Desafios para uma ''Igreja pobre para os pobres''

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22 Março 2013

Apenas no caso de alguém ter perdido a frase-chave da sua homilia durante a missa inaugural no dia 19 de março, o Papa Francisco depois a transformou em seu terceiro tuíte desde que assumiu o ofício: "O verdadeiro poder é o serviço. O papa deve servir a todos, especialmente aos mais pobres, aos mais fracos, aos mais pequeninos".

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 19-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A frase se baseia em um tema constante desde a eleição de Francisco, memoravelmente expresso durante um encontro com jornalistas no último sábado.

"Como eu gostaria de uma Igreja pobre para os pobres", disse Francisco. É um sentimento apropriado para um papa que tomou o seu nome de Francisco de Assis, um santo conhecido pelo seu caso de amor com a Senhora Pobreza.

Agora que o novo papa chegou ao fim do seu início, o foco vai mudar do estilo para a substância, ou seja, para o trabalho árduo de traduzir o seu início promissor para os elementos básicos das políticas. Com relação à promoção de uma "Igreja pobre para os pobres", Francisco irá enfrentar ao menos quatro desafios logo ao sair do portão.

1. O mito e a realidade da riqueza vaticana

Dada a grandiosidade da Basílica de São Pedro e do Palácio Apostólico, o Vaticano pode parecer ser um lugar contraintuitivo para buscar o sonho de uma Igreja pobre. Alguns podem esperar que o novo papa organize uma liquidação na Praça de São Pedro – em um sentido metafórico, seguindo o seu homônimo, Francisco de Assis, limpando o lugar antes de começar do zero.

Esse programa, na verdade, é mais fácil de aplaudir do que de realizar.

Para começo de história, a lendária riqueza do Vaticano é mais um mito do que realidade. O Vaticano tem um orçamento operacional anual de menos de 300 milhões de dólares, enquanto a Universidade de Harvard, indiscutivelmente o Vaticano da opinião secular de elite, tem um orçamento de 3,7 bilhões de dólares, ou seja, 10 vezes maior. O "patrimônio" do Vaticano, o que outras instituições chamariam de dotação, é de cerca de 1 bilhão de dólares. Neste caso, Harvard está à frente com um robusto fator 30, com uma dotação de 30,7 bilhões de dólares.

O Banco do Vaticano controla bens estimados em mais de 6 bilhões de dólares, o que certamente não é pouca coisa, mas a maior parte desse valor não é dinheiro do Vaticano. Ele pertence a ordens religiosas, dioceses, movimentos e outras organizações católicas, e é gerido pelo Instituto para as Obras de Religião, para facilitar a movimentação ao redor do mundo.

Naturalmente, esses dados não incluem o valor das obras-primas da arte ocidental conservadas no Vaticano, como a Pietà de Michelangelo. O Vaticano considera-se como o guardião desses itens, e não seu proprietário, e é uma questão de lei vaticana que eles nunca podem ser vendidos ou emprestados. Como resultado, eles não têm nenhum valor prático e estão listados nos livros do Vaticano com um valor de 1 euro cada.

Além de vender a limusine papal, que o Papa Francisco não parece inclinado a usar, e bugigangas como a mozeta bordada em carmesim, que ele não parece inclinado a usar, é difícil ver imediatamente o que ele poderia descartar a ponto de alterar drasticamente as percepções.

Além disso, Francisco foi eleito em parte em uma plataforma de reforma da burocracia do Vaticano na direção de uma maior transparência, responsabilização e eficiência. Assumindo que ele monte uma equipe de reformadores, ele vai precisar se certificar de que eles têm as ferramentas para fazer o trabalho. Ao menos inicialmente, isso pode exigir mais dinheiro para as operações vaticanas, ao invés de menos.

Por outro lado, Paulo VI famosamente decidiu remover a tiara, ou coroa, papal e pediu que o lucro da sua venda fosse para os pobres. Talvez Francisco possa fazer o mesmo, renunciando a alguns poucos itens associados com o passado real do Vaticano como um passo a mais rumo à modéstia.

Em todo caso, poderia ajudar se o mundo exterior pudesse ver os ambientes relativamente espartanos em que a maioria das autoridades vaticanas realmente vivem e trabalham, ao contrário dos cenários resplandecentes usados para encenar os rituais públicos. Simplesmente levantando alguns véus de sigilo, Francisco poderia avançar um longo caminho no sentido de recalibrar as impressões.

