs ao ponto da exaustão. Até os comunistas chineses trocam seus líderes a cada dez anos. Além disso, suspeita-se que ele tenha diabete e talvez câncer de cólon.

O CHP (Partido Popular Republicano, de oposição) tem chances reais nas próximas eleições locais, presidenciais (ambas em 2014) e parlamentares (2015)?

O CHP não tem chances. Ele é composto em sua maioria por aqueles que não confiam na democracia, que apoiam os militares, enquanto que o AKP é formado pelos que acreditam na democracia majoritária. Esse é o nosso dilema. Mas estamos aprendendo a democracia fazendo. Assim como o papel político dos militares é contido pelo AKP, o autoritarismo de maioria do AKP deverá ser contido pelo povo.

O que mudaria com o CHP no poder?

Se o CHP chegar ao poder, terá de ser em aliança com o MHP (Partido do Movimento Nacionalista, de extrema direita). Essa coalizão provavelmente frearia as reformas democráticas inspiradas no modelo da União Europeia, solaparia o processo de paz com o PKK (grupo que luta pela autonomia do Curdistão) e arruinaria a economia com populismo e estatismo.

Há outra grande força política?

O pró-curdo BDP é o quarto maior partido, com 7%, portanto abaixo do mínimo de 10% (para ter bancada no Parlamento). Desde que o PKK cessou a violência, eles têm defendido a democracia pluralista. A força nos bastidores são obviamente os militares. Vamos rezar para que eles continuem nos quartéis.

Os protestos têm ligação com a desaceleração econômica?

Ela ainda não é muito sentida. Terá efeitos nas eleições locais, em março.

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