Por: André | 05 Junho 2013
“O Concílio Vaticano II é pedra angular na história da Igreja. Roncalli foi um homem de governo conduzido pelo Espírito”. A intuição profética do Papa João “da convocação do Concílio” e a “oferta da própria vida para seu êxito”, “o amor pela tradição da Igreja e a consciência de sua constante necessidade de atualização”, seguirão sendo “farol de luz” para a Igreja. João, segundo a homenagem de seu sucessor Francisco, “era homem de governo, era um dirigente conduzido pelo Espírito Santo”.
A reportagem é de Giacomo Galeazzi e publicada no sítio Vatican Insider, 03-06-2013. A tradução é do Cepat.
O Papa Francisco se perguntou, no encontro com 2.000 pessoas provenientes de Bérgamo (que chegaram à Praça São Pedro em peregrinação para recordar os 50 anos da morte do Papa Roncalli): “O mundo inteiro reconheceu em João um pastor e um pai. Pastor porque pai. O que o converteu nisso? Como pôde chegar ao coração de pessoas tão diferentes, inclusive de muitos não cristãos?” Como resposta, o Papa Francisco propôs partir do conceito de paz. O Pontífice uniu-se à peregrinação, recolheu-se em oração ajoelhado diante da urna que contém os restos do beato. Bergoglio (recebido entre aplausos e lenços brancos) dirigiu um discurso aos presentes e desceu à basílica em companhia do secretário de Estado Tarcisio Bertone e do arcipreste de São Pedro, Angelo Comastri, ao final da missa celebrada pelo bispo de Bérgamo Francesco Beschi.
“Tudo como havia anunciado a diocese de Bérgamo”, destacou ao Vatican Insider o porta-voz da Santa Sé, o padre jesuíta Federico Lombardi (que, além disso, desmentiu os rumores sobre a renúncia que Tarcisio Bertone teria apresentado durante o final de semana).
“O Papa João transmitia paz porque tinha um ânimo profundamente pacificado”. A paz que transmitia, observou o Papa, é “uma paz natural, serene, cordial: uma paz que com sua eleição ao pontificado se manifestou ao mundo e recebeu o nome de ‘bondade’”. O Papa Francisco voltou a definir Roncalli como “eficaz tecedor de relações, promotor válido de unidade dentro e fora da comunidade eclesial, aberto ao diálogo com os cristãos de outras Igrejas, com expoentes do mundo judaico e muçulmano e com muitos outros homens de boa vontade”.
O processo interior que levou o Papa bom a ser um homem pacificado, capaz de encarnar a paz, explicou o Papa latino-americano, ficou documentado no Diário da Alma, que seu predecessor escreveu ao longo de toda a sua vida. “Exatamente há 50 anos, justamente a esta hora, o Beato João XXIII deixou este mundo”, pontualizou Francisco. “Aqueles que, como eu, têm uma certa idade – disse o Pontífice – mantêm uma viva recordação da comoção que se difundiu mundo afora nesses dias: a Praça São Pedro converteu-se em um santuário ao ar livre, acolhia todos os dias e todas as noites fiéis de todas as idades e condições sociais, em intensa oração pela saúde do Papa”. Além disso, “é muito bonito encontrar um sacerdote bom; isto me faz pensar em Santo Inácio (não faço publicidade) – brincou Francisco – quando falava das qualidades que um superior deve ter. elenca isso, aquilo... uma longa lista de qualidades, e caso não tiver nenhuma destas virtudes, disse Santo Inácio, pelo menos que tenha a bondade, que seja pai, sacerdote, com bondade”. Hoje, dia 03 de junho, pela manhã, Francisco havia recordado o “Papa bom”, indicando que era um “modelo de santidade”.
O cardeal francês Paul Poupard, ex-ministro da Cultura, narrou para o Vatican Insider seu encontro de hoje com os peregrinos de Bérgamo: “descrevi aos devotos de Roncalli o instante em que João XXIII mudou a história ao anunciar o Concílio – explicou o cardeal. Eu, nessa época, prestava serviços na seção francesa da Secretaria de Estado vaticana e quase todos os dias o secretário do Papa, Loris Capovilla, vinha para me ver e informar-se sobre essa Igreja da França da qual Roncalli havia sido núncio apostólico”. O cardeal acrescentou uma história pessoal: “Há um mês estive em Sotto il Monte, em um congresso sobre o Vaticano II organizado pelo Instituto Paulo VI de que fez parte – afirmou Poupard. Dom Capovilla acabava de receber um telefonema de Francisco e me disse: “É o Papa João redivivo”. Há 50 anos em Roma se repetia: ‘Não haverá mais um Papa bom e santo como Roncalli’. Agora temos um”.
João foi eleito para ser um “Papa de transição”. “E foi uma verdadeira transição – escreve o L’Osservatore Romano. Sobretudo pela intuição surpreendente e necessária, inspiração seguramente providencial na ótica da fé, do Concílio, já desde as primeiras semanas do Pontificado e cujo anúncio explodiu como uma bomba no dia 25 de janeiro de 1959”.
Hoje, na Praça de São Pedro, as Palavras de Francisco foram claras: “A 50 anos da sua morte, a sábia e paterna orientação do Papa João, o seu amor pela tradição da Igreja e consciente da necessidade constante de atualização, a intuição profética da convocação do Concílio Vaticano II e a oferta da própria vida por sua bondade vivida, permanecem como marcos na história da Igreja do século XXI e como um farol de luz para o caminho que nos espera”.
No discurso para começar o encontro com o Papa, o bispo de Bérgamo, Beschi, disse: “Permita-me que faça uma confidência; para muitos de nós parece que há uma semelhança nos gestos, na linguagem, na atitude, na paixão evangélica, na abertura para todos com João XXIII”.