Cinco pensamentos sobre o novo G8 do papa

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17 Abril 2013

Um anúncio feito pelo Vaticano na quinta-feira da semana passada de que Francisco nomeou oito cardeais para assessorá-lo na governança representa o primeiro passo concreto rumo à reforma que tanto se esperava na véspera do conclave que levou um outsider latino-americano ao papado. 24 horas mais tarde, cinco pontos parecem dignos de nota em relação ao “G8”, que, provavelmente, será a mais importante caixa de ressonância do novo papa.

A reportagem é de John Allen Jr e publicada por National Catholic Reporter, 14-04-2013. A tradução é de Luiz Marcos Sander.

Gabinete de governo, não comissão de alto nível

Em algumas das primeiras manifestações, a missão desse órgão foi descrita como a de ajudar Francisco a reformar a Cúria Romana. Entretanto, ao ler o anúncio de sábado, vê-se não é isso que ele diz. A linha-chave afirma que Francisco reuniu esse grupo “para assessorá-lo no governo da igreja universal”, e só depois “para estudar um plano para revisar a Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, Pastor Bonus”.

Em outras palavras, a reforma da Cúria é apenas a tarefa segunda. A primeira é assessorar o papa em decisões sobre a igreja universal, o que significa que não há quase nada que fique fora de seu alcance.

Invocando paralelos de governos seculares, não se trata de uma comissão de alto nível reunida para cumprir uma única tarefa, como reformar a seguridade social ou recomendar o fechamento de bases militares. Ela se parece mais com um gabinete de governo, um órgão que assessora o executivo-chefe sobre quase qualquer assunto que entre em sua pauta.

Não são homens do tipo “sim, senhor”

Olhando a lista dos oito cardeais escolhidos por Francisco, vê-se que são personalidades fortes, e não homens do tipo “sim, senhor”, inclinados a dizer ao papa aquilo que ele quer ouvir.

O Cardeal George Pell, de Sydney, pode ser um sólido conservador em termos de doutrina, mas, durante o período que antecedeu o conclave, ninguém se manifestou mais do que ele sobre a disfunção presente na gestão do Vaticano. Como se sabe, ele disse o seguinte sobre os anos do pontificado de Bento XVI: “A governança é feita pela maioria das pessoas que rodeiam o papa, e ela nem sempre foi feita de maneira brilhante.”

O Cardeal Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga entrou em conflito com potentados do Vaticano, incluindo um impasse com o Cardeal Tarcisio Bertone, seu irmão da Ordem Salesiana, em relação a uma revisão ou modernização da Caritas Internationalis.

O Cardeal Sean O’Malley, de Boston, juntou sua voz à do Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, em 2010, em sua crítica ao Cardeal Angelo Sodano por designar a crítica à forma como a igreja lidou com os abusos sexuais como “mera fofoca”.

Ao longo dos anos, tanto o Cardeal Laurent Monsengwo Pasinya, da República Democrática do Congo, quanto o Cardeal Oswald Gracias, da Índia, defenderam uma maior liberdade de ação para as igrejas locais e conferências regionais de bispos.

Esses antecedentes sugerem que Francisco recorreu a prelados que provavelmente lhe darão conselhos de verdade, e não a pessoas que aprovam qualquer coisa sem questionar.

Colegial em múltiplos níveis

A decisão de reunir esse grupo de assessores parece ser um ato de colegialidade, ou seja, autoridade compartilhada, em três níveis, ao menos.

Em primeiro lugar, e o mais óbvio, colocar um grupo de líderes de dioceses do mundo inteiro no topo da estrutura é uma forma de dizer que o Vaticano deve prestar contas às igrejas locais, e não sempre o contrário. Nesse sentido, essa é uma forma de implementar a conclamação a uma maior colegialidade que remonta ao Concílio Vaticano II (1962-65).

Em segundo lugar, está claro que esse grupo pretende ser geograficamente representativo, pois inclui ao menos um cardeal de cada continente. Quando o secretário de Estado Tarcisio Bertoni ligou para esses cardeais no início da semana passada, em nome do papa, para perguntar se aceitavam a nomeação, disse explicitamente a alguns deles que estavam sendo solicitados a atuar como representantes de suas respectivas regiões geográficas.

Em terceiro lugar, esse grupo inclui o atual presidente da Comissão de Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (o Cardeal Reinhard Marx, de Munique) e da Federação de Conferências Episcopais Asiáticas (Gracias), bem como ex-presidentes do Simpósio de Conferências Episcopais da África e de Madagascar (Monsengwo) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (o Cardeal Francisco Javier Errázuriz Ossa, do Chile).