2. Transparência financeira

Se Francisco levar a sério a pregação sobre uma "Igreja pobre" diante do mundo, ele será desafiado a se certificar de que o Vaticano mantenha o seu próprio nariz limpo com relação à gestão do dinheiro. No passado, tanto distante quanto recente, essa é uma área onde o Vaticano às vezes tropeçou.

Uma das revelações mais espetaculares como resultado da crise de vazamentos vaticanos foram as cartas escritas por uma ex-autoridade do governo do Estado da Cidade do Vaticano, hoje embaixador do papa em Washington, que descreviam a corrupção generalizada e o nepotismo nas finanças vaticanas. Embora os valores em dólares sejam pequenos para os padrões das grandes organizações, as acusações, no entanto, deram ao Vaticano uma má reputação.

O Banco do Vaticano também tem enfrentado acusações persistentes de negócios escusos. Tanto o presidente quanto o diretor, o leigo italiano Paolo Cipriani, foram postos sob investigação pelas autoridades italianas em 2010, e ao mesmo tempo 30 milhões de dólares em bens foram apreendidos por supostamente não seguirem os protocolos europeus antilavagem de dinheiro. O dinheiro foi liberado em maio de 2011, e nenhuma acusação criminal foi movida contra as duas autoridades.

Em maio passado, o renomado economista italiano Ettore Gotti Tedeschi foi despejado como presidente do banco, depois de uma luta interna de poder. Ele havia sido nomeado em 2009, com o perfil de um reformador, mas um conselho de supervisores criticou-o por comportamento errôneo e por um pobre desempenho no trabalho.

Mais recentemente, o Deutsche Bank Italy anunciou no dia 31 de dezembro que estava suspendendo os serviços de pagamento eletrônico para o Vaticano, porque ele não possuía uma adequada autoridade bancária regulatória. O Vaticano rapidamente teve que fazer suas transações em dinheiro apenas, incapaz de aceitar cartões de crédito em seus museus e correios. Esses serviços foram restaurados depois que o Vaticano elaborou um novo acordo com a empresa suíça de pagamentos sem dinheiro Aduno SA.

Os defensores de Bento XVI argumentam que essa é uma área em que o ex-papa se perfila como um reformador.

Bento XVI criou uma nova "Autoridade de Informação Financeira" no Vaticano, empoderando-a para inspecionar os livros-caixa dos outros departamentos. Essa foi uma pequena revolução cultural, já que os vários escritórios vaticanos estão acostumados a ser feudos semiautônomos que respondem apenas a Deus e ao papa, e em ambos os casos de forma bastante nominal.

Bento XVI também trouxe um renomado especialista antilavagem de dinheiro para gerir a agência, um advogado suíço chamado René Brülhart, cuja fama anterior era de ter limpado a reputação de Lichtenstein como um pária financeiro. A nomeação foi lida por especialistas em antilavagem de dinheiro como um sinal claro de que o Vaticano estava determinado.

Mais impressionante ainda, Bento XVI aprovou uma primeira avaliação na história das operações financeiras do Vaticano pela Moneyval, a agência do Conselho da Europa para a antilavagem de dinheiro. Nunca antes o Vaticano abrira os seus sistemas financeiros e legais para revisão externa e independente, com resultados tornados públicos. Nos séculos passados, se as autoridades seculares aparecessem para realizar tal investigação, elas teriam sido combatidas com unhas e dentes. Para a Moneyval, ao contrário, foi estendido o tapete vermelho.

Francisco será desafiado a continuar essas reformas, especialmente nos dois pontos de interrogação mais sérios identificados pela avaliação da Moneyval: o papel e os poderes da nova agência de vigilância e a regulação externa do Banco do Vaticano.

Como se não bastasse, Francisco pode precisar pressionar tanto a sua equipe financeira quanto os seus especialistas em comunicação para fazer um trabalho melhor para persuadir o mundo exterior de que o Vaticano está jogando dentro das regras. Independentemente de quão limpo o lugar possa estar interiormente, vai levar tempo, e provavelmente uma dose mais forte de sol, para que as percepções externas se recuperem.

3. A Igreja e a política

Para muitas pessoas, incluindo muitos católicos, a preocupação com os pobres só é crível se vier com um viés político. Essa foi a essência do movimento da teologia da libertação, que cresceu na América Latina nos anos 1960 e 1970, que buscou colocar a Igreja ao lado dos pobres na luta pela mudança social.

