Francisco e aquele ciclo que talvez irá se fechar

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22 Março 2013

Se um dos primeiros santos do Papa Francisco for realmente Carlos de Dios Murias, o franciscano de 31 anos torturado e morto pelos militares em 1976 pela sua simpatia com a teologia da libertação, então se poderá dizer que uma época terminou e outra inicia.

A reportagem é de Sergio Soave, publicada no jornal La Stampa, 21-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não no sentido superficial que alguns serão tentados a dar, isto é, como sinal de um repensamento oficial da Igreja, mas ao menos como primeira superação de um tabu que a impediu até agora de reconhecer os seus próprios mártires sul-americanos, só porque foram vítimas dos chamados regimes ditatoriais extremamente cristãos. E será possível, então, que muitos outros episódios venham à luz, o primeiro dos quais, paradigmático e ainda em aberto, de Dom Enrique Angelelli, do qual Murias era o discípulo predileto.

Filho de imigrantes italianos, Angelelli havia iniciado no fim dos anos 1950 o seu apostolado entre os paupérrimos das favelas de Córdoba. Nomeado bispo auxiliar pelo Papa João XXIII e removido do seu cargo pela resistência dos ambientes eclesiásticos mais conservadores, ele havia sido novamente escolhido por Paulo VI como bispo de La Rioja, a diocese mais pobres da Argentina.

Há apenas um ano havia sido publicada a encíclica Populorum Progressio, que, quase em contraste com a habitual incidência atormentada do papa, havia posto com uma clareza jamais alcançada o dever cristão de abordar em termos radicais o tema da pobreza dos povos do terceiro mundo. Angelelli havia tentado interpretar o seu sentido na ação pastoral cotidiana, novamente provocando reações surdas, desta vez rebatidas com a ajuda do chefe dos jesuítas, Pedro Arrupe.

Mas em março de 1976, o golpe militar do general Videla marcou o seu fim.

Diante da brutalidade do regime, o cândido e frágil bispo se recusou a celebrar a missa nos quartéis onde se torturavam os dissidentes e, principalmente, não quis subir no palco em que aparecia "o General Presidente", em visita à sua região, porque – tinha objetado com um tímido sorriso aos funcionários estarrecidos que predispunham a cerimônia – "o bispo não pode apertar a mão daquele que oprime o seu povo".

Pouco depois, ele seria morto da forma mais infame, em um acidente de carro simulado, para que lhe fosse negado também o reconhecimento do martírio.

Era o dia 4 de agosto de 1976. Uma Igreja confusa e incerta aceitou a versão oficial.

E dali a pouco, em Puebla, Karol Wojtyla sancionaria uma variação de linha: era prioritária a luta contra o marxismo, do qual a teologia da libertação parecia sofrer as sugestões. O tema da pobreza foi abordada dentro da consolidada doutrina social da Igreja, e a um jovem cardeal alemão, Joseph Ratzinger, nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, era confiada a tarefa de desmontar no plano teológico os desvios latino-americanos.

Assim, a ação poderosa e decisiva do papa voltada à libertação da Europa do comunismo se traduziria na América Latina no seu oposto: a libertação daqueles povos das ditaduras ocorreria com uma Igreja obrigada a acompanhar os acontecimentos, mais do que os determinar, o que constituiria a raiva permanente daqueles muitos sacerdotes perseguidos que, como Arturo Paoli (autor do célebre Diálogo da libertação e hoje felizmente centenário), pensavam no evangelho como instrumento de libertação integral do ser humano.

Agora, toda essa história passada surge novamente com e na figura do Papa Francisco.

Em 2006, Néstor Kirchner proclamou no dia 4 de agosto o Dia de Luto Nacional, justamente em memória de Dom Angelelli. E, um ano atrás, o ainda bispo Jorge Mario Bergoglio, embora recomendando discrição, decidiu desafiar as reações previsíveis, dando início à causa de beatificação do seu discípulo.

Agora, ele é papa de uma Igreja que quer ser pobre e para os pobres. E mesmo na advertência franciscana a "cuidar da terra", há um eco, certamente inconsciente, de um conceito-chave da teologia da libertação. Justamente aquela que foi combatida muitos anos atrás por aquele jovem cardeal alemão que lhe deixou o posto, propondo-o, diz-se, como seu sucessor.

Tudo naturalmente aconteceu no sinal da continuidade, e é cedo para decifrar o curso dos acontecimentos. Mas, mesmo que apenas algumas das premissas destes dias se realizasse, então realmente se fecharia um ciclo e se confirmaria a convicção de Arturo Paoli, muitas vezes repetida nos momentos em que ele não entendia a sua própria Igreja, que "o Espírito Santo age pela contradição".

Esse é o modo das pessoas de fé de dar sentido aos não infrequentes paradoxos da história.