É improvável que essas escolhas tenham sido acidentais. Elas sugerem uma revitalização do papel das conferências de bispos, tanto em nível nacional quanto regional, sob Francisco.

Asas cortadas para a Secretaria de Estado

Desde a eleição do novo papa, têm-se ouvido especulações constantes em Roma a respeito de quem Francisco iria escolher para ser o novo secretário de Estado, sendo essa escolha geralmente considerada o primeiro teste-chave para verificar quão a sério Francisco está levando a questão da reforma.

À luz do anúncio de sábado, entretanto, agora parece menos crucial saber quem assumirá no lugar de Bertone porque o papel da Secretaria de Estado parece destinado a perder importância sob Francisco. Em vez de ser o superdicastério onde são tomadas todas as decisões importantes referentes à governança da igreja, talvez sua função seja mais a de ser uma equipe de apoio para o papa e seus oito assessores.

Mesmo sem esse novo grupo, é provável que o secretário de Estado viesse a ser menos central. Tudo que se sabe sobre o estilo administrativo do Cardeal Jorge Mario Bergoglio em Buenos Aires sugere que ele prefere tomar as decisões importantes diretamente, e não recorrer a um “braço direito”. A criação do “G8”, porém, representa outro dispositivo “corta-fogo” entre Francisco e uma dependência excessiva das estruturas burocráticas usuais.

O jornalista italiano Paolo Rodari foi o primeiro a publicar uma matéria sobre o novo gabinete do papa com base em comentários que Francisco fez na sexta-feira a um grupo de bispos da Toscana. Rodari descreveu as implicações desse gabinete de governo para a Secretaria de Estado com as seguintes palavras: “Ela vai continuar existindo, mas será substancialmente enfraquecida.”

Troca de papéis para Rodríguez Maradiaga e O’Malley

Nada como a eleição de um novo papa para promover mudanças na igreja em termos de quem sobe e de quem desce, e a escolha de Francisco ilustra claramente esse princípio para dois dos cardeais nomeados para esse “G8”: Rodríguez Maradiaga, de Honduras, e O’Malley, de Boston.

Não faz muito tempo, o consenso entre os observadores da igreja era que Rodríguez Maradiaga estava basicamente liquidado. Ele era visto como excessivamente de centro-esquerda para muitos no Vaticano, especialmente em assuntos de economia e justiça social. Em 2002, ele tropeçou por causa de alguns comentários dissonantes sobre a crise dos abusos sexuais, e algumas pessoas achavam que tinha lidado equivocadamente com o golpe de 2009 em Honduras. Ele também perdeu um debate interno no Vaticano em 2011 em torno da Caritas.

Agora, entretanto, ele é amplamente percebido como uma das figuras-chave por trás da eleição do Papa Francisco e foi solicitado a assumir a função de coordenador desse novo grupo de oito cardeais. É possível que, em breve, Rodríguez Maradiaga, de 70 anos, seja visto como a segunda figura mais poderosa na igreja depois do próprio papa.

Quanto a O’Malley, ele é o cardeal americano que o novo papa melhor conhece. Ele fala espanhol fluentemente e foi hóspede na casa de Bergoglio em Buenos Aires há alguns anos. Os dois também têm muitos amigos em comum por toda a igreja na América Latina.

Além disso, ele é o cardeal americano que está mais claramente sintonizado com o espírito do novo papa. Ambos provêm da vida religiosa (Bergoglio é jesuíta, O’Malley, capuchinho) e ambos estão claramente comprometidos com o exemplo de Francisco de Assis. Consideremos os adjetivos normalmente usados para descrever o novo papa: simples, humilde, próximo ao povo. Nos Estados Unidos, as mesmas coisas vêm há muito sendo ditas sobre O’Malley.

É bem conhecido que, em novembro de 2004, O’Malley confessou que “às vezes eu peço a Deus que me leve para casa e faça com que alguém outro termine essa tarefa”, sugerindo que se sentia assoberbado com as exigências da governança em Boston.

Com o passar do tempo, O’Malley se refez, e agora parece preparado para se tornar, sob este papa, o que o Cardeal John O’Connor foi sob João Paulo II e o que o Cardeal Timothy Dolan foi sob Bento XVI: o homem de confiança do pontífice não só nos Estados Unidos, mas também na América do Norte e em grande parte do mundo de língua inglesa.

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