Notoriamente, o então padre Jorge Mario Bergoglio, à época atuando como provincial jesuíta na Argentina, não foi exatamente um apaixonado pela teologia da libertação. Sua relutância não nasceu da indiferença para com os pobres, mas sim da convicção de que a conversão individual tem que preceder à mudança estrutural, e que os padres não devem perder de vista o seu papel primordial como ministros de almas.

Mesmo assim, muitos católicos latino-americanos à época leram a sua posição como em desacordo com os interesses da justiça social, e todo o mundo pode estar inclinado a chegar à mesma conclusão se Francisco continuar a insistir em manter a Igreja distante da política.

Francisco obviamente acredita que o status quo político é injusto, um ponto reiterado para ele pela crise econômica da Argentina de 1999 a 2002. Essa experiência ajudou a inspirar estas palavras durante uma sessão dos bispos latino-americanos em 2007: "Vivemos na zona mais desigual do mundo, onde a redução da miséria foi menor", disse o futuro papa. "A distribuição injusta dos bens continua, criando uma situação de pecado social que clama ao céu e limita as possibilidades de uma vida mais plena para muitos dos nossos irmãos".

Ouvindo a sua conversa sobre uma "Igreja pobre para os pobres", muitas pessoas naturalmente vão esperar que o Papa Francisco desafie as injustiças sociais e políticas de frente – pressionando por uma maior ajuda financeira para o mundo em desenvolvimento, por exemplo, ou pela reforma nas instituições internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, ou exigindo que os governos ocidentais correspondam às suas obrigações segundo as Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU.

Na medida em que ele abordar essas instâncias, ele vai enfrentar a reação de círculos de opinião conservadores dentro e fora da Igreja, assim como de observadores seculares que se perguntam o que qualifica um líder religioso a se pronunciar sobre política econômica. Se ele se retrair do apoio específico, os críticos podem ser tentados a concluir que toda a sua retórica "Igreja dos pobres" é oca.

Todos os papas, é claro, enfrentam o desafio de resolver precisamente o quão "políticos" eles deveriam ser, percebendo muito bem que alguém vai ficar infeliz independentemente do que eles fizerem. No entanto, para um papa que chega ao ofício anunciando a preocupação pelos pobres como o coração do seu pontificado, as apostas são especialmente elevadas.

4. Simplicidade versus segurança

Uma forma pela qual Francisco sinalizou a sua preocupação para com os pobres e os vulneráveis é tornando-se disponível a eles tanto quanto possível. Durante a sua missa inaugural no dia 19, por exemplo, ele insistiu em usar um jipe aberto para a sua volta pela Praça de São Pedro, ao invés do papamóvel à prova de balas, parando em um momento para abraçar um homem enfermo.

No nível do simbolismo, tal comportamento projeta uma preocupação vívida pelas pessoas comuns, especialmente por aqueles nas margens, que capturou a imaginação do mundo, e pode muito bem alimentar um espírito mais profundo de serviço entre os católicos comuns.

No entanto, isso também está inspirando preocupação entre a equipe de segurança vaticana, que está profundamente preocupada pelo fato de que o novo papa está se deixando muito exposto.

Para aqueles cujas memórias são maiores, a visão do Papa Francisco naquele jipe na manhã de terça-feira pode ter provocado um flashback ao dia 13 de maio de 1981. Essa é precisamente a forma como João Paulo II costumava fazer o seu caminho através da praça, até que uma bala assassina quase lhe custou a vida, e o papamóvel foi projetado como uma solução de compromisso entre a acessibilidade e a segurança.

Eu já disse na CNN algumas vezes que as únicas pessoas que não ficaram encantadas com Francisco até agora são os seus agentes de segurança, que estão ficando loucos. A frase sempre atrai uma risada, mas, se algo vier a acontecer a Francisco, de repente isso não será mais motivo de riso.

Francisco não é ingênuo quando se trata da forma como ele é percebido, e ele sabe que é difícil pregar o amor aos pobres se você vive completamente distante deles. Os papas ensinam com gestos, tanto quanto com palavras, de modo que a imagem dele abraçando pessoas comuns, compartilhando suas alegrias e dores, tem um valor icônico inegável.

Ao mesmo tempo, qualquer papa também tem a responsabilidade de não colocar um fardo irrazoável sobre as pessoas responsáveis por proteger a sua segurança. Esse é um balanço que Francisco terá que fazer enquanto este "papa dos pobres" se instala no ofício.

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