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Francisco, retorno ao Concílio Vaticano II. Artigo de Massimo Faggioli

João Paulo II foi o último papa padre conciliar. Bento XVI foi o último papa perito conciliar. O Papa Francisco terá que fazer com que a Igreja dê um passo em relação à memória do Concílio.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 21-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco falou explicitamente do Vaticano II uma semana após a eleição, depois de ter enviado nos primeiros dias muitos sinais implícitos acerca da sua lealdade ao Concílio, dentre os quais a carta enviada ao rabino-chefe da comunidade judaica de Roma, Riccardo Di Segni, na qual o papa recém-eleito expressava o auspício de "poder contribuir para o progresso que as relações entre judeus e católicos conheceram desde o Concílio Vaticano II".

No discurso do dia 20 de março aos delegados fraternos das outras Igrejas e religiões, o Papa Francisco lembrou explicitamente João XXIII e a decisão de convocar o Concílio, e citou o parágrafo 4 da declaração do Concílio Nostra Aetate sobre as religiões não cristãs, o documento que melhor revela a figura profética daquele Concílio.

Na primeira semana de pontificado, muitos se perguntaram se, quando e como o novo papa abordaria a questão do Vaticano II. O Papa Francisco fez isso de modos diferentes: a exegese do nome Francisco no auspício de uma "Igreja pobre para os pobres"; a ênfase eclesiológica do seu próprio ministério como "bispo de Roma", com todas as consequências institucionais e ecumênicas que essa ênfase comporta; a nobre simplicidade da missa de início de pontificado, sinal de uma aceitação plena e sem complexos da reforma litúrgica do Vaticano II; o discurso aos delegados, com uma citação por extenso do Concílio e do papa que o convocou.

João Paulo II foi o último papa padre conciliar; Bento XVI foi o último papa perito conciliar. O Papa Francisco deverá fazer com que a Igreja dê um passo em relação à memória do Concílio e deverá gerir, também por esse motivo, uma herança nada simples: durante o pontificado de Bento XVI, o objeto "Concílio Vaticano II" havia se tornado novamente matéria de controvérsia, a ponto de caracterizar a política doutrinal vaticana no período ratzingeriano. O modo com o qual o Papa Francisco irá falar do Concílio também será indicativo da sua abordagem a todo o pontificado anterior e ao legado magisterial de Bento XVI.

Mas parece evidente desde já que o Papa Francisco vê no Concílio Vaticano II uma das condições de existência da Igreja contemporânea, sem necessidade de sutis distinções hermenêuticas em benefício de um eleitorado tradicionalista que fazia parte da plateia do ratzingerismo – e que agora se encontra novamente órfã de um papa que havia oferecido à pequena minoria do catolicismo relutante a aceitar o Concílio sutis questões hermenêuticas receptíveis somente por um público não ideologizado.

O Papa Francisco não é o papa liberal que alguns ingenuamente esperam e não é o teólogo da libertação vingador da repressão de Boff, Gutiérrez e Sobrino. Mas certamente também não é um ideólogo da restauração anticonciliar: do que vimos até agora, o patrimônio teológico, litúrgico, ecumênico e inter-religioso faz parte, e de modo pleno, dos primeiros atos e palavras do Papa Bergoglio.

Já há alguns "católicos do dissenso" desiludidos com o Papa Francisco; mas são muitos mais aqueles que notam uma mudança de ênfase na atitude do novo papa com relação às ideias-chave do Vaticano II.

Este pontificado poderia desempenhar um papel crucial na remoção do Vaticano II das "narrativas" ideológicas da última década sobre o Concílio como teologia liberal ou como teologia dépassé. O Vaticano II é, para a teologia católica, o common ground para diversas sensibilidades culturais e políticas, um terreno comum que resiste aos sectarismos e aos revisionismos: não por acaso é um papa não europeu e não norte-americano que herda essa tarefa.

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